Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Ex-embaixadora na Ucrânia diz ao Congresso que Trump pressionou para afastá-la

Marie Yovanovitch afirmou a parlamentares que foi forçada em maio a deixar Kiev no 'próximo avião'

Washington | The Washington Post

Em depoimento ao Congresso nesta sexta-feira (11), a ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia, cujo afastamento abrupto despertou interesse de investigadores do processo de impeachment contra Donald Trump, disse que sua saída foi resultado direto de pressão do presidente americano. 

Marie Yovanovitch afirmou aos parlamentares que foi forçada a deixar Kiev no "próximo avião" em maio deste ano e posteriormente demitida de seu posto pelo número 2 do Departamento de Estado, pasta correspondente ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil. 

Segundo a diplomata, autoridades disseram a ela que, embora não tivesse feito nada errado, o presidente havia perdido a confiança em seu trabalho e o Departamento de Estado estava sob pressão para afastá-la desde o segundo semestre de 2018. 

A ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia Marie Yovanovitch chega ao Capitólio, em Washington, para prestar depoimento
A ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia Marie Yovanovitch chega ao Capitólio, em Washington, para prestar depoimento - Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

Ao explicar a saída, Yovanovitch admitiu que por meses sofreu críticas do advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, que a acusara de difamar o presidente pessoalmente e procurar proteger os interesses do ex-vice-presidente Joe Biden e seu filho, que foi membro do conselho de uma empresa de energia ucraniana. 

Yovanovitch negou as acusações e disse estar incrédula que seus superiores tenham decidido demiti-la com base em "alegações infundadas e falsas de pessoas com motivos claramente questionáveis". 

Ela também mirou diretamente colaboradores de Giuliani, que, segundo ela, poderiam ter se sentido ameaçados financeiramente pelas suas ações anticorrupção na Ucrânia. 

A ex-embaixadora testemunhou ao Congresso apesar das objeções da Casa Branca em cooperar com o inquérito de impeachment liderado pelos democratas. 

Yovanovitch é um dos muitos diplomatas atuais e antigos que os comitês de Inteligência, Relações Exteriores e Supervisão da Câmara identificaram como testemunhas na investigação sobre se Trump reteve ajuda financeira à Ucrânia como forma de pressionar o presidente Volodimir Zelenski a investigar rivais políticos do republicano. 

O governo americano, Giuliani, dois de seus colaboradores e vários funcionários do gabinete de Trump —incluindo o secretário de Estado Mike Pompeo, o secretário de Energia Rick Perry, o secretário de Defesa Mark Esper e o diretor interino do gabinete de gerenciamento e orçamento, Russell Vought— foram intimados a entregar materiais relacionados às interações da Casa Branca com a Ucrânia. 

Mas, até o momento, os comitês registraram apenas um depoimento, o do ex-enviado especial dos EUA para a Ucrânia Kurt Volker, que deixou o cargo horas depois de ser convocado a depor. 

Durante a audiência no início do mês, Volker entregou uma série de mensagens de texto que ele trocou com Giuliani, com um dos principais assessores do presidente ucraniano e com diplomatas seniores dos EUA, incluindo Gordon Sondland, embaixador dos EUA para a União Europeia. 

Sondland, cujo depoimento programado foi bloqueado pelo Departamento de Estado no início desta semana, também foi intimado. 

Seus advogados, Robert Luskin e Kwame Manley, disseram na sexta-feira que ele pretende atender à intimação e comparecer perante os comitês na próxima quinta-feira, embora não pretenda entregar os documentos solicitados pelos parlamentares. 

"Pela lei e regulamentação federal, o Departamento de Estado tem autoridade exclusiva para levar esses documentos, e o Embaixador Sondland espera que os materiais sejam compartilhados com os comitês antes de seu testemunho de quinta-feira", disseram seus advogados em comunicado. 

As mensagens de texto de Volker pertencem às semanas anteriores e posteriores a uma ligação de 25 de julho entre Trump e Zelenski, na qual o presidente americano pediu ao seu colega ucraniano que investigasse o suposto envolvimento de ucranianos nas eleições presidenciais de 2016 e o papel de Hunter Biden, filho do ex-vice-presidente Joe Biden, no conselho de uma empresa de energia ucraniana. 

Os democratas focaram a forma como Trump pediu a Zelenski que "fizesse um favor" quando o presidente ucraniano abordou o assunto da ajuda militar que havia sido interrompida, de acordo com uma transcrição aproximada da ligação divulgada pela Casa Branca. 

Eles alegam que isso é uma prova de quid pro quo (termo em latim que significa troca de favores) e abuso de poder. 

O mandato de Yovanovitch como embaixadora na Ucrânia terminou antes desse período. A saída antecipada surpreendeu os diplomatas de carreira que haviam planejado reuniões internas com ela e que foram descartadas devido à decisão de tirá-la do cargo. 

A demissão nesta semana de Michael McKinley, diplomata de carreira e conselheiro sênior de Pompeo, ocorreu em meio à crescente insatisfação dentro do Departamento de Estado pelo que é visto como o fracasso do secretário em defender seus subordinados que se tornaram alvos na controvérsia da Ucrânia. 

De acordo com uma acusação que os promotores federais em Nova York revelaram na quinta-feira, um colaborador soviético de Giuliani se encontrou com um congressista dos EUA no último trimestre de 2018. 

Os registros públicos de campanha indicam que esse colaborador seria o ex-deputado republicano do Texas Pete Sessions, que buscava "assistência para fazer com que o governo dos EUA afastasse ou solicitasse o retorno da então embaixadora dos EUA na Ucrânia". 

A acusação diz que o colaborador de Giuliani, Lev Parnas, pressionou o afastamento de Yovanovitch "pelo menos em parte, a pedido de um ou mais autoridades do governo ucraniano". 

Sessions, que perdeu sua candidatura à reeleição em novembro de 2018, disse nesta quinta-feira que não sabia se era o congressista mencionado na acusação e negou qualquer irregularidade. 

Zelenski venceu a eleição presidencial ucraniana em abril deste ano e assumiu o cargo em 20 de maio, no mesmo dia em que Yovanovitch foi chamada de volta aos EUA.

Tradução de AGFox  

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