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Venezuela

Decisão dos EUA de congelar bens do regime de Maduro tem pouco efeito prático

Segundo especialistas, negócios lucrativos da ditadura venezuelana são ilegais e clandestinos

Sylvia Colombo
Buenos Aires

A decisão do governo dos EUA de congelar todos os bens do regime do ditador Nicolás Maduro no país é, sem dúvida, uma ação importante de pressão sobre a Venezuela.

Sanções como essas, porém, têm alcance limitado, segundo políticos opositores e especialistas ouvidos pela Folha.

Os negócios lucrativos da ditadura venezuelana são ilegais e clandestinos —a saber: narcotráfico, mineração ilegal e extorsão—, e por isso, não levam o nome de Nicolás Maduro nem de seus principais funcionários no governo. 

O ditador venezuelano, Nicolás Maduro, discursa no encerramento do Foro de São Paulo, realizado em Caracas
O ditador venezuelano, Nicolás Maduro, discursa no encerramento do Foro de São Paulo, realizado em Caracas - Federico Parra - 28.jul.19/AFP

Até aqui, não têm faltado atores que deram voz a essas acusações. Ex-militares que colaboraram na denúncia levada ao tribunal internacional de Haia, por exemplo, afirmaram que o regime tem participação ativa nessas atividades. 

Recentemente, ex-chefe do Sebin, o serviço de inteligência bolivariano, Manuel Ricardo Cristopher Figuera, que saiu da Venezuela após deixar o líder opositor Leopoldo López escapar da prisão domiciliar, disse que "Maduro é a cabeça de uma grande estrutura criminosa". 

Escondido inicialmente em Bogotá, Figuera agora está em Washington e começou a depor à Justiça norte-americana sobre os vínculos da ditadura com o narcotráfico e com grupos extremistas do Oriente Médio, além de dar detalhes sobre a colaboração de Cuba com o regime.

À Folha a líder opositora María Corina Machado se refere ao regime de Maduro como "narcoestado". Ela, que viajou pelas fronteiras  —numa delas levando uma surra de milícias pró-Maduro—, diz que "há territórios em que não se vê outra forma de poder que os cartéis da droga, as guerrilhas e as milícias do regime".

E acrescenta: "A ditadura de Maduro é o crime organizado no poder, um narcoestado que entregou seu território para que aqui encontrassem refúgio as dissidências das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e do ELN (Exército de Libertação Nacional), cartéis mexicanos e células de grupos terroristas islâmicos", diz.

O próprio Juan Guaidó, questionado pela Folha em maio sobre sua maior preocupação caso chegue ao poder, seria combater os negócios ilícitos que estão ocorrendo nas fronteiras, onde milicianos de Maduro atuam junto a guerrilheiros e ex-guerrilheiros colombianos contra os paramilitares, do outro lado da fronteira. 

Segundo o líder opositor, grande parte do dinheiro sustenta o regime e ajuda a pagar os altos salários dos generais venezuelanos vêm desses negócios. 

Gauidó compartilha com o presidente colombiano, Iván Duque, a preocupação com uma guerra civil na região.

Em passagem pelo Brasil há algumas semanas, o deputado opositor Omar González Moreno, que já foi governador do Estado de Bolívar, onde está grande parte do chamado Arco Minero del Orinoco, região rica em ouro, disse à Folha que aí "atuam o ELN, os dissidentes das Farc, paramilitares e grupos criminosos que praticam extorsão diária contra a população e contra quem vai exercer essa atividade".

Para María Corina, o secretario de Estado dos EUA, Mike Pompeo, está certo ao dizer que o Hizbullah e outros grupos extremistas islâmicos estão atuando na Venezuela

Segundo a Folha apurou, essas atividades seriam menos a de cometer atentados, mas para obter vantagens financeiras que patrocinariam suas ações no Oriente Médio.

Para Javier Corrales, especialista em América Latina do Amherst College, até aqui o Grupo de Lima tem tido poder limitado. "Seria preciso que a a região colocasse o foco também nos negócios ilícitos do governo, porque são esses os que ajudam a financiar o apoio dos generais". 

Na última reunião do Grupo de Lima, em Buenos Aires, os países-membros se prontificaram a investigar ações ilícitas do regime de Maduro que tenham relação com a região. Nisso, porém, ainda poucos passos foram dados. 

Na reunião que ocorre nesta terça-feira, em Lima, é possível que se anunciem novas medidas. 

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