Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Três problemas das mensagens reveladas no processo de impeachment de Trump

Conversas sobre Ucrânia sugerem consciência de que limites estavam sendo ultrapassados

Philip Bump
The Washington Post

Geralmente não é um bom sinal quando uma autoridade do governo envia uma mensagem escrita questionando uma ação e outra autoridade responde sugerindo que eles conversem por telefone.

A implicação é que a segunda autoridade está preocupada em não deixar provas da conversa. 

Na noite de quinta-feira (3), os presidentes das comissões de Relações Exteriores, de Inteligência e de Supervisão da Câmara tornaram público um documento com trechos de mensagens trocadas entre autoridades que trabalham na relação entre os Estados Unidos e a Ucrânia.

Encontro entre o presidente ucraniano Volodimir Zelenski e o americano Donald Trump em setembro
Encontro entre o presidente ucraniano Volodimir Zelenski e o americano Donald Trump em setembro - Jonathan Ernst-25.set.19/Reuters

Eles ocuparam cargos que estão atualmente sob intenso escrutínio, com perguntas sobre o comportamento do presidente Donald Trump em relação ao país do Leste europeu e seus esforços para levá-lo a conduzir investigações que beneficiem o republicano politicamente.

Embora as mensagens de texto divulgadas não sejam abrangentes, elas contêm novas revelações e sugestões significativas sobre as interações Trump-Ucrânia.

Elas incluem, em dois momentos sugestivos, o tipo de resposta "não documente isto" que implica uma consciência dos limites que estão sendo ultrapassados.

Existe uma troca explicitamente declarada

Um participante central das mensagens é Kurt Volker, ex-enviado especial dos EUA à Ucrânia. Até a semana passada, ele atuou no governo, renunciando logo após ser identificado na denúncia apresentada por um informante da comunidade de inteligência.

O delator retratou Volker trabalhando com o embaixador dos EUA na União Europeia, Gordon Sondland, para tentar interferir entre autoridades ucranianas e o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, que pressionava a Ucrânia a investigar o ex-vice-presidente americano Joe Biden.

As mensagens de texto sugerem que Volker e Sondland tentaram concretizar o que Donald Trump e Rudy Giuliani, advogado pessoal do presidente, queriam ver: uma investigação sobre uma tentativa completamente infundada de vincular a Ucrânia à invasão de computadores do Comitê Nacional Democrata em 2016 e uma apuração sobre Joe Biden e o trabalho que seu filho Hunter fez para a empresa de gás ucraniana Burisma Holdings.

A teoria de Trump-Giuliani é que Joe Biden quis que a Ucrânia demitisse seu procurador-geral para proteger Hunter e a Burisma; ainda não há evidências significativas de que isso tenha acontecido.

Em 21 de julho, quatro dias antes de Trump e o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, fazerem um telefonema em que Trump pediu a Zelenski que conduzisse exatamente essas investigações, Sondland trocou mensagens de texto com Bill Taylor, embaixador dos EUA na Ucrânia.

Taylor deixou claro que Zelenski queria que "a Ucrânia fosse levada a sério" e não apenas servisse como "um instrumento na política de reeleição em Washington". Parte disso, como foi revelado mais tarde, era conseguir um convite para que Zelenski se encontrasse com Trump em Washington.

Pouco antes da ligação de 25 de julho, Volker enviou uma mensagem para Andrey Yermak, consultor de Zelenski, que havia sido empossado dois meses antes. Nessa mensagem, Volker foi explícito sobre o que seria necessário para conseguir o encontro.

"Ouvi a Casa Branca dizer", escreveu Volker, "supondo que o presidente Z convença Trump de que ele investigará/'irá a fundo no que aconteceu' em 2016, definiremos a data da visita a Washington."

Isso é o mais explícito possível: prometa chegar ao fundo dos acontecimentos de 2016 —que podem se referir tanto à invasão dos computadores quanto à demissão de um procurador ucraniano visado por Biden— e você obterá a validação que vem com uma visita à Casa Branca.


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O que não está claro é com quem Volker falou na Casa Branca. Na ligação entre Trump e Zelenski no final do dia, a reunião foi mencionada, com Trump sugerindo vagamente que Zelenski só poderia escolher as datas depois que o líder ucraniano prometesse acompanhar as investigações politicamente úteis que Trump queria ver.

A medida de que essa visita era importante para Zelenski foi destacada quando ele e Trump se reuniram em 25 de setembro, à margem da Assembleia Geral da ONU.

"Quero agradecer o convite de Washington", disse Zelenski. "Você me convidou, mas eu acho... Me desculpe. Me desculpe. Mas acho que você esqueceu de me dizer a data."

As pessoas presentes riram. Trump pareceu irritado e apontou para alguém parado nas proximidades. "Eles lhe dirão a data", disse Trump. "Ah, sim, eles sabem antes de nós", respondeu Zelenski.

Os EUA ajudaram a formular uma declaração da Ucrânia mencionando a investigação de Biden

Em uma troca de mensagens de texto com Volker, imediatamente após a ligação, o assessor de Zelenski, Yermak, sugeriu que a visita ocorresse entre 20 e 22 de setembro.

No início de agosto essas datas não tinham sido confirmadas.

Em uma conversa com Volker em 9 de agosto, Sondland sugeriu que essas datas seriam definidas assim que Yermak confirmasse... alguma coisa.

Pelo contexto dos comentários de Sondland na comunicação, parece que essa coisa é uma declaração escrita que acompanharia uma entrevista coletiva de Zelenski, presumivelmente para anunciar as novas investigações.

Questionado sobre como ele conseguiu que a Casa Branca finalmente concordasse em marcar uma data, Sondland sugeriu que ainda não era definitivo: "Acho que o presidente realmente quer a encomenda" —que, mais uma vez, seria presumivelmente essa declaração.

Logo após esse intercâmbio, Volker entrou em contato com Giuliani para obter orientação sobre o que a declaração deveria incluir.

No dia seguinte, Volker e Yermak se corresponderam com Yermak por mensagem de texto, com o assessor insistindo que datas para uma visita fossem marcadas antes da divulgação do comunicado.

"Quando tivermos a data", escreveu o assessor de Zelenski, "convocaremos uma coletiva de imprensa, anunciando a próxima visita e delineando a visão para o reinício do relacionamento EUA-Ucrânia, incluindo, entre outras coisas, a Burisma e a interferência nas investigações".

Novamente, uma investigação sobre a Burisma é, na essência, uma investigação sobre o trabalho de Hunter Biden e um esforço para posicionar Joe Biden como tendo agido de maneira antiética.

Yermak estava prometendo manter sua ponta do "toma lá dá cá", desde que a data fosse marcada.

Em 13 de agosto —coincidentemente, o dia seguinte à queixa do denunciante—, Volker enviou a Sondland o que parece ser um rascunho de texto a ser incluído na declaração.

"Atenção especial deve ser dada ao problema da interferência nos processos políticos dos Estados Unidos, especialmente com o suposto envolvimento de alguns políticos ucranianos", dizia o texto —uma referência adicional à divulgação de informações que envolviam o então gerente da campanha de Trump, Paul Manafort, em pagamentos ilegais em agosto de 2016.

"Quero declarar que isso é inaceitável", escreveu Volker, presumivelmente falando como se fosse Zelenski.

"Pretendemos iniciar e concluir uma investigação transparente e imparcial de todos os fatos e episódios disponíveis, incluindo aqueles que envolvem a Burisma e as eleições de 2016 nos EUA, o que, por sua vez, impedirá a recorrência desse problema no futuro." "Perfeito", respondeu Sondland.

Quatro dias depois, Sondland perguntou se eles ainda queriam a Burisma e os elementos de 2016 no comunicado. "Essa é a mensagem clara até agora", respondeu Volker.

Mas a declaração não aconteceu. Não está claro por que —embora possa ser novamente porque não foi definida uma data da reunião com Trump.

Há uma forte sugestão de que a ajuda militar foi usada como alavanca 

Até o final de agosto, os ucranianos souberam que os Estados Unidos estavam retendo a ajuda militar, decisão tomada por Trump antes da ligação de 25 de julho.

Trump estava agendado para viajar à Polônia para um evento internacional, mas, com o furacão Dorian ameaçando a Flórida e a Geórgia, ele permaneceu nos Estados Unidos.

O vice-presidente Pence foi no lugar de Trump, e estava programado para se reunir com Zelenski em 1º de setembro.

Pouco depois das 12h naquele dia, Taylor, a autoridade dos EUA na Ucrânia, mandou uma mensagem para Sondland.

"Estamos dizendo agora que a ajuda de segurança e a reunião na Casa Branca estão condicionadas a investigações?", perguntou Taylor.

"Ligue para mim", respondeu Sondland. E a conversa deles sobre esse ponto vital não foi gravada.

A pergunta de Taylor é central para a interação Trump-Ucrânia. Existem problemas significativos que surgem se Trump tiver tentado alavancar sua posição e os interesses dos EUA para conseguir que a Ucrânia investigasse seus adversários políticos.

Existem problemas maiores que surgem se Trump tiver interrompido o financiamento aprovado pelo Congresso para usá-lo como alavanca.

Em 8 de setembro, Volker, Taylor e Sondland tentaram falar por telefone, mas Volker não conseguiu ouvir a conversa.

"Gordon [Sondland] e eu acabamos de nos falar", escreveu Taylor para Volker. "Posso lhe informar se você e Gordon não se conectarem." Taylor continuou: "O pesadelo é que eles dão a entrevista e não recebem a ajuda de segurança. Os russos adoram isso. (E eu desisto.)"

A referência de Taylor à "entrevista" não é clara, mas ele provavelmente quer dizer o comunicado à imprensa sobre investigações iminentes.

Taylor estava aparentemente preocupado com o fato de a Ucrânia dar a entrevista, mas os Estados Unidos ainda reterem a ajuda, para alegria da Rússia.

No início da manhã seguinte, Taylor novamente levantou suas preocupações a Sondland.

"A mensagem para os ucranianos (e russos) que enviamos com a decisão sobre ajuda de segurança é fundamental", disse ele. "Com a demora [da ajuda], já abalamos sua fé em nós. É meu cenário de pesadelo."

Sondland respondeu, dizendo acreditar que "identificamos o melhor caminho a seguir".

"Como eu disse ao telefone", respondeu Taylor, aparentemente referindo-se à tentativa de ligação em 8 de setembro, "acho que é loucura reter assistência de segurança para obter ajuda em uma campanha política."

Cinco horas depois, Sondland responde, usando uma linguagem muito precisa: "Bill, acredito que você está errado sobre as intenções do presidente Trump", escreveu. "O presidente tem sido absolutamente claro, sem nenhum tipo de contrapartida. O presidente está tentando avaliar se a Ucrânia realmente adotará a transparência e as reformas prometidas pelo presidente Zelenski durante sua campanha."

É difícil ler essa resposta, com sua formalidade e detalhes incomuns, como algo além de uma tentativa de estabelecer um argumento específico para o registro escrito.

"Sugiro que paremos a comunicação por texto", acrescentou, reforçando essa interpretação. "Se você ainda tem preocupações, recomendo que dê a Lisa Kenna" —secretária-executiva do Departamento de Estado— "ou a S" —talvez o secretário de Estado— "um telefonema para discuti-las diretamente. Obrigado."
Nenhuma outra mensagem de texto foi trocada.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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