Descrição de chapéu Governo Trump

Casa Branca admite ter arquivado ligação de Trump e líder ucraniano em sistema secreto

Delator já havia acusado governo de esconder registro de conversa que pode levar a impeachment do republicano

São Paulo

A Casa Branca admitiu nesta sexta-feira (27) que funcionários do governo orientaram o arquivamento do registro do telefonema entre Donald Trump e o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, em um sistema separado e supersecreto. 

A confirmação dá ainda mais credibilidade à denúncia anônima que pode levar ao impeachment do presidente dos EUA e ratifica a acusação de que houve atuação da gestão Trump para ocultar o registro, deixando-o acessível a apenas pouquíssimos oficiais.

O arquivo com a transcrição aproximada da ligação do dia 25 de julho, na qual Trump pediu a Zelenski para investigar Joe Biden —um possível rival nas eleições de 2020—, foi tratado de maneira incomum: em vez de ser armazenado no sistema principal de computadores do Conselho de Segurança Nacional, foi guardado em uma parte restrita do órgão e mantida por funcionários da inteligência da Casa Branca.

Assim, o sistema secreto foi usado para “proteger informações politicamente sensíveis —em vez de sensíveis à segurança nacional”, segundo o delator. Essa não teria sido a primeira vez que a Casa Branca utiliza esse expediente e armazena transcrições de telefonemas entre líderes de tal forma.

De acordo com o jornal The Washington Post, o governo americano vem adotando procedimentos desse tipo nos últimos dois anos para impedir que detalhes da comunicação de Trump com líderes estrangeiros se tornem públicos.

Entre eles estão o presidente russo, Vladimir Putin, e membros da família real saudita, segundo The New York Times.

Após episódios de vazamento no início do mandato que enfureceram o presidente, o número de assistentes autorizados a ouvir as conversas em linhas seguras foi reduzido, assim como a lista de funcionários que podem revisar os memorandos com o conteúdo das chamadas. 

A quantidade de cópias de transcrições direcionadas a agências do governo também foi diminuída, e esses registros foram marcados com avisos para que não fossem copiados. 

No caso do telefonema com Zelenski, um alto funcionário da administração americana disse à rede de notícias CNN que a ordem foi dada por advogados do Conselho de Segurança Nacional, que determinaram que o “documento sigiloso fosse tratado adequadamente”. 

O deputado republicano James Comer, do Kentucky, disse que o governo Trump “precisa responder” por que usou um sistema altamente seguro para o registro da chamada telefônica da Ucrânia. Ele acrescentou que está “confiante” de que os democratas farão essa pergunta “à medida que avançam em sua missão de tentar o impeachment do presidente”.

Donald Trump no gramado da Casa Branca - Erin Scott/Reuters

Na quarta (25), em entrevista para a imprensa na Assembleia Geral da ONU, Trump levantou suspeitas sobre o vice-presidente Mike Pence ao afirmar que seus contatos com o mandatário ucraniano também deveriam ser avaliados.“

Acho que vocês deveriam perguntar sobre as conversas do vice-presidente [Mike] Pence, porque ele também teve algumas conversas. Mas posso economizar o tempo de vocês: elas foram todas perfeitas”, ironizou Trump.

Enquanto alguns republicanos brincam de fogo amigo, fatos concretos ocorrem. Kurt Volker, enviado especial do Departamento de Estado para a Ucrânia, renunciou.

De acordo com o relatório do delator anônimo, em 26 de julho, um dia após a ligação entre Trump e Zelenski, o diplomata visitou Kiev e se reuniu com o presidente ucraniano e várias figuras políticas locais. 

“Com base em resumos dessas reuniões relatadas a mim, por várias autoridades americanas, Volker e [o embaixador dos EUA na União Europeia Gordon] Sondland supostamente deram conselhos à liderança ucraniana sobre como explorar “as demandas que o presidente havia feito a Zelenski”.

Volker deve ser ouvido na próxima semana na Câmara dos Deputados, onde democratas começaram a dar andamento aos passos formais do processo de impeachment. 

Nesta sexta (27), parlamentares opositores emitiram as intimações relativas aos inquéritos que embasarão a votação do impeachment de Trump.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, foi convocado a depor perante a Casa e a fornecer uma série de documentos relacionados às tratativas de Trump com a Ucrânia.

Em um segundo documento, os deputados instruíram o secretário a disponibilizar cinco funcionários da pasta para prestar depoimentos nas próximas semanas. 

Marie Yovanovitch, ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia, é uma das intimadas.

Durante o telefonema com Zelenski, Trump disse que ela era "más notícias". Yovanovitch foi demitida do posto em maio de 2019, cerca de dois meses antes da conversa entre os presidentes. 

Caso Pompeo não atenda às demandas da Casa, suas ações serão consideradas "provas da obstrução do inquérito", segundo os deputados que assinam a intimação.

De acordo com leis americanas do início do século 19, a Câmara pode punir quem descumpre suas ordens, inclusive com prisão —no entanto, essa prerrogativa não é exercida há décadas.

Rudy Giuliani, advogado pessoal de Trump, e William Barr, secretário de Justiça, também devem ser chamados para responder aos parlamentares.

Ambos são mencionados na ligação telefônica como pontas do governo americano para tratar das investigações na Ucrânia contra Biden e seu filho Hunter.

Os republicanos argumentam que o democrata, quando era vice-presidente dos EUA, pressionou para derrubar o procurador-geral do país europeu que investigou a empresa de gás na qual Hunter era membro do conselho, o que levanta suspeitas de que estaria encobrindo irregularidades cometidas pelo filho.

O Departamento Nacional Anticorrupção da Ucrânia, no entanto, afirmou nesta sexta (27) que as apurações sobre a companhia de gás Burisma  se referem ao período entre 2010 e 2012, antes de o filho de Biden trabalhar na firma. 

“As mudanças no conselho da Burisma [a entrada de Hunter], que são atualmente objeto de atenção internacional, ocorreram apenas em maio de 2014, e não são nem nunca foram alvo de investigação”, afirmou o departamento, em comunicado.

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