Filhos de jornalista saudita perdoam assassinos do pai

Noiva de Jamal Khashoggi criticou declaração, que pode aliviar pena de condenados

Riad (Arábia Saudita) | Reuters

A família de Jamal Khashoggi anunciou nesta sexta-feira (22) que perdoou os assassinos do jornalista saudita.

O colunista do jornal americano Washington Post foi morto no consulado saudita em Istambul, na Turquia, em outubro de 2018. Segundo a CIA (agência de inteligência americana), o crime foi ordenado pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, na tentativa de calar o jornalista, crítico do regime.

“Se uma pessoa perdoa e se reconcilia com outra, a sua recompensa é dever de Alá”, disse um dos filhos do jornalista, Salah, pelo Twitter, citando um verso do Corão. “Portanto, nós, filhos do mártir Jamal Khashoggi, anunciamos o perdão àqueles que mataram nosso pai.”

Salah Khashoggi, filho do jornalista saudita assassinado Jamal Khashoggi - Amer Hilabi/ AFP

Na Arábia Saudita, onde não há um sistema legal codificado e se segue a lei islâmica, o perdão da família de uma vítima pode significar o alívio da pena. No caso dos cinco homens condenados à morte pelo assassinato de Khashoggi, a medida pode se transformar em um perdão formal e na suspensão da execução.

Khashoggi havia ido ao consulado saudita buscar documentos para o casamento com sua noiva, a turca Hatice Cengiz, mas nunca mais saiu de lá. Após a morte, o corpo do jornalista —que nunca foi encontrado— teria sido desmembrado com uma serra, de acordo com fontes ouvidas pela rede americana CNN e pela imprensa turca.

Ainda que a CIA e governos ocidentais tenham atribuído a responsabilidade do crime ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, autoridades do país negam a acusação, embora o próprio Bin Salman tenha indicado, em setembro do ano passado, algum envolvimento pessoal, dizendo que o crime “aconteceu sob sua autoridade”.

Onze suspeitos foram julgados na capital saudita, Riad, sob processos sigilosos. Três deles foram absolvidos, três foram encarcerados e outros cinco foram condenados à morte.

O promotor saudita que cuidou do caso havia dito que Saud al Qahtani, um antigo conselheiro da realeza saudita, discutira as atividades de Khashoggi com outros suspeitos antes do jornalista entrar no consulado. Qahtani, porém, acabou absolvido por falta de provas.

A corte responsável pelo caso também afirmou que o crime não havia sido premeditado, sentença que amparou as declarações sauditas, mas contrariou as conclusões de um inquérito liderado pela Organização das Nações Unidas sobre a morte do jornalista.

Agnes Callamard, relatora especial para sumários extrajudiciais e execuções arbitrárias da ONU, condenou o julgamento e acusou a Arábia Saudita de zombar da Justiça, permitindo que os mentores do assassinato fossem libertados.

Em dezembro, Salah Khashoggi disse que o veredito sobre a morte do pai ”foi justo e que a justiça foi alcançada”. Ele e seus três irmãos ainda vivem na Arábia Saudita, e, segundo o Washington Post, receberam indenizações milionárias do país depois do crime. A família nega a informação.

Callamard e a noiva de Khashoggi criticaram o potencial perdão. “Ninguém tem o direito de perdoar os assassinos. Nós não vamos perdoá-los nem perdoar os mandantes”, tuitou Hatice Cengiz.

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