Autor de artigo sobre intervenção na Amazônia desmente Ernesto

Texto de professor de Harvard foi citado por chanceler como prova de interesse estrangeiro na região

Bruno Boghossian Marina Dias
Nova York

No momento em que líderes questionam a atuação de organismos internacionais, a ONU tem limitações, mas ainda dispõe de mecanismos para enfrentar problemas globais, diz Stephen Walt, da Universidade Harvard.

“Se as Nações Unidas não existissem, os problemas globais seriam ainda mais sérios e algo como a ONU precisaria ser reinventado”, afirma.

Stephen Walt, professor da Universidade Harvard
Stephen Walt, professor da Universidade Harvard - Daniel Vegel/CEU

O professor ganhou notoriedade no Brasil após escrever um artigo cujo título inicial se referia a uma possível intervenção estrangeira na Amazônia. O texto foi usado pelo chanceler Ernesto Araújo como prova de que há atores internacionais interessados em atacar a soberania brasileira.

Walt, porém, diz que Ernesto está enganado. “A preocupação global com o futuro da Amazônia não é uma ‘desculpa’, é um problema válido que afeta países vizinhos e possivelmente todo o planeta.”


Seu artigo “Quem vai invadir o Brasil para salvar a Amazônia?”, publicado em agosto, foi usado por Ernesto como exemplo para a tese do governo brasileiro de que a Amazônia serve como desculpa para outros países limitarem a soberania do Brasil. O sr. concorda? 

O ministro está enganado. A preocupação global com o futuro da Amazônia não é uma ‘desculpa’, é um problema válido que afeta países vizinhos e possivelmente todo o planeta. 

Idealmente esse desafio será enfrentado sem infringir a soberania de qualquer país. E, como deixei claro no artigo, o Brasil não é o único país que deveria estar fazendo mais.

O título do artigo foi modificado para “Quem vai salvar a Amazônia (e como)?”. O sr. solicitou a mudança? 

Sim, porque o título original causava confusão e frequentemente havia mal entendidos de pessoas que não leram o artigo inteiro. Disse explicitamente que não recomendava ação militar “agora ou no futuro”, mas o título original parecia sugerir o contrário.

O sr. considera que o aumento em queimadas e desmatamento justifica sanções contra o Brasil num momento de crise do multilateralismo? 

Acredito que as mudanças climáticas representam o problema mais sério para o bem estar da humanidade que enfrentamos no presente. 

Se as nações não desenvolverem soluções cooperativas para resolvê-lo, as consequências serão mais severas e o risco de um conflito vai subir. É, portanto, de interesse do Brasil —e de EUA, China, Índia, Rússia e muitos outros— buscar soluções efetivas agora, para evitar problemas muito maiores no futuro.

Jair Bolsonaro e Donald Trump defendem os interesses nacionais acima do multilateralismo. O sr. considera isso uma tendência? 

Sim, mas ela se baseia em um mal-entendido fundamental sobre o que é multilateralismo. Os países não necessariamente abandonam interesses nacionais próprios quando cooperam em instituições multilaterais. Ao contrário, essas instituições são, em alguns casos, uma maneira melhor de se alcançar esses interesses.

O sr. acredita que o multilateralismo e a ordem internacional liberal estabelecida após a 2ª Guerra estão em crise? Qual modelo poderia substituí-la? 

Não acho que haja crise genuína ainda. É verdade que o esforço dos EUA para tentar transformar a ordem liberal parcial criada durante a Guerra Fria numa ordem verdadeiramente global foi um fracasso e causou danos consideráveis em alguns lugares. 

Também há tendências preocupantes em alguns países. Mas a maioria das sociedades liberais do mundo ainda quer apoiar as ideias básicas liberais de direitos individuais, democracia, império da lei e economia de mercado, e líderes iliberais estão enfrentando um poderoso efeito rebote em muitos lugares.

O sr. escreveu artigo dizendo que não apoiaria um manifesto intitulado “Por que deveríamos preservar instituições e a ordem internacional?”. Por quê?

Se você ler minha resposta com atenção, eu não estava criticando nem o papel das instituições nem o conceito de ordem. Estava questionando os termos específicos do manifesto.

Por que o sr. escreveu que o bipolarismo e as armas nucleares fizeram mais para prevenir uma guerra do que instituições como a ONU e a Otan? 

Apesar de instituições internacionais serem úteis para muitos propósitos, não são capazes de impedir Estados poderosos de agir por si mesmos se acharem que é necessário, e isso inclui o uso da força. 

Mas o bipolarismo e as armas nucleares encorajaram tanto os EUA quanto a União Soviética a agirem cuidadosamente um com o outro e a manterem os aliados sob controle. Isso contribuiu para a paz durante a Guerra Fria.

Qual a relevância da Assembleia Geral da ONU em um cenário de rejeição ao multilateralismo?

As Nações Unidas têm muitas limitações, mas ainda são um foro valioso no qual os países podem levantar questões e buscar soluções cooperativas. Se ela não existisse, os problemas globais seriam ainda mais sérios e algo como a ONU precisaria ser reinventado.

O sr. acha que alguma resolução significativa sairá em questões como as crises na Amazônia e na Venezuela?  

Não. Os problemas são grandes e complexos demais para serem resolvidos em uma única sessão.


Stephen Walt
Doutor em ciência política pela Universidade da Califórnia em Berkeley e professor de relações internacionais da Universidade Harvard. Autor de ‘Origins of Alliances, Revolution and War’ e ‘The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy’

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