Ultraconservadores mantêm maioria na Polônia, aponta boca de urna

Pesquisas apontam reeleição do partido nacionalista em pleito deste domingo

Varsóvia | Reuters

A Polônia realizou neste domingo (13) o segundo turno de suas eleições parlamentares. Segundo o resultado das primeiras pesquisas de boca de urna, o Partido da Lei e Justiça (PiS), nacionalista e ultraconservador, conseguiu a reeleição. 

A vitória pode agravar o isolamento do país na União Europeia, pois aumenta a desconfiança sobre o comprometimento polonês com a democracia.

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, um dos principais representantes do conservadorismo isolacionista europeu, congratulou seus aliados poloneses pelo sucesso nas urnas. 

Espera-se que o PiS consiga uma vitória maior do que a que obteve em 2015 e forme bancada com maioria absoluta no parlamento, o que possibilitaria que continue a governar "sozinho". 

Com uma saia estampada e colete azul, em trajes característicos, a mulher deposita a cédula em uma urna.
Mulher comparece às urnas usando trajes tradicionais durante a votação - Reuters

O clima político da Polônia mudou muito nos últimos quatro anos, e o governo do PiS foi um dos fatores responsáveis por aumentar a polarização no país. 

Em seu discurso de campanha, o partido apresentou a eleição como uma escolha entre a sociedade tradicional (guiada pelos valores católicos) e uma ordem liberal que despreza a família. 

Partidos de oposição e parceiros da Polônia na União Europeia afirmam que o governo do PiS interferiu na independência do judiciário e da imprensa, além de tornar o país menos acolhedor para minorias étnicas e sexuais. 

"Nós garantimos que as famílias polonesas estão protegidas, que a liberdade da Polônia está protegida e que a Igreja polonesa está protegida contra ataques", declarou Jaroslaw Kaczynsk, líder do PiS. 

As pesquisas mostram a legenda ganhando com 46% dos votos, o que ofereceria maioria absoluta. 

Mas pode ser necessário formar uma coalização em nome da governabilidade, o que aumenta as chances do Confederação —um dos movimentos de extrema direita que pode conquistar 5% dos votos necessários para se eleger ao Parlamento— se tornar parte do governo. 

Com 26% dos votos, o movimento de centro Coalizão Civil —aliança entre diversos movimentos de centro-esquerda, incluindo o Plataforma Cívica, antes liderado por Donald Tusk, atual presidente do Conselho Europeu— aparentemente continuará integrando a oposição. 

Na terça-feira (8), a candidata da Coalização, Malgorzata Kidawa-Blonska, acusou seu adversário do PiS, Kaczynski, de destruir a democracia e de aprofundar as divisões na sociedade.

"Ele está construindo um enorme muro e criando tensões", disse ela em um comício. "É por isso que convoco as pessoas de bem, independentemente de suas ideologias políticas: vamos defender a Polônia contra tanto ódio."

Igreja e Estado

Um dos pilares do sucesso do PiS é a forma como recorre ao ressentimento de poloneses mais pobres, que não prosperaram após o colapso do regime comunista em 1989.

A retórica do PiS mistura nacionalismo com o elogio de seu programa de bem-estar social, que puderam implantar graças ao crescimento econômico dos últimos anos.

O partido também se aproveita da enraizada popularidade da Igreja Católica no país. Os líderes da legenda frequentemente comparecem a eventos católicos, e o partido prega por fortes valores religiosos na vida pública. 

Apesar disso, a Igreja não apoia o partido abertamente, embora alguns representantes concedam apoio tácito. 

No dia 1º de outubro, o arcebispo polonês escreveu que católicos devem votar naqueles que defendem a vida desde a concepção, apoiam os valores familiares e definem casamento como entre homem e mulher. 

Durante a campanha, o PiS afirmou que as reivindicações de direitos para a comunidade LGBT são uma força estrangeira invasora que ameaça a identidade nacional polonesa. 

O partido também mudou a política externa da Polônia, afastando-a da União Europeia e se tornando um líder na tentativa de minar alguns poderes da UE, com quem Varsóvia passa por atritos de longa data devido às reformas judiciais e midiáticas. 

Bruxelas tomou medidas legais contra as autoridades polonesas, para derrubar legislação que, para a UE, politizam o judiciário.

O PiS alega que as reformas são necessárias para que o sistema judicial seja mais justo e eficiente. Se reeleito, promete mais mudanças no judiciário. 

"Falta de tribunais independentes não é parte da tradição polonesa", afirmou Kidawa-Blonska na sexta-feira (11). 

O PiS também buscou estreitar a relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem dividem a mesma opinião sobre assuntos como crise climática, mineração de carvão e aborto —o que aumenta a preocupação de diplomatas da UE com a possibilidade de o líder americano usar o maior dos ex-países comunistas para semear a discórdia em Bruxelas, em assuntos como Irã. 

Profundamente desconfiada de sua antiga metrópole soviética, a Polônia convenceu Trump a aumentar a presença militar americana em solo polonês, como contraponto à presença da Rússia, que aumentou desde a anexação da Crimeia, antes parte da Ucrânia, em 2014. 

Em relação à economia, o PiS prometeu acabar com o modelo pós-comunismo, que contou com a mão de obra barateada, mais do que dobrando o salário mínimo nos últimos oito anos. 

Alguns economistas afirmam que os gastos do partido expõem a economia polonesa a muitos riscos, em um momento no qual a economia do ocidente está desacelerando. A oposição critica a falta de investimentos na saúde e na educação. 

Ainda assim, o mercado está otimista com a perspectiva de mais um governo do PiS. 

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