Protestos no Chile somam 15 mortos, e Piñera se desculpa pela crise

Líderes de esquerda se recusam a encontrar presidente e cobram clareza sobre mortes

Santiago | AFP

O número de mortos nos protestos violentos que se espalharam pelo Chile subiu para 15, quatro a mais do que no balanço oficial anterior, anunciou nesta terça-feira (22) o governo do país. Os protestos nas ruas continuaram, em vários pontos, e as forças armadas decretaram toque de recolher pela quarta noite consecutiva.

De acordo com o subsecretário do Interior, Rodrigo Ubilla, em entrevista coletiva, 11 das mortes ocorreram na região metropolitana e estão associadas a incêndios e saques, "principalmente de centros comerciais".

Outras quatro pessoas, ainda segundo o subsecretário, morreram em incidentes fora da capital, vítimas de tiros. Até agora, nenhuma das vítimas foi identificada.

Segundo o jornal chileno El Mercurio, o promotor regional de Maule, Julio Contardo, confirmou a detenção de um militar após a morte de um jovem baleado em Curicó durante uma manifestação.

Militares durante patrulhamento
Soldados patrulham o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, em Santiago - Pedro Ugarte/AFP

O presidente Sebastián Piñera foi à TV na noite desta terça pedir desculpas pelo que chamou de "falta de visão" para antecipar a crise social que convulsiona o Chile há cinco dias. "Diante das necessidades legítimas e das demandas sociais dos cidadãos, recebemos com humildade e clareza a mensagem que os chilenos nos deram."

Em um longo pronunciamento, Piñera anunciou um pacote de medidas para "melhorar a qualidade de vida" dos chilenos e tentar conter os protestos.

Os projetos incluem aumentos em aposentadorias, a criação de um seguro contra catástrofes —que cubra gastos de saúde a partir de um determinado teto—, uma ajuda mínima para trabalhadores de baixa renda, a estabilização nas tarifas de eletricidade, o aumento dos impostos dos mais ricos e a redução dos salários de parlamentares e funcionários da administração pública.

O presidente agradeceu a ajuda das Forças Armadas e disse que "seu trabalho é vital para proteger nossa democracia, nossa liberdade e os direitos humanos de todos os compatriotas".

Para tentar diminuir o caos instalado nos transportes com o fechamento do metrô, anunciou que duas linhas serão retomadas nesta ​quarta (23) —apenas uma estava funcionando. Segundo ele, serão necessários US$ 300 milhões para reconstruir as estações danificadas.

Em uma reunião de emergência com Piñera mais cedo, parlamentares pediram por reformas para enfrentar a desigualdade no país —que está no pano de fundo das manifestações.

O ex-ministro das Relações Exteriores Heraldo Munoz disse que Piñera precisa ouvir o povo, que está pedindo "uma profunda mudança social". 

Os principais representantes da oposição se recusaram a comparecer ao encontro.

"É inaceitável que ainda não tenhamos clareza sobre o que aconteceu", declarou em comunicado o Partido Socialista, em relação aos mortos. Para eles, o governo tem falhado em garantir os direitos humanos dos manifestantes.

Em carta aberta a Piñera, a Anistia Internacional também demonstrou preocupação com violações de direitos humanos e com as limitações impostas pelo toque de recolher. 

"O fato de alguns grupos terem cometido atos violentos em um protesto não autoriza as forças de segurança a dispersá-los usando a força", disse uma diretora da organização.

O general Javier Iturriaga del Campo, chefe da Defesa durante a crise, disse que o governo está investigando os casos de violência de policiais e de homens do Exército contra os manifestantes —há vídeos circulando nas redes sociais mostrando cenas de truculência. 

"Não estamos escondendo nada", disse o comandante.

No mesmo dia, o vazamento de um áudio de WhatsApp enviado pela primeira-dama, Cecilia Morel, deu mais combustível aos protestos. "Estamos sendo superados pela situação”, diz ela, que define os manifestantes como "uma invasão alienígena".

Casada com um dos homens mais ricos do Chile, com fortuna construída nas áreas de cartão de crédito, TV e aviação, Cecilia diz ainda na mensagem que terão que "diminuir os privilégios e dividir o resto com eles". As autoridades confirmaram que o áudio é autêntico.

Durante a reunião de Piñera com os líderes políticos, jovens passavam em frente ao palácio de La Moneda, onde as autoridades estavam, gritando "Ô, ô, ô, o Chile acordou, o Chile acordou" e batendo panelas. Houve protestos intensos em vários outros pontos de Santiago, e as forças de segurança usaram gás lacrimogêneo e jatos de água para dispersar os grupos. 

Tomado pela pior onda de violência no país desde o retorno à democracia, em 1990, o presidente Sebastián Piñera mudou o tom de suas declarações após dizer que o Chile estava "em guerra".

Embora os protestos tenham explodido na sexta (18) devido à alta do preço das passagens do metrô da capital  —medida que o governo já suspendeu—, os atos se transformaram em um movimento muito maior, que incluem outras demandas sociais.

As manifestações provocaram confrontos com as forças de segurança, saques e incêndios em estabelecimentos comerciais, deixando, além dos 15 mortos, 2.643 pessoas detidas e 84 feridos por arma de fogo, de acordo com o Instituto Nacional de Direitos Humanos.

Santiago e a maioria das 16 regiões do país estão sob estado de emergência, e 20 mil militares e policiais foram destacados para conter os atos violentos que ainda podem recrudescer, uma vez que a Central Unitária de Trabalhadores (CUT), o sindicato mais poderoso do Chile, e outras 18 organizações sociais convocaram greves e mobilizações para quarta e quinta-feira (24). 

Na terça, assim como no dia anterior, o metrô de Santiago, que recebe cerca de 2,4 milhões de passageiros por dia, funcionou apenas com uma de suas sete linhas.

Comércio e bancos seguem funcionando parcialmente, enquanto as aulas estão suspensas em cerca de 50 comunidades da capital chilena.

A companhia aérea chileno-brasileira Latam, a maior da América Latina, instalou dezenas de espreguiçadeiras no aeroporto de Santiago para os passageiros que não conseguem viajar devido ao cancelamento ou reprogramação de centenas de voos.

Madrugada com toque de recolher

Na madrugada desta terça-feira, terceira noite com toque de recolher, a onda de violência perdeu intensidade.

Em uma ronda realizada pela agência de notícias AFP foi possível observar Santiago deserta, apenas com veículos militares patrulhando as avenidas e o trânsito de viaturas policiais.

Soldados revistavam os passageiros dos poucos automóveis que circulavam com salvo-condutos autorizados pelas autoridades a emergências e casos especiais.

Durante a noite, no entanto, foram registrados incêndios e saques a lojas, além de manifestações isoladas, dispersadas pelo Exército.

Grupos de vizinhos vestidos com coletes amarelos, como os que ficaram famosos durante os protestos contra o governo francês, voltaram a organizar rondas de vigilância armados com paus, picaretas e pás para evitar saques em suas casas e pequenos comércios.


Entenda as razões por trás da crise no Chile

​Aumento da tarifa 

Desde a semana passada, os transportes públicos de Santiago são alvo de vandalismo por causa do aumento de 3,75% das tarifas —os protestos se intensificaram na sexta (18). O governou justificou o reajuste alegando alta do preço do dólar e a necessidade de realizar obras de melhoria no sistema. 

Elevado custo de vida 
Não são só os transportes que ficaram mais caros. Na última década, o preço para alugar e comprar imóveis aumentou cerca de 150% —a alta foi sentida principalmente nos grandes centros urbanos. Neste ano, as tarifas de luz tiveram alta de 10,5% em maio e 8% em julho —a valorização do dólar foi novamente citada pelo governo como justificativa. 

Educação e saúde precárias 
O Chile não possui um sistema de saúde público, e os preços dos remédios são altos para a maioria da população. Desde 2011, movimentos estudantis protestam por educação universitária gratuita. Após profundas reformas, o sistema estatal de aposentadoria paga pensões menores que o salário mínimo.

Corrupção 
As forças de segurança que reprimem os protestos estão no centro de escândalos revelados nos últimos anos. Membros da alta cúpula do Exército chileno são acusados de se apropriar de quase US$ 7 milhões, que teriam sido gastos em regalias como viagens e presentes a familiares. Mais de cem policiais são investigados por desviar cerca de US$ 38 milhões da corporação.

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