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The New York Times Eleições EUA 2020

Provável vitória rápida e tranquila de Biden nas primárias é a maior surpresa de 2020

Contrariando expectativas, ex-vice-presidente caminha para derrotar Sanders com facilidade

Matt Flegenheimer Katie Glueck
The New York Times

A situação dos Estados Unidos é instável, caótica, impossível de definir. A situação da primária democrata, quem diria, não é.

Com uma série de vitórias importantes na terça-feira (10) —em Michigan, Missouri, Mississippi e provavelmente em qualquer outro estado com "M" que tivesse realizado uma primária nesta semana—, Joe Biden parece pronto para concluir uma das reviravoltas mais marcantes na memória recente das campanhas, encontrando-se em posição dominante apenas dez dias após a primeira vitória estadual de suas três candidaturas presidenciais.

O pré-candidato democrata Joe Biden durante discurso em Detroit, no estado de Michigan,
O pré-candidato democrata Joe Biden durante discurso em Detroit, no estado de Michigan, - Brendan McDermid - 9.mar.20/Reuters

Sua virada mandou o senador Bernie Sanders para um poleiro eleitoral familiar: um progressista rebelde azarão esforçando-se para alcançar um favorito do establishment.

O ex-vice-presidente ganhou no Sul, no Nordeste, no Meio-Oeste. Ganhou em estados grandes e pequenos. Ganhou em locais onde sua força com os negros poderia ajudá-lo e em outros onde esses moradores são em menor número e distantes entre si.

O domínio de Biden no partido é tão profundo agora que qualquer colapso provavelmente exigiria uma reviravolta política acentuada, como a que precipitou sua ascensão.

E como 2020 se inclina para uma fase de incerteza logística, com comícios cancelados por temores de coronavírus e eleitores mais propensos a escolher uma liderança firme, Biden está ultrapassando Sanders de modo consistente e significativo no aspecto crucial de quem é confiável numa crise, de acordo com sondagens após a votação.

As disputas da próxima semana incluem estados onde se espera que Biden tenha bom desempenho novamente.

Na Flórida —o maior prêmio no mapa até o final de abril—, sua força entre os eleitores idosos e entre os moderados, junto com a desconfiança que cubano-americanos tem de Sanders, devem fazer Biden ganhar por goleada no número de delegados.

Uma semana depois, em 24 de março, a corrida passa à Geórgia, cuja grande população negra deverá ajudar Biden novamente.

Ao contrário de 2016, quando Sanders estendeu sua disputa contra Hillary Clinton com uma série de vitórias nos caucuses, formato em que ele se destacou, o calendário deste ano tem muitas primárias mais tradicionais, oferecendo menos chances a Sanders para aumentar as margens e manter o número de delegados próximo.

O resultado —que parecia implausível no mês passado, quando Biden teve resultados tão ruins em Iowa e em New Hampshire que o establishment democrata chegou a debater a possibilidade de uma convenção sem maioria para deter Sanders— é uma corrida que pode estar chegando a seu fim funcional.

É difícil exagerar as consequências disso. Na última vez que Biden abandonou uma de suas próprias festas em noite de prévias, ele cambaleava na direção de um quinto lugar em New Hampshire em meados de fevereiro, faltando a uma reunião em Nashua (cidade de New Hampshire) para procurar refúgio na Carolina do Sul e aceitar seu destino eleitoral de uma distância segura.

Na terça (10), ele novamente escapou de um evento —mas desta vez por temores de que seus seguidores em Cleveland se expusessem a riscos de saúde por causa do coronavírus.

Biden rumou então para a Filadélfia, local de seu quartel-general de campanha, onde buscou, no National Constitution Center, demonstrar força em um momento de ansiedade nacional.

Com sua mulher, Jill Biden, ao seu lado, Biden apareceu para descrever a corrida como ele a vê agora: efetivamente terminada no lado democrata. Ele agradeceu a Sanders e seus apoiadores por sua "paixão", deixando os eleitores com a opção entre ele e o presidente Donald Trump.

"Neste momento, quando há tanto medo no país, e há tanto medo em todo o mundo, precisamos da liderança americana", disse Biden. "Precisamos de uma liderança presidencial honesta, confiável, verdadeira e estável. Liderança tranquilizadora."

Sanders e sua equipe não admitiram a derrota publicamente, mas após a divulgação dos mais recentes resultados sua campanha disse ele que não iria se pronunciar na noite de terça.

Seus defensores dizem que ainda há muitos estados a computar, muitas questões para discutir, muitas chances de Biden desperdiçar suas vantagens —como ele fez durante grande parte do ano passado como aspirante a primeiro colocado que entregou o título.

A campanha do senador está ansiosa pelo debate programado para este domingo (15), a primeira sessão cara a cara com Biden, um roteiro longo e improvisado que poderá demonstrar a propensão do ex-vice-presidente a cometer gafes.

Mas se Sanders não se destacou nesta terça —especialmente em um estado como Michigan, local de sua mais memorável vitória nas primárias de 2016—, fica difícil imaginar onde ele poderia.

Em certo sentido, Biden está oferecendo uma espécie de reprise de 2016, revestida em patriotismo e pensamento positivo: tirar Trump. Provar que o país não representa seus valores. E que o trabalho de reparo comece, condenando o 45º presidente ao esquecimento histórico.

Biden decidiu não entrar na disputa há quatro anos, quando estava em luto por seu filho Beau, que morreu em maio de 2015.

Agora ele está fazendo o tipo de campanha que os eleitores poderiam esperar de um ex-vice-presidente que busca uma promoção imediatamente após seu período como segundo no comando, como se os últimos quatro anos pudessem ser efetivamente apagados.

Ele está prometendo continuidade com a última administração de seu partido, comprometendo-se a construir em cima dos sucessos da antiga gestão, sem revisão em grande escala e até mesmo apresentando-se mais como uma figura transitória do que um representante em longo prazo.

É uma mensagem que tem alguns elementos em comum com a de Hillary Clinton em 2016, centrada muitas vezes no caráter e comportamento de Trump.

Biden e sua equipe parecem convencidos de que a realidade do mandato de Trump produzirá um resultado diferente desta vez, com o tumulto diário mais visceral para os eleitores agora do que nas previsões prescientes, mas hipotéticas, de Hillary, de desordem executiva e excesso de tuítes.

Nos últimos dias, Sanders e seus aliados defenderam a tese de que os democratas seriam tolos de nomear novamente o candidato mais moderado, lembrando aos eleitores potenciais vulnerabilidades de Biden sobre questões de comércio e a Guerra do Iraque.

"Muitos flashbacks", disse Nina Turner, ex-senadora por Ohio e copresidente nacional da campanha de Sanders. "2016 nunca terminou."

Trump, acrescentou ela, certamente vai repetir a fórmula que funcionou para ele na última vez, se os democratas permitirem.

"É melhor você acreditar que Donald J. Trump vai fazer disso uma reprise de 2016", disse Turner, comparando o histórico de Biden com o de Clinton. "Há tantas semelhanças para ele atacar."

O presidente, conhecido por contar os detalhes de sua vitória eleitoral anos após o fato, não é o único veterano desta campanha inclinado a se debruçar sobre ela.

Hillary está estrelando uma nova série de documentários em que sua derrota é destacada.

E Sanders, pressionado repetidamente nos últimos tempos se seus ataques a Biden poderão prejudicar o ex-vice-presidente em novembro, pareceu frustrado na semana passada com uma frase que ele reconheceu bem.

"Eu ouvi isso em 2016", disse ele a repórteres em Phoenix. "Em 2016, o sentimento foi: 'Devemos ungir o candidato e tirar todos os outros da corrida'. É isso mesmo que é a democracia?"

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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