Ex-assessora do Senado faz nova acusação de agressão sexual contra Biden

Tara Reade diz que atual candidato democrata à Presidência dos EUA a violentou em 1993

Lisa Lerer Sydney Ember
Washington | The New York Times

Uma ex-assessora do Senado que no ano passado acusou Joe Biden de tocá-la de maneira inapropriada fez uma nova alegação de agressão sexual contra o ex-vice-presidente, que provavelmente será nomeado o candidato presidencial do Partido Democrata.

Tara Reade trabalhou por pouco tempo como assistente de equipe no gabinete de Biden no Senado.

Ela disse ao New York Times que, em 1993, ele a encostou contra uma parede em um prédio do Senado, enfiou a mão sob suas roupas e a penetrou com os dedos.

Uma amiga disse que Reade lhe contou os detalhes da alegação na época. Outra amiga e um irmão de Reade disseram que, ao longo dos anos, ela lhes contou sobre um incidente sexual traumático envolvendo o democrata.

Uma porta-voz de Biden, por outro lado, disse que a alegação é falsa. Entrevistadas, várias pessoas que trabalharam no gabinete do Senado com Reade disseram não se recordar de qualquer discussão sobre tal incidente nem de qualquer comportamento semelhante do ex-vice com relação a Reade ou qualquer mulher.

Duas estagiárias que trabalharam diretamente com Reade disseram não ter conhecimento da alegação ou de qualquer tratamento que ela teria recebido que a teria perturbado.

Joe Biden, ex-vice-presidente dos EUA durante o governo de Barack Obama e candidato do Partido Democrata nas próximas eleições - Saul Loeb - 12.mar.20/AFP

No ano passado, Reade e sete outras mulheres foram a público acusar Biden de tê-las beijado, abraçado ou tocado de maneiras que as deixaram incomodadas.

Reade disse ao New York Times na época que Biden, em público, acariciou seu pescoço, mergulhou os dedos no cabelo dela e a tocou de maneira que a deixou desconfortável.

Pouco depois de Reade ter feito a nova alegação, numa entrevista a um podcast que foi ao ar em 25 de março, o New York Times começou a divulgar seu relato e buscar corroboração dele por meio de entrevistas, documentos e outras fontes.

O jornal entrevistou Reade por horas, em vários dias, assim como as pessoas a quem ela contou sobre o comportamento de Biden e outros amigos dela.

O jornal também falou com advogados que conversaram com a ex-assistente sobre a alegação dela; com quase duas dúzias de pessoas que trabalharam com Biden no início dos anos 1990, incluindo várias que trabalharam com Reade; e com as outras sete mulheres que criticaram Biden no ano passado, para discutir as experiências que elas tiveram com ele.

Nenhuma outra alegação de agressão sexual veio à tona durante as entrevistas e investigação, e nenhum ex-membro da equipe de Biden corroborou qualquer detalhe da alegação de Reade. O Times não descobriu nenhum padrão de conduta sexual inapropriada por parte de Biden.

Na quinta-feira, Reade apresentou uma denúncia à polícia de Washington, dizendo que foi vítima de agressão sexual em 1993. O boletim de incidente público, fornecido ao Times por Reade e pela polícia, não cita o nome de Biden, mas Reade disse que a denúncia diz respeito a ele.

Reade disse que registrou a denúncia para se munir de um grau adicional de segurança contra potenciais ameaças. Registrar uma denúncia policial falsa pode ser punido com multa e prisão.

Ela, que trabalhou como assistente de equipe que ajudava a administrar estagiários, disse que também registrou queixa contra Biden junto ao Senado em 1993.

Disse que não tinha cópia da queixa, e não foi localizado nenhum documento dessa natureza.

A campanha de Biden disse não estar de posse da queixa. O Times reviu uma cópia oficial do histórico de trabalho de Reade no Senado, fornecido por ela, que mostra que ela foi contratada em dezembro de 1992 e paga pelo gabinete de Biden até agosto de 1993.

As sete outras mulheres que denunciaram Biden disseram ao Times neste mês que não têm informações novas a acrescentar sobre o que aconteceu com elas, mas várias disseram acreditar no relato de Reade.

No ano passado, Biden, 77, reconheceu as queixas das mulheres sobre sua conduta, dizendo que suas intenções tinham sido benignas e prometendo “ser mais atento e respeitador do espaço pessoal das pessoas”.

Em resposta à alegação de Reade, Kate Bedingfield, uma vice-diretora da campanha de Biden, disse em comunicado: “O vice-presidente Biden dedicou sua vida pública a mudar a cultura e as leis em torno da violência contra as mulheres. Ele foi autor da Lei de Violência contra as Mulheres e lutou por sua aprovação e reautorização. Ele acredita firmemente que as mulheres têm o direito de ser ouvidas —e ouvidas respeitosamente. Alegações desse tipo devem também ser analisadas cuidadosamente por uma imprensa independente. O que está claro em relação a esta alegação: ela é falsa. Isso não aconteceu, em absoluto.”

Reade levou a público suas novas alegações no momento em que Biden chega perto de garantir sua candidatura presidencial democrata, depois de vencer uma série de primárias contra seu rival principal, o senador Bernie Sanders.

Reade, que se descreve como “democrata de terceira geração”, disse que originalmente foi a favor de Marianne Williamson e da senadora Elizabeth Warren na disputa pela candidatura democrata, mas que votou em Sanders na primária da Califórnia no mês passado.

Disse ainda que sua decisão de vir a público não tem relação alguma com política ou com ajudar Sanders e acrescentou que nem a campanha de Sanders nem a de Trump a incentivaram a fazer a alegação.

O presidente Donald Trump foi acusado de agressão sexual e erro de conduta sexual por mais de uma dúzia de mulheres, que descreveram um padrão de comportamento que ultrapassa em muito as acusações feitas a Biden.

Além disso, segundo promotores federais, antes da eleição de 2016 o presidente fez pagamentos ilegais para silenciar mulheres sobre alegados casos extraconjugais com ele –incluindo um pagamento de US$ 130 mil (R$ 673 mil) à atriz de cinema pornô Stormy Daniels.

O relato de Reade

Reade, 56, disse ao Times que a agressão ocorreu na primavera de 1993. Ela disse que procurou Biden para lhe entregar uma sacola com artigos atléticos quando ele a empurrou contra uma parede, começou a beijar seu cabelo e pescoço e a se insinuar para ela.

Biden teria enfiado a mão por baixo da blusa cor creme de Reade e usado um joelho para separar as pernas dela, antes de, segundo ela, enfiar uma mão sob sua saia.

“Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Ele estava falando comigo, suas mãos estavam por toda parte e estava tudo acontecendo muito rápido”, contou. “Ele estava me beijando e falou baixinho: ‘Você quer ir para outro lugar?’.”

Reade disse que se afastou, e que Biden parou.

“Ele me olhou com a expressão quase perplexa ou chocada”, disse ela. “Falou: ‘O que é isso, garota, ouvi dizer que você gostava de mim’.”

Reade disse que na época temeu ter feito algo de errado para incentivar a atitude de Biden.

“Ele apontou um dedo para mim e disse: ‘Você não é nada para mim. Nada.’ Aí ele me pegou pelos ombros e disse: ‘Você está ok, você está bem’.”

Reade disse que Biden se afastou pelo corredor. Ela teria se arrumado no banheiro, ido para casa e, chorando, ligado para sua mãe, que a aconselhou registrar uma queixa na polícia imediatamente.

Em vez disso, disse Reade, ela apresentou uma queixa a Marianne Baker, a assistente executiva de Biden, além de dois assessores seniores do senador, Dennis Toner e Ted Kaufman, dizendo ter sido assediada, mas sem mencionar a alegada agressão.

Os assessores e a assistente se negaram a tomar medidas, disse Reade, e depois disso ela registrou uma queixa por escrito no setor de pessoal do Senado.

Disse que a equipe do gabinete tirou a maioria de suas funções, inclusive a supervisão dos estagiários, e a encaminhou para uma sala de trabalho sem janelas, além de tornar o ambiente desconfortável para ela no trabalho.

Reade disse que Kaufman lhe disse mais tarde que ela não se enquadrava bem no gabinete e lhe deu o prazo de um mês para procurar outro trabalho. Reade nunca encontrou outro cargo em Washington.

Entrevistado, Ted Kaufman, amigo de longa data de Biden que era na época seu chefe de gabinete, disse: “Eu não a conhecia. Ela não me procurou. Se ela tivesse me procurado, eu lembraria”.

Dennis Toner, que trabalhou para Biden por mais de três décadas, disse que a alegação não condiz com o caráter de Biden.

Outros senadores e assessores de gabinete têm fama de assediar mulheres no trabalho e fazer farras após o horário de trabalho, segundo pessoas que trabalharam no gabinete na época.

Já Biden era conhecido por correr para pegar o trem para voltar para sua casa em Wilmington, Delaware, todas as noites.

A campanha de Biden emitiu um comunicado de Marianne Baker, assistente executiva de Biden de 1982 a 2000.

“Nunca testemunhei, ouvi falar ou recebi qualquer denúncia de conduta inapropriada, ponto final. Nem de Tara Reade nem de ninguém”, disse.

“Não tenho absolutamente nenhum conhecimento ou lembrança de Reade ter me relatado esses fatos, que teriam me deixado uma impressão impactante e dolorosa, como profissional mulher e como gerente.”

Reade disse que não se recorda do horário, data ou local exatos da agressão, mas disse que ela aconteceu em um lugar “semiprivado” do complexo de salas de trabalho do Senado.

Recordações divergentes

Reade disse que na época da alegada agressão ela era responsável pela coordenação dos estagiários no gabinete.

Dois ex-estagiários que trabalharam com ela disseram que nunca a ouviram descrever qualquer conduta inapropriada de Biden nem a viram interagir diretamente com ele de qualquer maneira, mas recordaram que ela parou repentinamente de supervisioná-los em abril, antes do término do estágio deles.

Outras pessoas que trabalharam no gabinete na época disseram que se recordam de Reade, mas não de qualquer comportamento inapropriado.

Amigos e ex-colegas de trabalho descrevem Reade como uma pessoa amigável, atenciosa, compassiva e confiável, mas possivelmente um pouco ingênua.

Mãe solteira, ela mudou seu nome para se proteger, depois de sair de um casamento abusivo no final dos anos 1990, e estudou direito em Seattle.

Depois de deixar o gabinete de Biden, ela acabou retornando à Costa Oeste dos EUA, onde trabalhou para um senador estadual; como defensora de vítimas de violência doméstica, dando depoimentos como testemunha perita em julgamentos, e para organizações de assistência a animais.

Durante a época em que trabalhou no gabinete de Biden, ele estava trabalhando para aprovar a Lei de Violência contra as Mulheres, que o ex-vice-presidente descreve como a conquista legislativa de maior orgulho.

Em 2017 Reade retuitou elogios a Biden e a seu trabalho no combate à agressão sexual. Nos últimos meses, seu feed tem incluído apoio a Bernie Sanders e críticas ao virtual candidato democrata à Presidência.

Reade disse que não revelou a alegação de agressão sexual no ano passado porque teve medo.

Depois de suas queixas iniciais terem sido divulgadas no ano passado por um jornal local da Califórnia, Reade disse que enfrentou uma onda de críticas e ameaças de morte, além de acusações de ser agente russa, devido a posts no Medium e tuítes, vários dos quais agora estão deletados, que ela escrevera elogiando o presidente Vladimir Putin.

Reade disse que não trabalha para a Rússia e não apoia Putin e que seus comentários foram tirados de contexto, extraídos de um romance que ela estava escrevendo na época.

Ela tentou obter assistência jurídica e de relações públicas do Fundo de Defesa Legal Time’s Up, iniciativa criada por mulheres célebres em Hollywood para combater o assédio sexual.

Sua tentativa de obter ajuda da organização foi noticiada inicialmente pelo Intercept.

Como já fez para milhares de pessoas que procuraram a organização, o Fundo de Defesa Legal Time’s Up, que não representa clientes, lhe deu uma lista de advogados especializados em casos desse tipo.

Reade disse que entrou em contato com todos os advogados da lista, mas que nenhum aceitou representá-la.

Dois advogados confirmaram ter falado com Reade, mas se negaram a falar oficialmente sobre ela ou a alegação.

Reade também entrou em contato com pelo menos uma das mulheres que foi a público no ano passado falar da propensão de Biden por contato físico com pessoas.

Lucy Flores, ex-deputada estadual do Nevada que acusou Biden de deixá-la desconfortável em 2014 ao beijar e tocá-la durante um evento de campanha, trocou alguns e-mails com Reade no ano passado, mas disse que a ex-assistente não compartilhou seu relato completo com ela.

“Biden não é apenas alguém que gosta de abraçar as pessoas”, disse Flores. “Está muito claro que Biden invadia o espaço das mulheres sem o consentimento delas, de um jeito que as deixava incomodadas. Se ele tem potencialmente a capacidade de ir além disso? Essa é a resposta que todos querem alcançar.”

Tradução de Clara Allain

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