Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Pastor da igreja de Martin Luther King, Warnock será 1º senador negro da história da Geórgia

Vitória do democrata deixa partido de Biden mais perto de garantir controle do Senado

BAURU (SP)

Após um ano em que as relações raciais nos Estados Unidos estiveram constantemente sob os holofotes, o estado da Geórgia elegeu seu primeiro senador negro.

Com 98% dos votos apurados até a manhã desta quarta-feira (6), Raphael Warnock derrotou a republicana Kelly Loeffler e se tornou o primeiro senador democrata negro eleito por um estado do Sul dos EUA, região em que as políticas segregacionistas foram historicamente mais duras.

Desde 2005, o reverendo Warnock, 51, como também é conhecido o agora congressista eleito, é pastor da Igreja Batista Ebenézer, em Atlanta, mesma congregação em que pregava no passado Martin Luther King Jr. (1929-1968), um dos principais líderes da luta dos negros americanos por direitos civis.

A vitória na Geórgia tem ainda o peso simbólico de o estado ter sido não apenas o lar de Luther King mas também o de outro ativista símbolo da busca por equidade racial, o deputado democrata John Lewis (1940-2020), que morreu em julho, aos 80 anos, em decorrência de um câncer no pâncreas.

O reverendo Raphael Warnock, eleito senador pela Geórgia, durante evento de campanha em Atlanta - Jim Watson - 15.dez.20/AFP

Filho de um veterano da Segunda Guerra Mundial e de uma trabalhadora das colheitas de algodão e tabaco nos campos da Geórgia, Warnock cresceu com outros 11 irmãos em Savannah, cidade próxima da divisa do estado com a Carolina do Sul.

Durante a campanha, ele falou em diversas ocasiões sobre suas experiências de vida como um homem negro nascido e criado no Sul dos EUA. Ao lado da vice-presidente eleita, Kamala Harris —também ela uma pioneira ao ser a primeira mulher e a primeira pessoa negra a ocupar o cargo— o reverendo falou sobre as vezes em que foi detido por policiais no Capitólio, sede do Legislativo, durante protestos e atos políticos.

“Eu não fiquei bravo com eles. Eles estavam fazendo o trabalho deles e eu estava fazendo o meu”, disse Warnock. “Mas, daqui a alguns dias, vou encontrar aqueles policiais do Capitólio novamente e, desta vez, eles não vão me levar para ser fichado. Eles poderão me ajudar a encontrar meu novo gabinete.”

Ecoando o discurso de Biden, no qual ele fez promessas de um governo unificador e para todos, Warnock disse o mesmo ao ser projetado pela imprensa americana como o vencedor de uma das vagas ao Senado.

“Eu irei para o Senado para trabalhar pela Geórgia inteira, não importa em quem você votou nesta eleição”, disse ele em uma transmissão ao vivo nas redes sociais. “Hoje nós provamos que, com esperança, com trabalho e com o povo ao nosso lado, tudo é possível.”

O discurso seguiu o mesmo tom apresentado durante a campanha que, por sua vez, não impediu Warnock de ser alvo de uma série de ataques de republicanos, incluindo o próprio presidente dos EUA.

"Warnock é o candidato de esquerda mais radical e perigoso a buscar esse cargo, e certamente não tem os valores da Geórgia", disse Donald Trump durante um comício em Dalton, na última segunda-feira (4), sem especificar a que valores se referia.

Loeffler, adversária de Warnock e candidata à reeleição no estado, usou trechos de sermões do reverendo na Igreja Batista Ebenézer para apresentar declarações fora de contexto que poderiam prejudicar a visão dos eleitores sobre ele em temas como o papel dos militares e a relação dos EUA com Israel.

Uma das principais bandeiras defendidas por Warnock em sua campanha foi a defesa do Affordable Care Act, lei que instituiu, em 2010, o programa que ficou conhecido como Obamacare, responsável por ampliar a cobertura de saúde para pessoas que nunca tiveram seguro num país em que não existe uma política nacional de saúde gratuita.

O senador eleito também defende políticas públicas nas áreas de segurança pública (financiamento responsável dos departamentos de polícia e o fim do uso de prisões privatizadas), meio ambiente (investimento em energia limpa e profissionalização de pessoas marginalizadas para lidar com os "empregos verdes"), educação (desburocratização dos financiamentos estudantis) e imigração (proposta de lei contra crimes de ódio para combater a discriminação contra comunidades de imigrantes).

À comunidade LGBT Warnock prometeu proteção contra discriminação no acesso a empregos, financiamentos e moradia, além de pressão contra normas federais como a que proíbe pessoas trans de ingressar nas Forças Armadas.

Sem mencionar a palavra "aborto" nas propostas de direito reprodutivo, seu site diz que Warnock "acredita no direito de escolha da mulher e que esta é uma decisão entre ela e seu médico, não do governo".

A vitória do pastor negro deixa o Partido Democrata mais próximo de conquistar a maioria no Senado americano. Ainda há outra vaga em disputa, mas o o democrata Jon Ossoff aparece com 50,19%, pouco à frente do republicano David Perdue, com 49,81%.

A maioria dos votos que ainda falta ser contada vem de regiões democratas do estado, de modo que se espera que as vantagens de Warnock e Ossoff cresçam na reta final da apuração.

Caso as vitórias dos dois democratas na Geórgia se confirmem, Biden terá maioria nas duas Casas do Legislativo, o que facilitará a vida do novo governo nos dois primeiros anos da gestão.

Os democratas mantiveram o controle da Câmara nas eleições de novembro e contam com a vitória dupla no estado para tomar o controle do Senado. Se Perdue superar Ossof, porém, a sigla vai controlar a Casa —o que significa que Biden será obrigado a negociar com a oposição para aprovar seus projetos.

A Casa tem 100 senadores (dois por estado), sendo que atualmente 50 são republicanos e, 48, democratas (incluindo dois independentes que votam com o partido). Em caso de empate, o voto de minerva é do vice-presidente (que também é o presidente do Senado) —ou seja, a partir do dia 20, a democrata Kamala.

Biden foi o primeiro candidato democrata a vencer na Geórgia desde 1992. Ele derrotou Trump ao receber 2.473.633 votos, equivalentes a 49,5% do total. O republicano ficou com 2.461.854 (49,3%), marcando uma diferença de exatos 11.779 votos.

Uma das principais razões para a virada democrata no Estado foi o trabalho para estimular eleitores a votar, coordenado por lideranças como Stacey Abrams, que foi representante estadual (equivalente a deputado estadual no Brasil) por dez anos e candidata derrotada ao governo da Geórgia, em 2018.

Abrams tomou como prioridade a militância contra a supressão de voto —as variadas formas pelas quais o próprio sistema eleitoral impede as pessoas de votar, como dificuldades no acesso a locais de votação ou no registro de eleitores, aspectos que afetam com mais força populações não brancas e pobres.

Abrams fundou, após sua derrota eleitoral, uma organização voltada a essa causa, a Fair Fight Action (ação pela luta justa), que também estimula a participação política das comunidades negras no estado.

Nas últimas semanas, Trump fez publicações sobre o pleito na Geórgia para denunciar supostas fraudes em massa que, segundo ele, roubaram sua vitória neste estado tradicionalmente republicano —ele não apresentou provas que sustentassem as acusações.

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