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Minha eleição: '2016 foi o ano de pensar no impensável, presidente Trump'

Coluna de Clóvis Rossi me fez manter pé atrás com analistas-coveiros que sepultaram chances de Trump

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Rio de Janeiro

"Bom, é hora de começar a pensar no que era impensável, risível até, faz poucos meses: Donald John Trump tem boas possibilidades de ser o 45º presidente dos Estados Unidos."

O gigante Clóvis Rossi, que nos deixou em 2019, arriscou a previsão oito meses antes que ela se concretizasse. Todas as grandes pesquisas sinalizavam que Barack Obama seria sucedido pela também democrata Hillary Clinton.

Trump começava a engolir outros republicanos que disputavam a indicação para disputar a Casa Branca. Rossi pressentia que, se a base republicana consagrasse o outsider nas primárias, o empresário "terá criado o chamado 'momentum' que o levará ao triunfo em novembro".

O então presidente eleito Donald Trump celebra vitória na eleição de 2016 no New York Hilton Midtown, em Nova York
O então presidente eleito Donald Trump celebra vitória na eleição de 2016 no New York Hilton Midtown, em Nova York - Saul Loeb - 9.nov.16/AFP

Uma semana depois, embarquei para uma temporada de nove meses em Nova York, de onde seguiria, como correspondente da Folha, a mais surpreendente eleição americana da história moderna.

Foi essa coluna de Rossi que me fez manter o pé atrás com os analistas-coveiros que por tantas vezes sepultaram as chances daquele que viam apenas como um bilionário boçal de bronzeado Fanta laranja.

Como acreditar que a maior potência da nossa era ficaria sob guarda do sujeito que fazia sucesso num reality show em que demitia pessoas, dizia que sairia com a própria filha Ivanka se não fosse seu pai e que deu partida em sua campanha acusando o México de enviar estupradores e traficantes aos EUA?

Por meses, prevaleceu entre jornalistas o escracho. A empreitada "quixotesca", na definição do site Politico, "não deve ser levada a sério", segundo o Washington Post, e seria noticiada na seção de entretenimento, decidiu o Huffington Post —conforme Trump escalava as pesquisas, o site voltou atrás: "Não estamos mais entretidos".

O nível de descrença chegou a tanto que um especialista em sondagens prometeu que comeria um inseto se Trump vencesse, tamanha sua confiança numa vitória democrata.

Assim o fez, na CNN: “Um grilo ao estilo gourmet” com mel e desculpas para temperar. “A eleição deste ano me lembrará de adicionar uma dose pesada de humildade no processo”, disse Sam Wang, da Universidade Princeton, em artigo no New York Times.

Para fins jornalísticos, trabalhei como voluntária por um dia nas campanhas de Hillary e Donald. O QG do republicano ficava no subsolo da Trump Tower, onde ele morava numa cobertura tríplex decorada em mármore, ouro e teto com pintura clássica, em design inspirado no rei francês Luís 14.

“A ideia é entender o eleitorado do homem que, contra todas as expectativas, começou com menos de 1% de chance nas prévias republicanas, derrotou 16 pré-candidatos e agora disputa a presidência com Hillary Clinton”, escrevi à época, sentada ao lado de um boneco do astro dos faroestes John Wayne.

O que ficou claro para mim, naquele dia, é que os EUA reviviam um novo Velho Oeste, só que agora o vilão eram as mudanças demográficas que ameaçavam "a maioria silenciosa" citada num dos cartazes na parede: os brancos escanteados pelas elites e por pautas identitárias.

E a mídia, vista como elitista por boa parte dos americanos, baseada em bolsões democratas que a impediam de enxergar a "América real", não dava sinais de que entendia o que estava por vir.

Até o dia da eleição, segurou-se na ideia de que Hillary seria a primeira inquilina mulher da Casa Branca. O New York Times chegou a formular uma primeira página com foto dela e a legenda: “Sra. Presidente”.

Voltei ao Brasil no Natal de 2016, semanas antes de Trump tomar posse, quando já era ruidoso o zumbido eleitoral para 2018. Como também cresciam as multidões que vibravam em atos de um deputado do baixo clero, então pré-candidato à Presidência.

Era hora de começar a pensar no que era impensável, risível até, faz poucos meses: Jair Messias Bolsonaro tinha boas possibilidades de ser o 38º presidente do Brasil.

Não que muita gente tenha me levado a sério na época.

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