Dois morrem em protestos um dia após Añez se declarar presidente da Bolívia

Senadora encontra militares e policiais e troca comando do Exército

La Paz

Um dia após se declarar presidente interina da Bolívia, a senadora Jeanine Añez recebeu no Palácio Quemado, sede do governo, o alto comando militar e da polícia do país.

Ela formalizou a troca do comandante do Exército e discutiu com os militares medidas para combater os protestos que incendeiam o país —as propostas, no entanto, não foram divulgadas.

Nas ruas, dois jovens de 20 anos morreram, ambos no departamento de Santa Cruz.

A primeira vítima foi em Montero, num confronto entre apoiadores do ex-presidente Evo Morales e membros do Comitê Cívico antigovernamental da cidade.

A outra foi baleada na cabeça em Yapacaní quando evistas entraram em conflito com policiais. Desde o início dos atos, nove morreram.

Militar ajeita faixa presidencial na presidente autodeclarada da Bolívia, Janine Aiñez
Militar ajeita faixa presidencial na presidente autodeclarada da Bolívia, Janine Aiñez - Oscar Ortiz no Twitter

Em uma cerimônia ainda pela manhã, Añez empossou o novo comandante do Exército, Carlos Orellana Centellas. Ele substitui o general Williams Kaliman, nomeado por Evo e que tinha feito pronunciamento na televisão sugerindo a renúncia do ex-presidente.

A senadora afirmou que a ocasião era “oportuna para chamar a calma de toda a população boliviana”. “Peço que abandonem as atitudes intransigentes.”

Centellas também pediu calma. “Somos irmãos. Informe à Bolívia que as Forças Armadas estarão sempre ao lado do povo", afirmou.

Añez cumprimenta o general Carlos Orellana
Embora a Bolívia seja um Estado laico, a cerimônia desta quarta contou com um crucifixo e velas ao lado da Constituição; Añez cumprimenta o general Carlos Orellana - Aizar Raldes/AFP

Em uma entrevista para jornalistas logo após ser fotografada ao lado de um militar que ajeita a faixa presidencial utilizada na terça, Añez disse que quer fortalecer as polícias, “que nos demonstraram nestes dias, com o Exército, que trabalhando de maneira conjunta nos dão bons resultados”. Ela acrescentou que “a única coisa que os bolivianos querem é viver em paz”.

Já no começo da tarde, Añez disse que haverá “um processo eleitoral limpo” e que “todos os cidadãos que cumpram com os requisitos poderão participar”. Também afirmou que se esforçará para trazer do exterior “irmãos bolivianos que estão no exílio por conta do governo anterior”.

No Twitter, a senadora já trocou sua foto de perfil —a atual a mostra com a faixa presidencial. E excluiu ao menos uma mensagem com tom racista de sua conta.

A postagem apagada era contra o Ano Novo aymara, etnia chamada por Añez de “satânica”, porque “a Deus ninguém o substitui”.

Em uma mensagem mais recente, ela lamenta a soltura do ex-presidente Lula. “Uma pena que eles gostem de ladrões!!!”, escreveu no sábado (9), um dia após a saída do brasileiro da prisão em Curitiba.

Enquanto a presidente interina se reunia com os militares na sede do governo, grupos de apoiadores de Evo se preparavam na cidade de El Alto para descer à capital e pedir sua renúncia.

Eles consideram ilegítimo o modo como ela chegou ao posto, sem ter quórum para votação no Congresso.

Foi após essa sessão que ela caminhou até a sede do Executivo e disse que “a Bíblia voltou ao palácio [presidencial]”.

Em uma manobra, ela ocupou o vácuo de poder deixado pela renúncia de Evo, de seu vice e de outros políticos no último domingo (10). O ex-presidente estava havia 13 anos no cargo e foi pressionado a sair pela oposição e pelas Forças Armadas.

Nesta quarta, La Paz também foi palco de confrontos violentos entre as forças de segurança e apoiadores de Evo.

Polícia e membros do Exército lançaram bombas de gás lacrimogêneo enquanto um blindado percorria o perímetro da praça de San Francisco, sem efetuar disparos.

Muitos dos manifestantes vieram de El Alto, carregando bandeiras dos vários grupos indígenas presentes no país. 

A praça Murillo, onde fica a sede do governo, foi cercada por policiais e soldados do Exército. Os manifestantes gritavam “renuncie” para a nova mandatária.

Numa rede social, Evo Morales escreveu que legisladores foram “brutalmente reprimidos e impedidos” de entrar na Assembleia Nacional. “O golpe racista e fascista se afunda na ilegalidade.”

Entre eles, estava Adriana Salvatierra, que foi líder do Senado até renunciar publicamente no domingo, junto com outros membros de seu partido. Ela afirmou a repórteres que sua carta de renúncia não havia sido apresentada à Casa, e que, por isso, continuava no cargo. “Ainda sou senadora.”

Em outras partes do país, houve mobilização de outros grupos, como o dos produtores de coca do Chapare, de onde veio Evo. 

O líder local, Andrónico Rodríguez, publicou vídeo em uma rede social declarando que seu grupo se está “em mobilização nacional contra o golpe de Estado". "Rejeitamos a autoproclamação da senhora Añez, que foi inconstitucional."

Em sua primeira entrevista coletiva desde que chegou ao México, onde recebeu asilo político, o ex-presidente disse estar disposto a voltar à Bolívia, “se meu povo pedir”. “Vamos voltar cedo ou tarde. Quanto antes melhor para pacificar a Bolívia.”

Ao jornal El País, ele disse que abriria mão de se candidatar para por fim à onda de violência.

Em reação ao movimento de Añez, a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, defendeu a posse da senadora para “evitar o vazio de poder” e “convocar novas eleições”.

“A União Europeia apoia uma solução institucional que permita que um governo interino prepare novas eleições”, disse durante uma sessão do Parlamento europeu. 

A maioria dos parlamentares deu seu aval ao pedido de novas eleições e ao envio de uma missão eleitoral da UE, mas não houve consenso quanto aos responsáveis pela crise boliviana. 

A chancelaria do Reino Unido reconheceu o que chamou de “governo interino” de Añez. “Eleições livres e justas reconstruirão a confiança do povo boliviano na democracia”, afirmou o órgão em um comunicado.

O Brasil e os Estados Unidos reconheceram Añez como presidente interina. Já a Argentina, segundo informação de um alto oficial do governo ao jornal Clarín, não a reconhece no cargo por enquanto. Uruguai e Cuba ainda não se manifestaram. ​

Com AFP e Reuters

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