Descrição de chapéu The Washington Post

Antes de Anne Frank, houve um outro diário esquecido da Segunda Guerra Mundial

A judia Renia Spiegel, morta aos 18 anos, registrou seu cotidiano na Polônia durante o conflito

Rick Noack
Berlim | The Washington Post

Quando os nazistas reforçaram seu domínio na Europa em 1939, Renia Spiegel, uma garota judia de 14 anos na Polônia, voltou-se para um novo companheiro. "Hoje, meu querido diário, é o começo de nossa profunda amizade", escreveu ela em 31 de janeiro daquele ano. Durante mais de três anos, Renia documentou sua vida em mais de 650 páginas manuscritas e densamente preenchidas.

"Você não vai me trair", escreveu ela.

Mas alguém o fez.

Renia Spiegel (esq.), com sua mãe e irmã mais nova nas ruas de Przemysl, na Polônia, em 1937
Renia Spiegel (esq.), com sua mãe e irmã mais nova nas ruas de Przemysl, na Polônia, em 1937 - Bellak Family Archive/The Washington Post

Em 30 de julho de 1942, Renia, então com 18 anos, foi sumariamente executada pelos nazistas depois que descobriram seu esconderijo na cidade de Przemysl, no sudeste da Polônia.

Mais de meio século depois, seu diário traduzido —surpreendentemente semelhante em alguns aspectos ao de Anne Frank, mas mantido por muito tempo trancado em um cofre— finalmente será publicado nos Estados Unidos.

O lançamento previsto para terça-feira acontece em um momento crítico, com o nacionalismo e o populismo de direita suscitando comparações com a década de 1930 —inclusive nos Estados Unidos, para onde a irmã de Renia, Elizabeth Bellak, fugiu com a mãe após a Segunda Guerra Mundial.

"Estou novamente preocupada", disse Bellak, 88, falando de um hotel em Varsóvia (Polônia) nesta semana, onde iria assistir à exibição de um documentário em vídeo do cineasta polonês-americano Tomasz Magierski. Ela manifestou esperança de que a história de sua irmã ajude a "lembrar a jovens e mais velhos" os horrores daquela época.

Bellak ainda não encontrou forças para ler todo o diário que sua irmã escreveu até seus últimos dias.

"É muito emocionante, muito doloroso para mim", disse ela. Renia, como irmã mais velha, "era como uma mãe substituta para mim" e uma "pessoa maravilhosa, maravilhosa".

"Sempre que ela se entristecia, escrevia um poema", disse Bellak.

O diário de Renia indica o quanto ela se importava com sua irmã, uma estrela de cinema infantil no final da década de 1930 na Polônia, apesar de às vezes se aborrecer com a irmã mais nova pelo que considerava sua capacidade de "roubar o show".

O diário traça o caminho de Renia de uma adolescente preocupada com a ameaça iminente do nazismo até se transformar numa vítima da ocupação nazista na Polônia e sua missão declarada de exterminar o povo judeu.

Semanas antes da invasão da Polônia, Renia já parecia sentir um perigo crescente. "Mamãe está muito preocupada comigo. Oh! Estou tão infeliz", escreveu ela em março de 1939. Sua mãe passou longos períodos na capital, Varsóvia, em 1939 e nos anos seguintes, na esperança de promover sua filha mais nova como atriz de cinema.

Renia e a outra irmã ficaram para trás no sudeste da Polônia, onde Renia continuou a documentar sua crescente ansiedade. Mas ela também escreveu sobre se apaixonar e tentar seguir a vida normal.

Mais tarde naquele ano —ainda separada da mãe—, Renia escreveu sobre uma intensa sensação de urgência: "Przemysl foi atacada. Tivemos que fugir. Nós três escapamos: eu, [Elizabeth] e vovô... Vovó ficou para trás".

Semanas depois: "Santo Deus, por favor, me dê uma morte fácil". Nos três anos seguintes, em centenas de anotações detalhadas, Renia documentou a transferência de sua família para um gueto, junto com milhares de outros judeus que tiveram apenas 24 horas para se mudarem. Os nazistas estavam se preparando para as etapas posteriores do Holocausto, e seu domínio sobre o país se intensificava.

Enquanto os nazistas se preparavam para transferir milhares de judeus para um campo de extermínio, o namorado de Renia, Zygmunt Schwarzer, organizou uma tentativa desesperada de resgatar as irmãs —as duas estavam separadas uma da outra e dos avós.

"Eu daria tudo para lembrar nossas últimas palavras. Eu daria qualquer coisa para saber se eu disse a ela o quanto a amava", escreveu Bellak no posfácio do livro sobre as memórias perdidas de sua despedida de Renia.

Separar-se da avó também foi doloroso. "Minha avó, a quem eu tanto amava, virou-se, colocando as mãos sobre o rosto", lembrou Bellak.

Logo após o adeus, os nazistas descobriram o esconderijo de Renia e ela foi sumariamente executada. O destino de seus avós é desconhecido, mas Bellak acredita que eles foram mortos e enterrados em uma vala comum.

Ela e a mãe conseguiram fugir para a Áustria com a ajuda de um oficial alemão que se apaixonara pela mãe, que falava alemão fluentemente. Depois que a guerra terminou, ambas emigraram para os Estados Unidos, onde mais tarde o namorado de Renia juntou-se a elas.

"Tenho algo para você", Bellak lembrou que Schwarzer disse na época.

"Era o diário de Renia, todas as 700 páginas. Minha mãe e eu caímos em pranto", escreveu Bellak, relembrando o encontro no início dos anos 1950. Durante o tempo que passaram juntas, ela não sabia que sua irmã escrevia um diário.

Após a morte de Renia e dos pais de Schwarzer —que estavam escondidos no mesmo lugar—, o namorado terminou o diário com estas palavras: "O destino decidiu tirar de mim as pessoas mais queridas. Minha vida acabou. Tudo o que posso ouvir são tiros, tiros... tiros."

Mas, apesar dos detalhes assustadores --ou talvez por causa deles--, o diário de Renia permaneceu praticamente intocado em um cofre em Nova York durante mais de meio século.

"Não sei explicar por que me foi permitido viver, e é por isso que tentei, por tanto tempo, desviar minha mente disso", lembrou Bellak no posfácio do diário de sua irmã.

Em Nova York, Bellak frequentou a Universidade Columbia e depois se casou.

Quando seus próprios filhos começaram a perguntar sobre a história da família, ela começou a se abrir gradualmente.

"O que havia naquele livro sobre a tia?", Bellak recordou que sua filha perguntava repetidamente. "Foi assim que começou."

Tanto o cineasta Tomasz Magierski como a filha de Bellak, Alexandra Bellak, desempenharam um papel crucial no lançamento do diário, inicialmente em polonês e agora em outros idiomas.

"Minha mãe relutou em falar sobre isso porque desenterrava lembranças dolorosas", disse a filha ao "The Washington Post". "Então, pensei, bem, tem esse diário misterioso, trancado no cofre." Quanto mais páginas eram traduzidas, mais evidente era a qualidade literária e a relevância histórica do diário.

"A escrita lhe deu liberdade para se expressar", mesmo com o "mal e o ódio por toda parte", disse Alexandra Bellak sobre Renia.

"É quase uma coincidência que o diário seja publicado agora... Porque os mesmos signos estão mostrando suas cabeças feias novamente", disse ela. "É mais relevante do que nunca."

Nesta semana, Elizabeth Bellak retornou ao Hotel Europejski em Varsóvia, onde ela e sua mãe haviam se refugiado antes de finalmente fugirem para o exterior.

"Eu sobrevivi à guerra, sobrevivi à vida e aqui estou novamente depois de 75 anos" —desta vez para chamar a atenção para a história de sua família e sua mensagem contemporânea, disse Bellak por telefone do hotel esta semana.

Quem ler a história de Renia, disse ela, "deve tentar ajudar o mundo a não se transformar no que era naquela época".

Renia Spiegel (dir.) com sua mãe e irmã mais nova em 1935
Renia Spiegel (dir.) com sua mãe e irmã mais nova em 1935 - Bellak Family Archive/The Washington Post

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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