Descrição de chapéu Retrospectiva da década

Ao mesmo tempo cheias e divididas, ruas guiaram rotina da década

Da Primavera Árabe ao Black Lives Matter, anos 10 foram marcados por protestos em todo o mundo

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Angela Alonso

Professora de sociologia da USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

Divididas entre verde e azul, ativistas pró e antiaborto cercam os legisladores argentinos. Esta rua cheia e dividida, com governantes espremidos, foi a rotina da década. Desde 2011, um dominó: Estados Unidos, Espanha, Itália, Grécia, Bulgária, Turquia, Chile, Brasil...

Sobrou manifestante, faltou unidade.

No perfil, manifestantes ecléticos: de jovens a provectos, os avulsos e as famílias, negros, brancos, indígenas, homens, mulheres, minorias sexuais. Teve trabalhadores e madames, caminhoneiros e empresários, ativistas profissionais e os de primeira viagem.

Rua plural também nas maneiras de protestar. O estilo socialista, reavivado nos "fóruns sociais mundiais" e atos por justiça global da década passada, seguiu marchando, com bandeiras vermelhas, em bloqueios (como os piqueteros argentinos), invasões, ocupações (como as do MTST).

A nova geração de ativistas de esquerda seguiu por aí ou adotou estilo rival, o autonomista, com seus emblemas anarquistas, estética contracultural, horizontalismo organizatório e tática black bloc, experimentados nos atos anticúpulas econômicas desde Seattle (1999) e, em doses variadas, no Occupy Wall Street (2011), no 15M (2011) e no Brasil de 2013.

Já o estilo patriota, com cores, heróis e símbolos nacionais dos movimentos por independência (vide Catalunha, 2019), foi apropriado, desde o Tea Party (2009), por manifestações no eixo liberal-conservador-autoritário, como signo de distinção antiesquerda.

Estes estilos, com variações e combinações, coloriram as ruas mundo afora, década adentro, cada manifestação agregando assinatura, de guarda-chuva a colete amarelo. Ao arrepio de profecias, a internet não pariu estilo novo. A tecnologia acelerou a coordenação da rua, como se viu na Tunísia (2011) e ainda se vê em Hong Kong, mas sem substituí-la. Ajuda a enchê-la, como a esvaziá-la —ante repressão.

A variedade se reapresentou nas causas. A explicação às pressas foi a da "crise de representação". Mas a crítica ao sistema político veio de demandantes de garantias de direitos políticos, o típico em democratizações ou desdemocratizações, caso de Primavera Árabe e Hong Kong.

Ou de quem batia à porta, querendo entrar: o Podemos foi reto do "Que se vayan todos!", na Porta do Sol, ao Palácio de Moncloa.

Três temas dominaram as ruas: redistribuição, moralidade e violência. O primeiro, costumeiro da esquerda, teve dois gumes. Um desencadeou, em 2011, movimentos por justiça global, na defesa de estilos de vida e atividades econômicas comunitárias de baixo impacto, anticonsumistas e inclusivas de comunidades tradicionais.

Este campo logo refluiu da proposição à resistência. A profusão de governos liberais e conservadores a reorientou para guarda-costas do adquirido: direitos sociais e econômicos.

Cartazes, da Argentina de 2016 à França de 2019, combateram políticas de austeridade monetária, flexibilização da legislação trabalhista, cassação de direitos sociais, perdas de emprego e nos salários. Este "abaixo o neoliberalismo" atiçou a rua em muitas partes.

O gume de contraponto foram atos de endosso a políticas liberais. O "libertarianismo" do Tea Party deu o modelo de defesa de propriedade, livre mercado e estado mínimo, reativas a "excesso" de governo, tributação e políticas sociais.

Adicionou-se reclamo contra a má gestão estatal, entendida como mix de ineficiência e corrupção dos políticos, que eivou dos protestos árabes e na Índia, em 2011, aos no Líbano, em 2020, passando por Coreia (2016-7), Rússia (2017-8), Romênia (2018), Haiti (2018), Montenegro (2019). Multidões migradas das ruas às urnas, em endosso aos desmontadores de estado —como Trump e Bolsonaro.

A moralidade teve a corrupção como uma face pública, mas protestos trataram também da privacidade. O campo de litígio foi a sexualidade. Com o "meu corpo, minhas regras", a mulherada reclamou contra violência sexual e por legalização do aborto, aqui, como em Argentina (2015–20), Peru (2016), Estados Unidos (2017-18-19), Índia (2019), México (2019-20), Polônia (2020).

Coro pró-direitos sexuais engrossado em eventos LGBTI+. A resposta veio em atos semireligiosos contra o casamento gay e marchas pela vida e pela família heterossexual, na Polônia, na França, nos Estados Unidos, na Argentina. Assunto quente porque toca o crucial, a demografia. Em países onde a natalidade decresceu, reduzindo os "nacionais", e aportaram (e se reproduzem) imigrantes, protestos ganharam contornos de conflito étnico.

Um puxadinho do ringue moral foi a secularização. Movimentos religiosos, criacionistas, negacionistas climáticos, terraplanistas e antivacina orientaram-se pela fé, em guerra contra a ciência, contrarrestados pelo rejuvenescimento de movimentos ambientalistas, em versões empresariais e veganas, das comunitárias às ultramidiáticas (vide Greta Thunberg).

A violência foi o traço transversal da rua na década, sua linguagem. Esteve em slogans aviltantes ou desumanizadores de adversários, nas agendas pró pena de morte, polícia exterminadora e porte de armas. Foi usada por e contra manifestantes, deixando rastro de presos, feridos e mortos.

Redistribuição, moralidade e violência se amalgamaram em manifestações pro e contra direitos indígenas e de afrodescendentes, em várias partes da América. As hierarquias étnicas, onde combatidas, revidaram. Houve o Black Lives Matter, assim como movimentos supremacistas.

Rua incandescente até sob pandemia. Quem protesta disputa com quem governa ou tem poder de agenda o rumo das sociedades, ou o sentido do lema "um outro mundo é possível".

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