Descrição de chapéu The New York Times

Unidade russa ultrassecreta atua para desestabilizar Europa, dizem autoridades

Grupo estaria por trás de assassinatos e sabotagem em diversos países

The New York Times

Primeiro houve a campanha de desestabilização de Moldova, seguida pelo envenenamento de um negociante de armas na Bulgária e depois por um golpe de estado fracassado em Montenegro.

No ano passado houve uma tentativa de assassinar um ex-espião russo no Reino Unido, usando um agente neurotóxico. Embora as operações trouxessem as impressões digitais dos serviços de inteligência da Rússia, as autoridades as viram inicialmente como ataques isolados, não interligados.

Mas autoridades de segurança ocidentais já concluíram que essas operações, e potencialmente muitas outras, fazem parte de uma campanha coordenada e ainda em ação que visa desestabilizar a Europa, executada por uma unidade de elite do sistema de inteligência russo que é especializada em subversão, sabotagem e assassinatos políticos.

Militares britânicos com roupas de proteção removem material relacionado a ataque químico ao ex-espião Sergei Skripal - Adrian Dennis - 14.mar.2018/AFP

Conhecido como Unidade 29155, o grupo opera há pelo menos dez anos, mas foi descoberto apenas recentemente pelas autoridades ocidentais.

Funcionários de inteligência de quatro países ocidentais dizem que não se sabe com que frequência a unidade é mobilizada e avisam que é impossível saber quando e onde seus agentes vão atacar.

A finalidade da Unidade 29155, que não foi noticiada até agora, ressalta a intensidade do combate ativo travado pelo presidente russo Vladimir Putin contra o Ocidente, usando sua versão própria da chamada guerra híbrida —um misto de propaganda política, ataques de hackers e desinformação—, além de enfrentamentos militares abertos.

“Acho que havíamos esquecido até que ponto os russos são capazes de ser fundamentalmente implacáveis”, comentou Peter Zwack, oficial aposentado da inteligência militar e ex-adido militar na embaixada dos EUA em Moscou, dizendo que não tinha conhecimento da existência da unidade até agora.

Em mensagem de texto, Dmitri Peskov, o porta-voz de Putin, direcionou perguntas sobre a unidade ao Ministério da Defesa russo. O ministério não respondeu a pedidos de declarações.

Escondida atrás de paredes de concreto no 161º Centro de Treinamento Especializado para Objetivos Especiais, na zona leste de Moscou, a unidade faz parte da hierarquia de comando da agência de inteligência militar russa, conhecida amplamente como GRU.

Embora muitos aspectos das operações da GRU ainda constituam um mistério, as agências de inteligência ocidentais já começaram a ter uma visão mais clara de sua arquitetura básica.

Segundo autoridades americanas, nos meses que antecederam a eleição presidencial de 2016 nos EUA duas ciberunidades da GRU conhecidas como a 26165 e a 74455 invadiram os servidores do Comitê Nacional Democrata e da campanha de Hillary Clinton e então divulgaram comunicações internas embaraçosas.

No ano passado, Robert Mueller, o procurador especial que comandou a investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016, indiciou mais de 12 agentes dessas unidades, embora todos ainda estejam foragidos.

As equipes de hackers operam geralmente a partir de Moscou, a milhares de quilômetros de distância de seus alvos.

Já os agentes da Unidade 29155 vão e vêm entre a Rússia e países europeus. Alguns deles são veteranos condecorados das guerras mais sangrentas da Rússia, incluindo as do Afeganistão, Chechênia e Ucrânia.

Suas operações são tão secretas, segundo avaliações feitas por serviços de inteligência ocidentais, que é provável que a própria existência da unidade seja desconhecida até por outros agentes da GRU.

A unidade parece ser uma comunidade fortemente unida. Uma foto feita em 2017 mostra o comandante da unidade, o general Andrei V. Averyanov, de terno cinza e gravata borboleta no casamento de sua filha.

Ele está posando para a foto ao lado do coronel Anatoly V. Chepiga, um dos dois oficiais indiciados no Reino Unido pelo envenenamento do ex-espião Sergei Skripal.

“Trata-se de uma unidade da GRU que está ativa em toda a Europa há anos”, disse um ex-funcionário de inteligência europeu, que exigiu anonimato para falar de questões de inteligência classificadas.

“Foi uma surpresa descobrir que os russos, a GRU, essa unidade se sentiram à vontade para lançar estas atividades malignas extremas em países amigos. Isso foi um choque.”

Em graus diversos, cada uma das quatro operações vinculadas à unidade atraíram atenção pública, apesar de as autoridades terem levado tempo para confirmar que elas estiveram ligadas.

As agências de inteligência ocidentais identificaram a unidade inicialmente após a tentativa fracassada de golpe em Montenegro, em 2016, que envolveu um complô de dois agentes da unidade para assassinar o primeiro-ministro desse país e tomar conta do edifício do Parlamento.

Mas as autoridades só começaram a entender melhor a agenda da unidade, voltada especificamente à desestabilização, depois do envenenamento em março de 2018 de Sergei Skripal, ex-oficial da GRU que traíra a Rússia, espionando para o Reino Unido.

Skripal e sua filha, Yulia, adoeceram gravemente depois de serem expostos a um agente neurotóxico forte, mas sobreviveram.

(Três outras pessoas adoeceram, incluindo um policial e um homem que encontrou uma garrafinha que teria sido usada para transportar o agente neurotóxico. O homem deu a garrafinha à sua namorada, Dawn Sturgess, que morreu depois de pulverizar o gás neurotóxico sobre a pele, pensando tratar-se de perfume.)

O envenenamento levou a um impasse geopolítico. Numa manifestação de solidariedade com o Reino Unido, mais de 20 países, incluindo os Estados Unidos, expulsaram 150 diplomatas russos de seu território.

As autoridades britânicas acabaram expondo dois suspeitos que haviam usado nomes falsos para ingressar no país, mas foram identificados mais tarde pelo site investigativo Bellingcat como sendo Anatoly Chepiga e Alexander Mishkin.

Seis meses após o envenenamento, promotores britânicos acusaram os dois criminalmente de levar o agente neurotóxico à casa de Skripal, em Salisbury, Inglaterra, e espalhá-lo sobre a porta de sua casa.

Mas a operação foi mais complexa do que as autoridades revelaram na época.

Exatamente um ano antes do envenenamento, três agentes da Unidade 29155 viajaram ao Reino Unido, possivelmente para fazer um ensaio da operação, disseram dois funcionários europeus.

Um deles era Mishkin. Um segundo agente usou o codinome Sergei Pavlov. A missão teria sido comandada pelo terceiro agente, que usou o codinome Sergei Fedotov.

As autoridades constataram em pouco tempo que dois dos agentes –que usaram os codinomes Fedotov e Pavlov— tinham integrado uma equipe que tentou envenenar o negociante de armas búlgaro Emilian Gebrev em 2015.

Os outros agentes, também conhecidos apenas por seus codinomes, eram Ivan Lebedev, Nikolai Kononikhin, Alexey Nikitin e Danil Stepanov.

O ex-espião russo Alexander Litvinenko, em hospital em Londres
O ex-espião russo Alexander Litvinenko, em hospital em Londres - AFP

A equipe faria duas tentativas de assassinar Gebrev, uma vez na capital, Sofia, e outra um mês mais tarde na casa dele às margens do mar Negro.

A Unidade 29155 não é o único grupo autorizado a realizar operações desse tipo, disseram autoridades de inteligência.

As autoridades britânicas atribuíram o assassinato de Alexander Litvinenko ao Serviço Federal de Segurança, a agência de segurança no passado chefiada por Putin e que frequentemente compete com a GRU. 

Embora pouco seja sabido sobre a própria Unidade 29155, há pistas em arquivos russos públicos que sugerem vínculos com a estratégia híbrida usada mais amplamente pelo Kremlin.

Uma ordem de 2012 do Ministério da Defesa russo determinou a entrega de abonos a três unidades por “realizações especiais no serviço militar”.

Uma delas era a Unidade 29155. Outra foi a Unidades 74455, que mais tarde participaria da interferência na eleição americana de 2016. A terceira foi a Unidade 99450, cujos agentes teriam atuado na anexação da península da Crimeia em 2014.

Um oficial aposentado da GRU que sabe sobre a Unidade 29155 disse que ela é especializada em preparar missões ditas “diversionárias”, “em grupos ou individualmente —bombardeios, assassinatos, qualquer coisa”.

“São homens sérios os que serviram nessa unidade”, comentou o oficial aposentado. “São pessoas que trabalharam clandestinamente e como agentes internacionais.”

Tradução de Clara Allain

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