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Após 1 ano, coletes amarelos deixam de ser revolta e viram estilo de vida

Movimento inclui juventude desorientada e especialista em teorias da conspiração do YouTube

Homem protesta numa manifestação que marca um ano da revolta dos coletes amarelos na cidade de Nantes, na França

Homem protesta numa manifestação que marca um ano da revolta dos coletes amarelos na cidade de Nantes, na França Loic Venance/AFP

Mathias Alencastro
Lisboa

Languedoc-Roussillon, novembro de 2019, inverno a pique e estradas tomadas.

Numa rotatória moribunda, perdida entre um hipermercado e uma garagem mecânica, triunfa um grupo de homens e mulheres de idades variadas, que amarraram um colete amarelo a um poste. Uma bandeira no mastro da sua jangada no asfalto.

Foi nessa mesma rotatória que tudo se acelerou em dezembro do ano passado, com o bloqueio violento da estrada para a Espanha.

Hoje, ela continua sendo um palco de eventos e animações locais. Uma praça pública. Uma ágora. Os coletes amarelos deixaram de ser uma revolta para se tornar um estilo de vida.

O Languedoc-Roussillon também é o cenário da última obra de Michel Houellebecq. Publicada no começo deste ano, “Serotonina” (ed. Alfaguara) narra as aventuras de Florent-Claude, um agrônomo confrontado com a decadência do seu mundo.

O esvaziamento generalizado do território —o desaparecimento dos serviços públicos, a extinção dos polos industriais, a desertificação das regiões rurais— é frequentemente apontado como uma das principais motivações para a revolta dos coletes amarelos.

Para o historiador Pierre Vermeren, autor de “La France qui Déclasse: Les Gilets Jaunes, une Jacquerie au XXe Siècle” (a França que desclassifica: os coletes amarelos, uma revolta dos Jacques no século 20, ainda não publicado no Brasil), as políticas públicas do Estado simplesmente deixaram de funcionar a partir dos anos 1970. 

Essa falência está na origem da desilusão generalizada das categorias populares e na ascensão dos populistas.

Sintomaticamente, tudo começou quando o presidente Emmanuel Macron anunciou uma nova taxa sobre o carbono que atingia diretamente a categoria social mais afetada pelo retrocesso dos serviços públicos: os moradores de classe média das regiões mais periféricas, observadores participantes da transformação do território em um arquipélago —cada vez mais dividido e multiplicado. 

Essa é a tese de Jérôme Fourquet, autor de “L’Archipel Français - Naissance d’une Nation Multiple et Divisée” (o arquipélago francês - nascimento de uma nação múltipla e dividida, ainda não publicado no Brasil) e vencedor do prêmio de livro político da Assembleia Nacional de 2019. 

Curiosamente, os coletes amarelos entenderam instintivamente que o sucesso dos protestos passava pela obstrução das vias que ligam os arquipélagos.

Uma estratégia desenvolvida pela primeira vez no manifesto “A Insurreição que Vem”, publicado em 2007 pelo Comitê Invisível. Hoje, o manifesto é uma referência para millennials encapuzados ao redor do mundo.

Como diriam os brasileiros em 2013, era pela taxa do carbono e muito mais.

Os quase cinco meses seguidos de manifestações semanais com mais de 200 mil pessoas, marcadas pela violência contra a sacralidade do Estado (ataques contra autoridades, instituições, monumentos) e pela brutalidade da resposta das forças de segurança, renderam inúmeras interpretações.

Manifestantes em primeiro plano com o Arco do Triunfo ao fundo
Manifestantes protestam vestidos com os coletes amarelos em frente ao Arco do Triunfo, em Paris - Lucas Barioulet - 5.jan.2019/AFP

Para a esquerda, reformulada nas eleições de 2017 com a quase extinção do Partido Socialista e a ascensão da França Insubmissa como a terceira força política, não havia dúvidas: os coletes amarelos eram a resistência a um governo de oligarcas.

Numa obra premonitória lançada em maio de 2018, o jovem Édouard Louis, uma espécie de Ken Loach de 27 anos originário de uma dessas decrépitas bacias industriais do norte francês, acusa o Estado, em “Qui A Tué Mon Père” (quem matou meu pai, não publicado no Brasil), de destruir o corpo do seu pai, vítima de um acidente de trabalho.

Um livro lido pelos assessores do presidente como um primeiro alerta da crescente insatisfação social.

Num estilo muito mais panfletário, François Ruffin, diretor de fabulosos documentários e deputado, desenha, em “Ce Pays que Tu Ne Connais Pas” (esse país que você não conhece), publicado no auge dos protestos, o retrato de um Emmanuel Macron quase monstruoso.

Sua crítica odiosa lhe rendeu acusações graves, mas também revelou uma dimensão importante do protesto: uma parte cada vez maior dos franceses nutria um ódio pessoal contra o presidente recém-eleito.

Obrigado a abandonar a taxa do carbono numa humilhante aparição televisiva em dezembro, quando prometeu tudo e seu contrário, Macron atravessou o inverno como um rei cadaveroso, maquiado dos pés à cabeça, em permanente fuga dos populares enraivecidos.

Desde 2013 os brasileiros sabem que os movimentos “espontâneos” são um jogo no qual a extrema esquerda começa ganhando e a extrema direita leva a taça no final do segundo tempo.

A França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon e François Ruffin foi o único partido a apoiar incondicionalmente os manifestantes, até nos momentos de maior tensão, como o ataque ao Arco do Triunfo de dezembro de 2018. 

As tentativas de recuperação política, porém, fracassaram redondamente. Seus militantes acabaram sendo expulsos das assembleias gerais do movimento, e as poucas lideranças dos coletes amarelos que tentaram se aventurar na política institucional foram ridicularizadas.

O partido sofreu um revés inesperado nas eleições europeias de maio de 2019, e seu profeta Mélenchon partiu em um mochilão pela América Latina.

Para o autor de “La Victoire des Vaincus” (a vitória dos vencidos), Edwy Plenel, ex-editor do Le Monde e fundador do Mediapart, as dinâmicas de cooptação se retroalimentaram.

Os coletes amarelos caíram na mão da extrema direita precisamente porque o campo progressista tentou disputar o que ele chama de “monopólio da raiva e privilégio da contestação”.

O fato é que a extrema direita emergiu como única herdeira do movimento.

Em relativo silêncio desde a sua derrota para Macron no segundo turno das eleições presidenciais de 2017, Marine Le Pen ficou numa emboscada. Enquanto isso, um pequeno grupo de formadores de opinião de ultradireita começou a ocupar o espaço midiático. 

Principal expoente desse grupo, Éric Zemmour, autor de “Destin Français” (destino francês) e que tem lugar cativo nos principais programas de televisão do país, subiu o tom nas últimas semanas, aproveitando uma convenção da direita para declarar, num discurso digno dos anos 30, que a França se encontra em estado de guerra étnica e religiosa.

Éric Zemmour sugere que os coletes amarelos são uma revolta contra a França multicultural e globalizada e, sobretudo, contra a ocupação dos novos colonizadores: os muçulmanos.

E o que pensam disso tudo os coletes amarelos? Os depoimentos publicados por membros do movimento mostram que o tédio também é um motor fundamental do processo.

O tédio da ausência de participação democrática, do isolamento social e geográfico, do embrutecimento da sociedade de consumo, da redundância do trabalho precário. 

Segundo os principais estudos, os manifestantes representavam 21% da população entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019.

Uma maioria de homens (53%), profissionalmente ativos (57%), das classes populares (26%) e em dificuldade econômica (65%). Eles são críticos à União Europeia (61%) e votaram em massa em Marine Le Pen (29%) e Jean-Luc Mélenchon (17%) em 2017 —mas a maioria acha que a classe política é imprestável (58%).

Seria um erro resumir a revolta a um movimento de homens e mulheres de meia-idade em dificuldades financeiras.

À imagem do ativista Maxime Nicolle, conhecido como Fly Rider e um dos principais rostos do protesto, que está prestes a publicar na França um livro com seu depoimento (“Fly Rider Gilet Jaune”, Fly Rider colete amarelo), a revolta dos coletes amarelos também é a revolta da juventude desorientada vestida de calça moletom cinza, apaixonada pelo rapper Booba, consumidora de haxixe marroquino, jogadora de “Counter Strike” e especialista em teorias da conspiração do Youtube.

Um universo magistralmente descrito por Benjamin Pitchal no seu romance autobiográfico “La Classe Verte” (a classe verde), onde ele conta sua própria história de adolescente burguês parisiense que, numa busca pela adrenalina, vira traficante de maconha do eixo Paris-Amsterdã, termina num presídio de segurança máxima e, no final, se reinventa como colecionador de livros antigos.

A redenção de Macron, a grande vítima dos coletes amarelos, veio de fora.

A repulsa quase unânime dos franceses a Donald Trump e Jair Bolsonaro ajudou o presidente francês a cultivar seu estatuto de guardião do templo das democracias liberais, eixo da segunda fase do seu governo iniciada no verão passado. 

Mas o caminho é longo. Assustados com a violência dos protestos, os militantes do seu partido hesitam em sair de casa nas cidades onde Macron precisa eleger prefeitos nas eleições municipais do próximo ano.

Sem uma robusta rede de aliados nas prefeituras, será difícil para o presidente repetir a façanha de 2017, quando podia usar e abusar do efeito surpresa ou, como diriam os seus assessores moderninhos, “disruptivo”.

Olhando para trás, é alucinante pensar que Macron, por um momento, tenha acreditado que ele, com seu carisma de vendedor de seguros e três anos de estágio em política no governo estrambólico de François Hollande, poderia iniciar o seu mandato —conquistado numa eleição marcada pela abstenção recorde— comportando-se como os monarcas natos Jacques Chirac e François Mitterand.

A falta de contato com a realidade do presidente é apontada como um catalisador dos protestos por Danièle Sallenave, membro da Academia de Letras Francesa e autora do livro “Jojo, le Gilet Jaune”. 

Jojo, diminutivo de Georges, é usado genericamente para se referir a crianças irritantes. Macron, que às vezes não consegue esconder os tiques de lobo de Wall Street, chegou a usar esse termo para designar os manifestantes.

François Hollande também partilha o sentimento da autora. O ex-presidente reconvertido em escritor, adepto das conversas com idosos nos supermercados, reconhece sua parte de responsabilidade, mas acredita que a revolta teria sido controlada por um governo social-democrata tradicional apoiado pelos corpos intermediários (sindicatos, partidos e associações) abominados por Macron.

Para Hollande, basta rebobinar o filme para tudo voltar ao normal.

Para o professor e ensaísta Bertrand Badie, o movimento dos coletes amarelos é um “tipo ideal” (segundo o conceito de Max Weber) que veio para ficar.

Embora os protestos que sacudiram países como Argélia, Chile e Líbano sejam diferentes por natureza, eles se beneficiam das três principais transformações provocadas pela globalização: a inclusão de todos os povos na história global, a difusão e o reforço mútuo de expressões coletivas, e a mobilidade e fluidez das relações entre sociedades.

Esses movimentos estão em vias de alterar a relação entre o político e o social. O político se tornou muito mais instável e incerto, e o social muito mais contundente e transformador.

Se seguirmos sua linha de pensamento, hoje, para um governo como o brasileiro, os movimentos sociais nos países vizinhos são uma ameaça muito maior do que a pressão ou até mesmo intervenção de potências estrangeiras.

Se a primavera árabe introduziu temas centrais dos novos protestos, como a ênfase na dignidade coletiva, os coletes amarelos deram sua dimensão global porque surgiram num país tradicionalmente na vanguarda dos processos revolucionários. 

O movimento dos coletes amarelos é um estado permanente de protesto nas escalas local, nacional e global.

Prova disso: na semana passada, horas depois das eleições espanholas de domingo, um grupo de manifestantes catalães ocupou a estrada de acesso à França (e mais precisamente ao Languedoc-Roussillon) com o objetivo de envolver as autoridades francesas no conflito entre independentistas e autoridades espanholas.

Um ano e uma volta ao mundo depois, os gatos pingados da rotatória continuam fazendo das suas.


Que revolta é essa?

Como começou?

O aumento do preço dos combustíveis foi o estopim das manifestações. A alta foi causada pela valorização do produto no mercado externo e pelo anúncio de um aumento de impostos, cujo objetivo era incentivar o uso de fontes de energia renováveis. 

O que os manifestantes conquistaram até agora?

O governo congelou o aumento dos impostos e mudanças de preços nos combustíveis, assim como as tarifas de energia elétrica.

Houve violência?

Sim, o ministério do Interior estimou que 2.500 manifestantes e 1.800 policiais ficaram feridos. O governo foi criticado pela forma que reprimiu os protestos. 

Quantos participaram dos atos?

No fim do ano passado, cerca de 282 mil pessoas saíram às ruas, mas desde então a participação tem diminuído. Os atos se estendem às principais cidades francesas. 

Por que os manifestantes vestem coletes amarelos? 

O colete, obrigatório em todos os veículos como item de segurança, está relacionado à classe trabalhadora e aos motoristas de caminhão.

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