Aliados de Navalni dizem que veneno usado contra opositor estava em garrafa de água no hotel

Detecção feita por laboratório alemão muda versão de que crítico de Putin teria sido envenenado com chá

Moscou | Reuters

A substância utilizada para envenenar o opositor russo Alexei Navalni foi detectada por um laboratório alemão em uma garrafa de água vazia que estava no quarto de hotel que ele ocupou em Tomsk antes de pegar o voo no qual passou mal em 20 de agosto.

Um vídeo publicado no Instagram de Navalni nesta quinta (17) mostra membros de sua equipe vasculhando o quarto uma hora depois de terem sido informados de que o opositor havia adoecido sob circunstâncias suspeitas.

"Decidiu-se reunir tudo o que poderia ser útil e entregar aos médicos na Alemanha. O fato de que o caso não seria investigado na Rússia era bastante óbvio", diz a publicação.

A detecção do Novitchok, substância criada pela União Soviética que age no sistema nervoso e provoca contração muscular involuntária, sugere que Navalni foi envenenado ainda no quarto de hotel, e não por meio de uma xícara de chá no aeroporto de Tomsk, como sua equipe cogitou desde o início.

O opositor russo Alexei Navalni, em 2019, no prédio da Fundação Anticorrupção em Moscou, na Rússia - Dimitar Dilkoff - 26.dez.19/AFP

O vídeo mostra a equipe do opositor russo usando luvas de proteção e colocando objetos do quarto em sacos plásticos azuis, entre os quais três garrafas de água. Segundo a publicação, um laboratório alemão encontrou vestígios de Novitchok em uma das garrafas.

A substância é da mesma família do veneno identificado pelo Reino Unido, dois anos atrás, no envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal —que havia desertado para a Inglaterra— e de sua filha, Iulia. Os dois sobreviveram, e os russos negaram por diversas vezes o envolvimento no ataque.

Nesta quinta, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) disse que atendeu a um pedido do governo da Alemanha e prestou assistência técnica na investigação do caso de Navalni.

O opositor russo foi transferido para Berlim menos de dois dias depois de passar mal, em resposta a pedidos de aliados e familiares que buscavam respostas de uma equipe médica independente e dissociada do Kremlin.

Na última terça (15), Navalni também usou as redes sociais para compartilhar a primeira foto de sua recuperação, a mais forte evidência da melhora em seu quadro clínico desde que ele saiu do coma.

"Olá, aqui é Navalni. Sinto saudades de todos vocês", escreveu ele a seus seguidores. "Ainda não consigo fazer quase nada, mas ontem [segunda-feira, 14] consegui respirar o dia todo sozinho."

​Navalni é o oponente político mais proeminente do presidente russo, Vladimir Putin, embora ele não tenha tido permissão para formar seu próprio partido. Suas investigações sobre a corrupção no governo, publicadas no YouTube e no Instagram, alcançaram milhões de visualizações em toda a Rússia.

Além da Alemanha, a França, o Reino Unido e outros países exigiram explicações do Kremlin sobre o caso de Navalni e houve pedidos de novas sanções contra Moscou. Embora a Rússia negue qualquer envolvimento no caso, o país tem um histórico que não pesa a seu favor.

O próprio Navalni já foi vítima anteriormente. Em 2018, durante um protesto, foi atingido com uma substância tóxica verde que o deixou parcialmente cego de um olho por um tempo.

O Kremlin sempre negou qualquer associação a ataques contra opositores. A lista, contudo, acumula episódios —com um mórbido destaque à modalidade envenenamento.

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