Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Fase de radicalismo é passageira e surgiu como resposta ao PT, diz líder do movimento Vem pra Rua

Segundo Rogério Chequer, movimento que pediu impeachment de Dilma descarta ir às ruas agora contra Bolsonaro

São Paulo

A base bolsonarista é radical e a eleição de Jair Bolsonaro foi uma resposta da população aos anos de governo do PT, mas a fase atual é passageira, na visão do porta-voz do movimento Vem pra Rua (VPR), o empresário Rogério Chequer, 52.

"Esse extremo não vai durar para sempre", diz ele à Folha. O grupo, que faz críticas a Bolsonaro nas redes sociais, descarta apoiar no momento o impeachment do presidente e se recusa a ir às ruas durante a pandemia.

"Não acreditamos que este seja o melhor momento para discutirmos o impeachment", afirma.

Para o movimento, um dos indutores dos protestos pela derrubada de Dilma Rousseff (PT), ainda não há clareza sobre crime para embasar o afastamento do atual mandatário.

O empresário, que foi candidato a governador de São Paulo pelo partido Novo (ficou em 6º lugar, com 673.102 votos), foi eleitor do presidente e não se arrepende. O movimento pregou voto contra o PT.

Entre as prioridades do VPR hoje estão uma campanha pela prisão imediata após condenação em segunda instância e outra pelo fim do foro especial. O grupo encampa ainda a defesa do ex-ministro Sergio Moro e da Lava Jato.

Chequer relativiza o peso de atos de rua e afirma que mobilizações políticas ganham cada vez mais corpo no ambiente virtual —a organização tem 2,3 milhões de seguidores no Facebook.

Rogério Chequer na sua casa, em SP
Rogério Chequer na sua casa, em SP - Mathilde Missioneiro/Folhapress

O VPR faz alguma autocrítica sobre ter ajudado de alguma forma na criação do fenômeno que levou Bolsonaro à Presidência? Nós enxergamos a mobilização em torno de Bolsonaro como uma consequência de um antagonismo ao que nós tínhamos [no governo]. E isso não foi causado única e exclusivamente pelo VPR.

Começa sendo causado pelo próprio regime anterior, do PT. Os sentimentos de medo e repulsa que a população criou a tornaram muito propensa a abraçar uma conduta do outro extremo. Por falta de sucesso nas outras alternativas eleitorais, tudo ficou concentrado em Bolsonaro.

Então não há arrependimento? O movimento não se arrepende da atuação contra o regime anterior e enxerga que o que aconteceu depois disso foi um fenômeno de pêndulo. Jamais defendemos vários aspectos defendidos por Bolsonaro e não defendemos o Bolsonaro como pessoa na eleição.

Fizemos parte de um movimento de derrubada do regime anterior. O fato de a gente ter caminhado para isso [Bolsonaro] não é de responsabilidade do movimento.

Existe uma sobreposição entre parte dos apoiadores do Vem pra Rua e eleitores de Bolsonaro. Como isso é administrado, uma vez que o VPR faz críticas a Bolsonaro? Sempre buscamos ter opiniões variadas internamente. O movimento está cada vez mais uniforme na leitura do que está acontecendo no Brasil. Existe uma linha mestra que está muito preocupada com a condução atual [do governo].

Nós nos guiamos pelo combate à corrupção, desenvolvimento da democracia, defesa das instituições, defesa de representatividade. Quando vê alguma dessas pautas ameaçada, o movimento se posiciona.

O VPR cogitou se somar aos movimentos que têm surgido para defender a democracia e se contrapor a Bolsonaro? Estamos muito focados nas nossas pautas. Algumas das pautas desses movimentos são coincidentes com as nossas, outras não. Então não faz sentido se fundir completamente com eles.

Como vê a onda de reapropriação do amarelo, cor que foi usada pelo VPR, endossada por bolsonaristas e hoje é reivindicada por iniciativas em favor da democracia? Nós não podemos nos colocar como donos de uma das cores da bandeira brasileira. E eu acredito que esse movimento [bolsonarista] é passageiro. Esse extremo não vai durar para sempre.

Qual é a opinião do VPR sobre o impeachment de Bolsonaro? Consideramos hoje que esse tema não é apropriado diante de um cenário de pandemia. Estamos com prioridades do ponto de vista de saúde, já estamos com crises políticas. Não acreditamos que este seja o melhor momento para discutirmos o impeachment.

O movimento não pode ser acusado de ter dois pesos e duas medidas, já que teve uma atuação intensa pela saída de Dilma? Agora, o objetivo é dar prioridade à nação. Não tínhamos pandemia em 2015, com Dilma. O movimento se posicionou a favor do afastamento dela a partir do momento em que ficou configurado o crime de responsabilidade, com a auditoria no TCU [Tribunal de Contas da União].

O Vem pra Rua não vai se furtar de defender as medidas legais, inclusive impeachment, no momento em que essa configuração ficar caracterizada. Lembrando que o impeachment é um processo jurídico e político.

Para o movimento, há elementos suficientes para um processo contra ele? Não somos especialistas na parte jurídica. Mas alguns juristas já apontam a existência de crimes de responsabilidade.

O que poderia ser a gota d'água para o movimento passar a defender o impeachment? Acho que é uma união de fatores. Em primeiro lugar, precisaremos enxergar que a pandemia estará bem encaminhada. Apoiar algo hoje que vá causar uma maior crise política, que possa aumentar o número de mortes, é irresponsável.

O número de seguidores do VPR no Facebook se mantém em torno de 2 milhões. Que base é essa? Vem acontecendo um movimento de substituição. Das pessoas que defenderam a queda do PT e o impeachment de Dilma, uma parte se tornou bolsonarista radical. São pessoas que não estão mais [no VPR]. E acho ótimo que não estejam, porque as pautas e o estilo deles não condizem com o Vem pra Rua.

Uma outra parte votou no Bolsonaro, principalmente contra o PT, mas em algum momento acordou para o que está sendo o estilo Bolsonaro de governar e continua conosco. E há pessoas que, independentemente do voto, percebem as pautas do movimento como saudáveis para a democracia e têm se juntado a nós.

O Vem pra Rua planeja voltar às ruas? Alguma previsão de data? Hoje, mais do que nunca, a reunião de pessoas é via redes. Não estamos pensando em datas, não queremos criar qualquer tipo de aglomeração. Isso não significa que a gente não possa considerar manifestações virtuais.

O VPR tem alinhamento integral à Lava Jato, especialmente à força-tarefa de Curitiba. Os questionamentos à operação nos últimos tempos provocaram alguma reavaliação? Nossa visão não mudou. O que a gente observa é uma movimentação de um establishment político ameaçado pela operação, da mesma forma que aconteceu na Itália [com a Mãos Limpas].

Com o recente embate entre a força-tarefa de Curitiba e o procurador-geral da República, Augusto Aras, o VPR vê algum risco? Preocupa-nos a autonomia de qualquer membro do Ministério Público [ser ameaçada]. E o que enxergamos hoje na PGR é um grande ponto de interrogação, de saber se Augusto Aras vai agir direcionado pelos fatos ou pela nomeação pessoal de Bolsonaro e a possibilidade de se tornar um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Pode haver digitais de Bolsonaro na iniciativa de Aras? O simples fato de Bolsonaro ter anunciado Aras como candidato a ministro do STF já é uma digital maior do que a moral deveria permitir nesse processo.

O sr. declarou voto em Bolsonaro no segundo turno. Arrependeu-se? Não me arrependo do meu voto porque do outro lado estava um regime que eu lutei muito para combater e derrubar. O fato de ter votado contra o PT no segundo turno de forma alguma me coloca numa condição de ter que aprovar atos, estilo, conduta e eficiência do governo Bolsonaro. Sou um forte crítico à forma como ele tem feito as coisas.

A luta contra o establishment, uma promessa lá de trás, é derrubada pelo acordo com o centrão. A luta contra a corrupção é derrubada pela interferência no Ministério da Justiça, na Polícia Federal. Então, falando pessoalmente, considero que Bolsonaro já tem configurado um estelionato eleitoral.

O fato de ser filiado ao Novo cria algum conflito de interesses com o movimento? Dado que eu não tenho atuação partidária, não tem nenhum tipo de conflito. Sou um cidadão filiado a um partido político, como tantos milhões. Não considero que seja um defeito ou que me impeça de exercer a cidadania por meio do movimento.

RAIO-X

Rogério Chequer, 52

Empresário e engenheiro de produção, é sócio e CEO da Soap, empresa de capacitação de executivos. Em 2014, foi um dos fundadores do movimento Vem pra Rua (VPR), com bandeiras como combate à corrupção e renovação política. Participou de atos de rua pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Foi candidato a governador de São Paulo em 2018 pelo Novo, partido ao qual continua filiado. É membro do conselho consultivo e porta-voz do VPR.

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