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Diplomacia Brasileira Itamaraty

Anti-Ernesto, novo chanceler terá de conciliar moderação com olavismo

Discurso pragmático de França foi muito bem recebido, mas, para sair do papel, precisa ser endossado por Bolsonaro, Eduardo e Filipe Martins

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São Paulo

Nunca um discurso anódino foi tão festejado no Itamaraty. Fosse em outros tempos, as palavras ponderadas do novo chanceler, Carlos Alberto França, seriam encaradas como obviedades diplomáticas.

Neste momento, enquanto diplomatas se recuperam de uma espécie de estresse pós-traumático depois de mais de dois anos de rompantes ideológicos, a fala de França no Planalto foi um bálsamo.

Muitos ainda têm fresco na memória o discurso de posse de seu antecessor, Ernesto Araújo.

O novo chanceler, Carlos França, durante cerimônia de transmissão de cargo no Palácio do Planalto
O novo chanceler, Carlos França, durante cerimônia de transmissão de cargo no Palácio do Planalto - Divulgação Presidência da República

Quando assumiu, em 2 de janeiro de 2019, o ex-chanceler falou durante 32 minutos diante de uma plateia estupefata. Entoou Ave Maria em tupi guarani, fez menções a Renato Russo, Marcel Proust e Tarcísio Meira, críticas ao New York Times, vitupérios contra a “piscina sem água” do globalismo, às ONGs e ao socialismo e elogios a Olavo de Carvalho, “o grande responsável pela imensa transformação que o Brasil está vivendo”.

“O presidente Bolsonaro está libertando o Brasil por meio da verdade. Nós vamos também libertar a política externa brasileira, vamos libertar o Itamaraty, como o presidente Bolsonaro prometeu que faríamos, em seu discurso de vitória”, pontificou Ernesto.

O processo de “libertação” do Brasil e do Itamaraty levou o país a se indispor com as três principais potências globais —China, Estados Unidos (sob Biden) e União Europeia.

E o Brasil liberto, na realidade, transformou-se em pária —algo que chegou a ser festejado por Ernesto em outubro do ano passado. "Esse pária aqui, esse Brasil, essa política do povo brasileiro, tem conseguido resultados. Talvez seja melhor ser esse pária deixado ao relento, deixado de fora, do que ser um conviva no banquete no cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos.”

Nesse contexto, nada como um diplomata sem grandes arroubos retóricos e com objetivos menos etéreos. Em sua curta fala no Planalto, não houve nenhuma menção a globalismo, comunismo, comunavírus ou narcoditaduras, alvos frequentes do antecessor.

Em vez disso, o novo chanceler se apresentou como um anti-Ernesto, apostando em diplomacia de resultados. Falou em mudanças climáticas, algo impensável para o ex-chanceler, que era cético em relação ao aquecimento global. Ernesto chegou a dizer que foi a Roma em maio, em meio a uma onda de frio —o que demonstraria que as teorias sobre mudanças climáticas estão erradas. A política ambiental bolsonarista é um dos principais obstáculos para a conclusão do acordo UE-Mercosul.

França enfatizou a necessidade de mobilização diplomática para obtenção de vacinas e medicamentos contra a Covid-19. Outro contraste: Ernesto implicava com a Organização Mundial do Comércio, tida como entidade “globalista”, e negligenciou a diplomacia da vacina.

Em novembro do ano passado, convocou uma reunião extraordinária com o chanceler indiano, para discutir a nova geopolítica após a pandemia, e não tocou no assunto dos imunizantes. Ernesto não falou nada sobre a vacina de Oxford/AstraZeneca fabricada pelo Instituto Serum na Índia nem sobre a vacina fabricada pela Bharat Biotech no país. Ele se limitou a dizer a seu contraparte, Subrahmanyam Jaishankar, que o assunto dos imunizantes estava muito politizado e criticou “um governador” (o de São Paulo, João Doria) por estar comprando a “vacina dos chineses” e querer obrigar todos a se vacinarem.

Escaldado, França apontou que terá mais tato no relacionamento com o Congresso. Após ser moído em audiência no Senado, Ernesto acusou a senadora Katia Abreu de fazer lobby em favor dos chineses no 5G. Acabou defenestrado e se tornou bode expiatório da falta de imunização no país.

Já França se prontificou a ir até o estado do Tocantins para encontrar a senadora, em gesto de deferência.

Na segunda-feira (5), no programa Roda Viva, a senadora havia afirmado que o novo chanceler não tem espaço para errar. O grande desafio dele é tirar do papel esse resgate da normalidade da política externa, sem melindrar o chefe. Primeiro, França precisa deixar Bolsonaro seguro de que, sim, quem manda é ele na política externa. Outros ministros já perderam a cabeça ao demonstrar ter ideias próprias.

Por isso, o chanceler fez várias mesuras a Bolsonaro em seu discurso, ressaltando sua subordinação ao presidente. “Como ensina o presidente Bolsonaro, o brasileiro quer vacina e quer emprego” e “o presidente Bolsonaro instruiu-me a enfrentá-las [as urgências]” foram algumas das frases usadas por ele.

O deputado Eduardo Bolsonaro e o assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, continuarão como “gabinete sombra” no Itamaraty. Os dois olavistas nutrem desconfiança profunda em relação à China e ao globalismo e pregam o alinhamento a uma certa aliança de países cristãos ocidentais, entre eles Hungria e Polônia, e com Israel.

Os dois são o "posto Ipiranga" de Bolsonaro quando o assunto é relações internacionais. Vai ser difícil França conciliar a nova moderação na política externa com a doutrina olavista abraçada pelo presidente.

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