Condado na Flórida prende pastor que realizou cultos e contrariou restrições

Líder religioso organizou transporte de ônibus para fiéis que precisassem de carona

Patricia Mazzei
Miami | The New York Times

Antes de o reverendo Rodney Howard-Browne, pastor de uma megaigreja pentecostal na Flórida, promover dois cultos no domingo, cada um contando com centenas de fiéis presentes, advogados da polícia e do governo local lhe pediram encarecidamente que pensasse duas vezes antes de submeter sua congregação ao risco de contrair o coronavírus.

O pastor os ignorou, levando adiante as reuniões na igreja River at Tampa Bay e até mesmo organizando transporte de ônibus para os fiéis que precisassem de carona.

Na segunda-feira, o delegado Chad Chronister, do condado de Hillsborough, disse que obteve um mandado de prisão contra Howard-Browne por ter “intencionalmente e repetidas vezes” desafiado as ordens emergenciais que exigiam da população distanciamento social.

O pastor Rodney Howard-Browne, da igreja River at Tampa Bay, em foto da delegacia do condado de Hernando
O pastor Rodney Howard-Browne, da igreja River at Tampa Bay, em foto da delegacia do condado de Hernando - Hernando County Detention Center - 30.mar.20/Reuters

“Seu descaso imprudente com a vida humana colocou em risco centenas de membros de sua congregação e milhares de outras pessoas que podem interagir com eles nesta semana”, disse em entrevista coletiva em Tampa o xerife Chronister, que é republicano.

“Nosso objetivo aqui não é impedir ninguém de praticar sua religião, mas a segurança e o bem-estar de nossa comunidade precisam sempre vir em primeiro lugar.”

Howard-Browne, residente no condado de Hernando, apresentou-se à polícia na tarde de segunda-feira.

Ele foi registrado na prisão e solto 40 minutos mais tarde, depois de pagar fiança de US$ 500 (R$ 2.600).

Agora, enfrenta duas acusações de contravenção de segundo grau (menos grave) e violação das normas emergenciais de saúde pública.

A Flórida é o terceiro Estado mais populoso dos EUA, atras de Califórnia e Texas, onde, neste último, não foi emitida uma ordem estadual exigindo que a população fique em casa.

O resultado disso é uma mistura de restrições diversas que acabou deixando muitos habitantes do estado continuarem a viver de modo mais ou menos normal.

Em vários casos as autoridades locais citaram a ausência de uma ordem vigente para todo o estado para justificarem o pedido, e não a ordem, de precauções à população.

O coronavírus representa uma ameaça grave ao estado, com sua grande população de idosos e milhões de turistas.

O governador Ron DeSantis, republicano, disse na segunda-feira (30) que assinaria uma ordem unificando as normas locais que pedem à população para não sair de casa, mas apenas no sudeste do Estado, de Key West a West Palm Beach, o trecho mais densamente povoado do Estado, onde muitas restrições já haviam sido impostas.

A região é responsável por cerca de 60% dos mais de 5.700 casos de coronavírus da Flórida, segundo o governador.

DeSantis atribuiu parte dos casos a pessoas vindas de Nova York e de Louisiana, fugindo do coronavírus nesses locais, e ordenou que esses visitantes façam uma quarentena.

A Flórida fechou restaurantes, exceto para entregas de comida, aconselhou pessoas de 65 anos ou mais a ficarem em casa, suspendeu as locações de imóveis para turismo e tomou outras medidas, mas não ordenou um fechamento das praias e empresas não essenciais em todo o estado.

Os conselhos editoriais dos jornais locais vêm exortando o governador a tomar medidas mais decisivas.

Médicos no sudoeste da Flórida temem que os hospitais fiquem sobrecarregados e pediram que os condados de Collier e Lee, onde ficam as cidades de Naples e Fort Myers, decretem o fechamento de empresas não essenciais e obriguem a população a ficar em casa.

Comissários dos condados se negam a ir tão longe sem ordens nesse sentido do governador.

As abordagens muito diferentes seguidas por diferentes autoridades locais vêm provocando repúdio, especialmente online. Enquanto a cidade de Jacksonville, no condado de Duval, fechou suas praias, o condado de St. Johns, mais ao sul, não o fez.

Uma foto aérea feita no fim de semana mostrou praias vazias de um lado da divisa entre condados e praias lotadas do outro. O condado de St. Johns acabou fechando suas praias mais tarde.

“É realmente assustador –meus vizinhos não estão prestando atenção, e eu vivo numa comunidade de idosos”, comentou Vicki Stainbury, 59, da cidade de Boynton Beach, no condado de Palm Beach.

Ela disse que ficou chocada ao ver os supermercados Walmart e Publix lotados no fim de semana, sem qualquer atenção aparente ao distanciamento social.

“Eu gostaria de ouvir uma mensagem que fosse realmente séria: ‘Fiquem em casa, não saiam. Não vão a cultos religiosos ou missas. Não fiquem passeando pela Atlantic Avenue com 15 amigos. Não vão à praia.’”

Democratas pediram ao governador, partidário do presidente Donald Trump, para emitir uma ordem de permanência em casa vigente em todo o Estado, mas ele insiste em seguir uma abordagem que descreve como “feita sob medida”.

Ela permitiu que o condado de Hillsborough mandasse a população permanecer em casa –e foi essa a ordem local que o pastor Howard-Browne desobedeceu, enquanto cultos religiosos de todos os tipos vêm sendo cancelados em todo o país ou promovidos online.

O pastor alegou que a primeira emenda constitucional o isenta da necessidade de obedecer a ordem.

Andrew Warren, procurador-geral no condado de Hillsborough, disse que ordens emergenciais são constitucionais, válidas e se aplicam a todos.

“Eu lembraria ao bom pastor do versículo Marcos, 12:31, segundo o qual não há mandamento mais importante do que ‘ama a teu próximo assim como a ti mesmo'", disse Warren, que é democrata.

“Amar o próximo significa protegê-lo, não colocar sua saúde em risco, expondo-o a esse vírus mortal.”

Um vídeo do culto promovido na manhã do domingo mostra fiéis em pé em proximidade estreita, apesar de Howard-Browne ter alegado que as regras de distanciamento social foram seguidas.

“Sei que estão tentando me atacar por manter a igreja funcionando, mas não somos um serviço não essencial”, disse o pastor aos fiéis. “De repente somos vilificados porque cremos que Deus cura, que o Senhor liberta as pessoas. De repente nos retratam como malucos de algum tipo.”

A Liberty Counsel, entidade cujos advogados frequentemente defendem a direita religiosa, disse que prestaria assistência jurídica a Howard-Browne. Destacando que os funcionários da igreja usaram luvas no domingo e forneceram álcool em gel aos fiéis, a organização descreveu as ordens locais como falhas.

“O problema desta ordem administrativa é que ela não foi revista por especialistas em direito constitucional ou por um órgão deliberativo”, disse em comunicado o presidente da Liberty Counsel, Mat Staver.

“Contrariamente à alegação do xerife Chronister de que o pastor Howard-Browne foi irresponsável, as ações do condado de Hillsborough e do xerife do condado de Hernando discriminam contra a religião e os encontros promovidos pela igreja.”

Outras igrejas da área, incluindo a Igreja de Deus da Rua 34, uma igreja não denominacional de Tampa, fecharam as portas e transferiram seus cultos para o livestream, disse o reverendo Thomas Scott em entrevista coletiva.

“Valorizamos a importância das leis e respeitamos a importância do distanciamento social”, disse ele. “E, o que é mais importante, queremos proteger nossos fiéis para que eles não coloquem a vida em risco.”

Tradução de Clara Allain 

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