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Biden ataca Putin de olho na China, mas tom agressivo traz riscos

Americano chama russo de assassino em meio a tensão na Ucrânia e provável teste da Coreia do Norte

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São Paulo

Presidentes americanos adoram um vilão russo, Ronald Reagan (1981-1989) que o diga.

O republicano cunhou o termo Império do Mal em 1983, acentuando as tensões com a União Soviética ao ponto de quase ter havido uma guerra nuclear em novembro daquele ano sem que Washington estivesse bem a par do risco.

Ativistas contra armas nucleares com máscaras de Putin e Biden na frente do Portão de Brandemburgo, símbolo de Berlim
Ativistas contra armas nucleares com máscaras de Putin e Biden na frente do Portão de Brandemburgo, símbolo de Berlim - John McDougall - 29.jan.2021/AFP

Alertado de que os soviéticos quase haviam iniciado um conflito na Europa em resposta a um exercício militar da Otan (aliança liderada por Washington), Reagan baixou um pouco a bola. Mikhail Gorbatchov logo assumiu, e o resto é história.

Joe Biden não pode ser acusado de estar mal informado sobre as sensibilidades de Vladimir Putin, o presidente russo que ele chamou incidentalmente de assassino em uma entrevista nesta quarta (17).

O presidente americano parece ter feito uma aposta, segundo a qual pode bater no seu vilão russo como forma de mostrar disposição ante o adversário que ele mais teme, a China de Xi Jinping.

O próprio Biden já disse que considera Pequim a grande rival estratégica de Washington. Nesta quinta (18), os chanceleres americano e chinês terão o primeiro encontro frente a frente, no Alasca.

Relatórios do Pentágono reafirmam a visão de Biden, embora ressaltem que do ponto de vista estritamente militar a Rússia permanece muito perigosa para os EUA.

A escalada do democrata vem se mostrando nas repetidas demonstrações de que fala grosso com o Kremlin, como no anúncio de sanções largamente simbólicas pelo envenenamento e prisão do opositor Alexei Navalni contra autoridades russas.

No meio do caminho, provocações militares no Ártico. Agora, virá "o preço a pagar" pelas sempre nebulosas acusações de interferência no processo eleitoral dos EUA, algo que remonta a 2016 e teria de alguma forma se repetido em 2020.

Mas chamar um chefe de Estado de um país com arsenal nuclear comparável ao seu de assassino parece algo fora do tom, além de inédito. Biden é famoso pelos escorregões, e pode ter sido isso. O efeito, contudo, é exatamente o que Putin poderia querer.

Contestado internamente e com a popularidade no menor nível de sua Presidência, ainda que na confortável faixa dos 60%, o líder russo poderá apontar no ataque do americano o velho roteiro da interferência externa.

Como retórica, contudo, parece ter um efeito limitado. O Putin de 2020 e 2021 tem tratado o dissenso não com compensações, mas com repressão policial forte.

Navalni está numa colônia penal que, segundo relatos, não deve muito ao antigo Gulag soviético. Mais de 10 mil pessoas foram presas, esvaziando protestos cada vez maiores contra Putin. O clima entre a classe pensante russa é dos piores, segundo se ouve de pessoas cada vez mais anônimas.

Procurar um inimigo externo crível é receita clássica, já usada quando Putin anexou a Crimeia em 2014, e Biden pode ter lhe dado um presente com a crítica.

Para tornar a equação mais complexa, tambores de guerra vêm sendo tocados no leste ucraniano. Kiev, com um presidente cada vez mais impopular, tem deslocado unidades militares para a região próxima às áreas dominadas pelos rebeldes pró-Rússia na região desde os embates há sete anos.

Moscou deu um recado não muito sutil: os moradores do chamado Donbass que tiverem passaporte russo, e quase todos lá têm direito a isso, poderão votar na eleição parlamentar de setembro. Ou seja, são cidadãos plenos que, sob ataque, terão de ser defendidos.

Analistas são unânimes em apontar que nem Putin nem seu colega Volodimir Zelenski têm interesse numa guerra, que seria custosa a ambos, talvez fatal para o ucraniano.

Para o Kremlin, tornar a Ucrânia disfuncional já é o suficiente para evitar que ela seja absorvida pelo Ocidente, sua preocupação estratégica. Mas a ameaça está lá, e a crescente cooperação militar entre EUA, Otan e os ucranianos tornaria a situação inflamável.

Do outro lado do vasto território russo, na pontinha conhecida como Coreia do Norte, vem outro alerta. Após a aproximação vazia entre o ditador Kim Jong-un e o antecessor de Biden, Donald Trump, há indícios crescentes nos setores de inteligência dos EUA de que o regime comunista irá fazer uma exibição de poder militar.

Kim estreitou laços com Putin, a depender dos relatos que vêm sobre a opaca relação entre os países. O ditador só pensaria em si se resolvesse provocar Biden, mas certamente pode calcular frutos se agradar os russos no processo.

No caso, a hostilidade seria lançar seu novo míssil balístico intercontinental, apresentado durante uma parada no ano passado. Trata-se de uma arma sobre a qual se sabe pouco, mas especialistas a veem como ainda mais capaz de atingir os EUA do que versões anteriores.

Deixar o Ocidente nervoso é uma especialidade norte-coreana, e a rodada de testes de 2017 quase acabou em guerra.

Se a canelada de Biden em Putin não foi acidental, caberá ver se ela provocará acidentes de percurso ou se levará a novas assopradas, como a retomada do acordo de armas nucleares Novo Start.

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