Tensões crescem, e Arábia Saudita diz que ataque com drones foi feito com armas iranianas

Teerã apreende navio estrangeiro, e rebeldes do Iêmen ameaçam fazer novas ações contra Riad

Dubai, Washington e Teerã | AFP e Reuters

A escalada de tensão no Oriente Médio ganhou novos elementos nesta segunda (16).

A Arábia Saudita afirmou ter provas de que as armas usadas contra suas instalações petrolíferas no sábado (14) eram iranianas e que o ataque não partiu do Iêmen, como alegam os rebeldes houthis.

O Irã, por sua vez, anunciou ter interceptado um navio suspeito de contrabandear combustível e deteve os 11 membros de sua tripulação, segundo a TV estatal do país, enquanto os houthis —aliados de Teerã no Iêmen— ameaçam fazer mais ataques. 

Em meio a noite, uma bola de fogo ilumina o centro da paisagem e é pela própria luminosidade das chamas que se percebe as densas nuvens de fumaça indo em direção ao céu.
Incêndio na sede da Aramco, em Buqayq, na Arábia Saudita - 14.set.19/Reuters

A embarcação apreendida pelo Irã levava 250 mil litros de combustível e foi capturada perto do estreito de Hormuz, importante rota de transporte de petróleo. 

Nos últimos meses, Teerã anunciou a interceptação de ao menos quatro navios estrangeiros, também pela acusação de que estariam contrabandeando petróleo.  

O ataque de sábado, realizado por meio de drones, comprometeu 50% da produção de petróleo da Arábia Saudita e fez o preço do combustível disparar no mercado internacional.  

Tanto Riad quanto Washington culpam Teerã pela ação, apesar de os houthis terem assumido a autoria do ataque.

"Os resultados preliminares mostraram que as armas [usadas na ação] eram iranianas, e agora estamos trabalhando para determinar a localização [de onde partiu o ataque]", disse, em entrevista coletiva, o coronel Turki al-Malki, porta-voz da coalizão liderada pelos sauditas.

O príncipe-herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, afirmou que “quer e pode responder a esta agressão terrorista”.

O presidente dos EUA, Donald Trump, também nesta segunda-feira, corroborou a versão da Arábia Saudita, dizendo que o Irã “parece ser” o responsável pelos ataques. Por outro lado, ressaltou que não quer guerra com ninguém nem agir precipitadamente.

Mais cedo, no Twitter, em referência a um episódio anterior entre os dois países, o presidente escreveu que “o Irã abateu um drone​ [americano] dizendo que estava em seu ‘espaço aéreo’, quando, na verdade, não estava nem perto”. 

“Eles se apegaram fortemente a essa história sabendo que era uma grande mentira. Agora eles dizem que não tem nada a ver com o ataque na Arábia Saudita. Vamos ver?”, publicou.

Logo após os ataques, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, já havia dito que não há provas de que o ataque tenha procedido do Iêmen e que Teerã “terá de prestar contas de sua agressão”.

O Irã, no entanto, nega ser o responsável pelo ataque e descartou a possibilidade de um encontro na próxima semana, durante a Assembleia Geral da ONU, entre seu presidente, Hasan Rowhani, e Trump —a hipótese tinha sido levantada pela Casa Branca.

A tensão no Oriente Médio vem crescendo desde que os EUA abandonaram unilateralmente o acordo nuclear com o Irã e impuseram diversas sanções contra o país persa, na expectativa de forçar Teerã a aceitar um pacto que restrinja ainda mais o uso de tecnologia nuclear. 

Enquanto os EUA e a Arábia Saudita acusam, e o Irã nega, os rebeldes houthis ameaçaram fazer novos ataques contra instalações petrolíferas sauditas. 

"Garantimos ao regime saudita que a nossa longa mão pode atingir qualquer lugar que quisermos, e em qualquer momento", disse Yahya Sare, porta-voz dos houthis, à TV al-Masirah. 

Sare também afirmou que os ataques de sábado foram feitos com drones modificados e com motores a jato. 

guerra civil no Iemên se arrasta desde 2015 e deixou mais de 7.000 mortes. O governo, que perdeu o controle de várias partes do território, é apoiado pela Arábia Saudita, enquanto os rebeldes, segundo os EUA, recebem ajuda do Irã.

O porta-voz do ministério iraniano das Relações Exteriores, Abbas Mussavi, afirmou que as acusações americanas são insensatas e incompreensíveis e que só buscam justificar futuras ações contra o Irã. 

Impacto no mercado

Na abertura dos mercados nesta segunda-feira, o petróleo registrou alta de quase 20%.

Amin Naser, presidente da Aramco, a companhia petrolífera estatal da Arábia Saudita, declarou que obras estão sendo feitas para restabelecer toda a produção. Especialistas ouvidos pela agência de notícias Reuters, no entanto, estimam que a recuperação poderá levar meses. 

Estimativas anteriores, mais otimistas, sugeriam que esse processo levaria semanas.

Diante da redução da produção saudita, Trump autorizou o uso de petróleo das reservas estratégicas dos Estados Unidos. 

Os rebeldes huthis atacaram em diversas ocasiões a infraestrutura saudita, mas esta foi a vez em que causaram maior dano: houve redução da produção de 5,7 milhões de barris por dia, cerca de 6% do abastecimento mundial.

O ataque poderá afetar a confiança dos investidores na Aramco, gigante petrolífero que prepara sua entrada na bolsa.

O governo saudita quer lançar no mercado cerca de 5% das ações de sua petroleira estatal em 2020 ou 2021 e assim captar US$ 100 bilhões.

Riad gastou bilhões de dólares em equipamento militar mas, para os especialistas, os ataques confirmam a vulnerabilidade das instalações petroleiras no Golfo.

Os poços de petróleo da Arábia Saudita estão dispersos e são de difícil acesso, mas suas refinarias estão muito mais expostas.

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