Descrição de chapéu The New York Times refugiados

Obrigadas a sair de casa, muitas vezes sozinhas, crianças são mais afetadas pelo conflito no Tigré

Mais de 51 mil etíopes fugiram de seu país devido à ofensiva militar na região turbulenta

Abdi Latif Dahir
Um Rakuba (Sudão) | The New York Times

O campo de refugiados de Um Rakuba está ficando cheio outra vez. Há crianças por toda parte, e o calor é sufocante sob o sol da tarde no leste do Sudão.

Dois meninos espiavam por trás de uma tenda branca marcada com a insígnia azul da agência de refugiados da ONU. Uma menina chorava, tentando atrair a atenção de sua mãe, e um adolescente vendia bolinhos envoltos em plástico, enquanto um grupo de meninos e meninas saídos de uma sala de aula improvisada corriam atrás uns dos outros.

“É melhor viver aqui, porque há guerra no nosso povoado”, disse Ashenafi Mulugeta, 8, falando numa tarde recente com a ajuda de intérprete. “Estou feliz por estar aqui.”

Mais de 51 mil etíopes fugiram de seu país devido à ofensiva militar na região turbulenta do Tigré, e mais de 19 mil dos que saíram estão aqui em Um Rakuba.

Quase um terço dos refugiados etíopes são crianças, das quais pelo menos 361 chegaram desacompanhadas, segundo a agência de refugiados da ONU. É um indício preocupante da natureza repentina da violência que as levou a fugir.

Muitos tigrés acusam o governo de travar uma campanha de limpeza étnica contra eles, apesar de o primeiro-ministro Abiy Ahmed prometer unir o país sob a bandeira de um governo democrático liberal. Com a violência continuando, cerca de 2,3 milhões de crianças na região do Tigré não têm acesso a assistência humanitária, segundo o Unicef, a agência das Nações Unidas de defesa das crianças.

Muitas das crianças desacompanhadas disseram que foram separadas de suas famílias quando fugiram de casa no meio da noite, caminhando por horas e dias, sem nada exceto a roupa do corpo, para chegar a um lugar seguro.

Com acesso limitado a alimentação, abrigo e assistência, as organizações humanitárias dizem que muitas das crianças correm o risco de sofrer abusos e exploração. Conversei com as crianças na presença de funcionários de entidades humanitárias, professores ou outros adultos.

“É uma situação de partir o coração”, comentou Filippo Grandi, o alto comissário das Nações Unidas para refugiados, entrevistado na capital do Sudão, Cartum. “Considerando que é uma emergência que envolve número relativamente pequeno de pessoas, praticamente nunca antes vi uma proporção tão grande de pessoas separadas de suas famílias. Muitas crianças separadas.”

No campo de Um Rakuba, uma depressão árida de terra ensanduichada entre algumas colinas, um senso de permanência já começa a se instalar. Ao mesmo tempo em que sonham em voltar para casa algum dia, muitos refugiados dizem que estão determinados a criar um futuro aqui, mesmo que seja precário e incerto.

Durante uma visita recente ao campo, um homem fazia buracos no chão nos quais seriam colocadas vigas de madeira para sustentar o telhado de colmo do novo abrigo de sua família. Uma mulher abanava uma fogueira, com gestos fracos, para assar o pão chato e esponjoso “injera”, ingrediente fundamental da comida etíope. E o aroma de café vinha de um galpão ao lado, enquanto um grupo de homens limpava um pedaço de terra para construir casas temporárias.

Esse clima frágil de continuidade é visto mais de um mês depois de Abiy iniciar uma ofensiva contra a região do Tigré, no norte da Etiópia, após acusar seus líderes de orquestrarem um ataque contra um posto de defesa do governo e tomarem equipamentos militares. Desde então, o conflito já matou inúmeros civis e desencadeou uma crise humanitária e geopolítica que ameaça desestabilizar não apenas a Etiópia, mas toda a região do chifre da África.

As ondas de refugiados que têm chegado ao Sudão contam que abandonaram suas casas e colheitas de uma hora para outra e que a caminho do Sudão se depararam com milícias violentas e cadáveres.

As autoridades etíopes dizem que a eletricidade e as comunicações já voltaram a funcionar, e Abiy declarou a ofensiva contra o Tigré encerrada, mas ainda se ouvem notícias de combates em diversos lugares. Muitos dos tigrés em Um Rakuba dizem que a incerteza e o trauma provocado pelo que viram e sofreram os impedirão de voltar no futuro próximo.

As crianças que fugiram para o Sudão estão profundamente marcadas.

“Sinto saudades de casa”, disse Daniel Yemane, 12, que chegou sozinho, fazendo a travessia na região de Hamdayet depois de ser separado de seus pais. Ele sonha rever suas duas irmãs menores, brincar e assistir a partidas de futebol com seus amigos e voltar à escola, onde as aulas já tinham sido interrompidas pela pandemia de coronavíruso.

Daniel contou que viu cadáveres a caminho da fronteira. “Vi com meus próprios olhos”, disse, apontando para seus olhos. “Se as coisas continuarem como estão, nunca vou voltar.”

A mudança em sua situação de vida está obrigando muitas crianças refugiadas em Um Rakuba a amadurecer antes da hora.

Ataklti Aregawi, 17, registrado como menor desacompanhado, percorre o campo de refugiados diariamente vendendo bolinhos embrulhados em plástico que leva em uma caixa de papelão pendurada no pescoço. Com o pequeno lucro que obtém ele consegue comprar café, chá ou até os bolinhos fritos e polvilhados de açúcar que muitos gostam de comer no fim da tarde.

Ataklti vivia na cidade de Mai Kadra, no Tigré, onde centenas de pessoas teriam sido mortas em um massacre no início de novembro. Quando a guerra começou, ele foi para Adebay e depois para a cidade agrícola de Humera, de onde partiu em direção à fronteira sudanesa.

“Nunca na vida vimos ações perversas como essas”, disse, falando da guerra. “Abiy não gosta de nós. Não quer que vivamos no Tigré.”

Quando fala do que sofreu, Ataklti assume ar de adulto. Ele endireita os ombros e engrossa voz.

“Não tive medo”, disse, sobre o trajeto árduo até o Sudão. Arrumando os bolinhos embalados em sua caixa, insiste: “Não tive mesmo”. E disse que estava 100% preparado para se defender contra qualquer perigo. “Cem por cento.”

Mas conta que chorou quando encontrou amigos de sua cidade no campo de refugiados.

Num fim de tarde recente Ataklti continuava a vender seus bolinhos no acampamento. A poeira havia baixado, e muitos refugiados colocaram esteiras no chão e se sentaram para conversar.

Ataklti disse que havia tido um bom dia e estava prestes a vender os últimos bolinhos do dia. Disse que mais que qualquer outra coisa, sente saudades das ruas do lugar onde cresceu, na Etiópia.

“Eu queria tanto poder voltar”, comentou, olhando para o chão. “Sinto saudades de casa.”

Tradução de Clara Allain

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