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Sanções de Biden soam contraditórias, mas deixam porta aberta a Putin

Medidas são duras, mas dão margem de manobra ao russo enquanto ambos negociam crise na Ucrânia

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São Paulo

Joe Biden ataca novamente com o estilo morde e assopra de sua política externa direcionada à Rússia de Vladimir Putin.

À primeira vista, apresentar o mais robusto pacote de sanções contra o Kremlin desde 2018 dois dias depois de convidar o presidente russo para conversar sobre a delicada crise na Ucrânia soa contraditório.

Putin participa de concerto em celebração ao sétimo aniversário da anexação da Crimeia, em Moscou
Putin participa de concerto em celebração ao sétimo aniversário da anexação da Crimeia, em Moscou - Alexei Drujinin - 19.mar.21/Sputnik/AFP

Mas uma análise mais detida das medidas mostra que elas sinalizam ao Kremlin que Biden está disposto ao confronto, mas deixou margem de manobra para os russos. Apesar de serem barulhentas, a expulsão de diplomatas e as sanções individuais são apenas incômodos políticos corriqueiros. Já aconteceram antes e seguirão acontecendo, com a usual retaliação com as mesmas medidas.

A coisa fica mais complicada quando o tema são as medidas financeiras. Desde que Putin anexou a Crimeia para evitar que a Ucrânia entrasse na Otan, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA, em 2014, a Rússia experimenta punições econômicas diversas aplicadas pelo Ocidente.

A recessão que o país enfrentou em 2015-16 costuma ser lida como o pedágio pela ação contra o vizinho, mas isso desconsidera que a verdadeira crise que a Rússia enfrentou foi a da queda nos preços do petróleo, cuja exportação é central para sua economia.

Houve até efeitos colaterais positivos. A agricultura russa, com a sanção reversa proibindo importações do Ocidente, desenvolveu-se muito no período e se tornou tão grande quanto a indústria de hidrocarbonetos. Houve inflação de alimentos, mas uma real substituição de importações.

Mais importante para o Kremlin, foram estabelecidos progressivamente instrumentos para se blindar dos efeitos das punições. Em 2020, estrangeiros compraram apenas US$ 5 bilhões dos US$ 73 bilhões emitidos em títulos russos, segundo a Rosstat, o serviço federal de estatísticas.​

Naturalmente, houve consequências, mensuradas de formas diferentes por analistas. O Fundo Monetário Internacional calculou em 2019 que só as sanções custaram 0,2 ponto percentual de crescimento do PIB russo todos os anos desde 2014. Houve queixas na Europa também, que participa dessas sanções anteriores, dado que o comércio com a Rússia, principal fonte de energia do continente, foi prejudicado.

Com toda sua pompa, a série de sanções desta quinta admite várias ressalvas. A principal delas, o veto à negociação com títulos russos, é apenas a novas emissões. Além disso, não impede que as transações ocorram por meio de empresas estatais russas no mercado secundário. Se houvesse um veto total, aí haveria um problema monstruoso à economia russa. Nesse sentido, Biden deu um tiro de advertência.

Chama a atenção também que não foi incluído no pacote de empresas sob sanção aquelas que já sofrem punições por construir com a Rússia o gasoduto Nord Stream 2. Isso é mais uma concessão à Alemanha, parceira de Putin no negócio e sua principal beneficiária, mas também é um sinal.

Haverá, por certo, choro e ranger de dentes em Moscou, em especial porque Biden confirma seu estilo de jogo. O americano elegeu a Rússia como o adversário no qual bate mais duro, deixando o seu maior inimigo estratégico, a China, sob alerta.

Isso já havia acontecido no começo de sua gestão, quando Biden aceitou os termos de Putin para estender o único acordo de limitação de armas nucleares estratégicas vigente, que Donald Trump havia deixado para morrer.

Ao mesmo tempo, anunciava uma apuração das circunstâncias do envenenamento e prisão do opositor Alexei Navalni e de outros malfeitos associados a Putin, como a famosa e inconclusiva acusação de atacar as eleições de 2016 e 2020.​

Logo depois, os EUA anunciaram sanções pontuais contra a Rússia. Tudo isso agrada a torcida local e reforça a imagem de durão de Biden, acusado na campanha eleitoral de ser titubeante e frágil do topo de seus 78 anos. Claro, com a China é diferente, mas isso fica para depois.

Tal tratamento é muito mal visto na Rússia, que até pelo seu poderio nuclear igual aos dos EUA quer ser tratada como par. E nenhum presidente americano havia chamado seu colega russo de assassino.

Isso torna a tática de Biden ao mesmo tempo esperta e perigosa, em especial quando há talvez mais de 80 mil soldados russos concentrados em torno das áreas separatistas pró-Kremlin da Ucrânia, elas mesmo sob ameaça de retomada por parte de Kiev.

O americano havia recuado na quarta no envio de dois navios de guerra para o mar Negro, após ameaças diretas e um exercício militar russo com munição real na região. Isso vinha em linha com o telefonema de Biden sugerindo uma cúpula. É incerto o impacto que a mordida após o assopro nesta quinta terá nas conversas, exceto que se assuma que Biden avisara Putin sobre o que iria fazer em seu telefonema.

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