Descrição de chapéu Governo Trump

Trump reemerge após silêncio para tentar mostrar que ainda domina base republicana

Ex-presidente volta aos palcos no encerramento do maior evento da direita americana, neste domingo

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Washington

Após cinco semanas submerso em uma rotina que revezou algumas partidas de golfe com incontáveis horas em frente à TV, Donald Trump decidiu retomar suas atividades políticas, em um roteiro pavimentado por vingança e teorias conspiratórias. Antes de tomar a decisão sobre ser candidato em 2024, o ex-presidente precisa mostrar que seguirá no comando do Partido Republicano e da extrema direita dos EUA.

O palco de reestreia será a Cpac, sigla em inglês para Conferência de Ação Política Conservadora, onde Trump fará neste domingo (28) o discurso de encerramento do maior evento anual da direita americana.

Então presidente dos EUA, Donald Trump participa de comício para campanha de sua reeleição na cidade de Butler, na Pensilvânia
Então presidente dos EUA, Donald Trump participa de comício para campanha de sua reeleição na cidade de Butler, na Pensilvânia - Carlos Barria - 31.out.20/Reuters

Faz uma década que o republicano falou pela primeira vez na Cpac e, agora, em seu primeiro discurso público desde 6 de janeiro, quando seus apoiadores promoveram uma violenta invasão ao Capitólio, pretende usar o espaço para renovar sua narrativa falsa de fraude eleitoral e ataques a quem considera inimigo.

O líder mais controverso da história dos EUA quer demonstrar força diante da plateia cativa, cristalizando a ideia de que, mesmo banido do Twitter e fora do Salão Oval, ainda controla grande parte da base republicana.

A estratégia do ex-presidente é observar —e impulsionar— o desempenho de aliados nas eleições legislativas e para governos estaduais no ano que vem, como forma de medir o poder do trumpismo e fazer um cálculo mais certeiro sobre sua própria candidatura à Casa Branca.

Mas, antes disso, pretende fomentar seus eleitores e dar argumentos para que eles sigam pregando suas ideologias radicalizadas e teses mentirosas sobre a vitória de Joe Biden.

Diante da plateia na Cpac, Trump deve vestir seu habitual figurino agressivo e recorrer à temática que o levou ao poder em 2016, colocando-se como o líder que vai lutar contra o establishment político em Washington.

A ofensiva, dizem aliados, é para atingir a oposição tanto fora como dentro do Partido Republicano.

O ex-presidente trata como traidores deputados e senadores republicanos que votaram a favor de seu impeachment neste ano no Congresso —muitos deles já foram punidos com retaliações da sigla nos estados, mas Trump seguirá medindo forças, como é de seu feitio.

Em janeiro, a Câmara aprovou o segundo impeachment de Trump, quando dez republicanos votaram contra o ex-presidente. Já em fevereiro, ele foi absolvido pelo Senado da acusação de incitar a violenta invasão ao Congresso, mas sete correligionários pediram sua condenação.

Trump entrou em embate público com o líder do partido no Senado, Mitch McConnell, que votou por sua absolvição e, depois do veredito, justificou sua posição dizendo que o ex-presidente era responsável por provocar a invasão do Capitólio, mas não via respaldo constitucional para seu impedimento fora do cargo.

Apesar de absolvido, Trump promete vingança. A partir desta semana, inicia uma série de reuniões para traçar seus próximos movimentos políticos e fazer uma seleção dos candidatos alinhados à sua ideologia e que estão dispostos a atacar os que o querem mais distante da sigla.

Segundo o site Politico, na semana passada, o ex-presidente já recebeu seu ex-chefe de campanha Brad Parscale para discutir propostas de financiamento online e como usar as redes sociais apesar de seu banimento do Facebook e do Twitter —até então seu principal canal de diálogo com eleitores.

Além disso, teve conversas com seu filho mais velho, Donald Jr., considerado um de seus herdeiros políticos, e com o líder da minoria na Câmara, deputado Steve Scalise.

A partir de agora, a ideia é criar um calendário formal para que os candidatos que queiram o apoio de Trump sejam recebidos pelo ex-presidente e sacramentem seu comprometimento com o trumpismo. Ele já expressou suporte a dois de seus mais leais aliados, a presidente do Partido Republicano no Arizona, Kelli Ward, que deve concorrer ao governo do estado, e a ex-secretária de imprensa da Casa Branca Sarah Sanders, que já anunciou que vai disputar o governo no Arkansas em 2022.

Esses e outros nomes receberão dinheiro de uma espécie de fundo de campanha de Trump, que conta com milhões de dólares em caixa e um banco com dados de milhões de americanos —Trump teve 74 milhões de votos na eleição do ano passado, mais de 10 milhões a mais do que teve na disputa de 2016.

Muitos desses eleitores estarão na plateia do encerramento da Cpac. Trump deve argumentar que muitas de suas previsões sobre o governo Biden já se tornaram realidade e se ancorar na tese de que quem o ataca está atacando a base republicana, alimentando o sentimento de ódio de seus apoiadores.

Mesmo que ainda não tenha decidido se vai ou não concorrer em 2024, Trump quer se manter como a principal referência republicana e evitar que outro nome da sigla ganhe tração política nos próximos anos.

Criada em 1973, a Cpac era um guarda-chuva mais amplo para a direita dos EUA, mas se radicalizou ao trumpismo, assim como o Partido Republicano. Por mais que existam republicanos de perfil moderado, cansados da agressividade e das mentiras de Trump, pesquisas mostram que grande parte dos eleitores da sigla ainda se escora na imagem e no discurso do ex-presidente —e a maioria dos parlamentares não quer arriscar perder essa fatia às vésperas das eleições legislativas do ano que vem.

Os republicanos têm controle do Executivo e Legislativo em 24 dos 50 estados americanos, e alguns analistas já preveem que a legenda pode retomar a maioria da Câmara em 2022 —hoje nas mãos dos democratas por uma margem pequena, 221 a 211 deputados.

Trump sabe que não precisa do establishment partidário para se lançar candidato em 2024 —ele venceu as primárias em 2016 contra a vontade dos líderes republicanos—, mas precisa dar capilaridade ao trumpismo e manter a base sob sua influência até lá.

O imprevisível Trump pode, inclusive, não concorrer de novo à Casa Branca, mas manter viva a possibilidade —ou ameaça— de sua candidatura é garantia de que, pelo menos por enquanto, ele estará onde mais gosta: no centro das atenções.

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