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Vítimas de pedofilia na Itália pressionam por investigação contra padres abusadores

Entidades lançaram campanha 'Além do silêncio', que reivindica comissão para apurar casos

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Roma | AFP

Associações de vítimas de agressões sexuais cometidas por clérigos na Itália lançaram uma campanha nesta terça-feira (15) para pedir uma investigação independente sobre abusos contra crianças e adolescentes praticados por religiosos a poucos quilômetros do Vaticano.

As associações de vítimas pedem mais disposição da Igreja italiana para trazer à luz décadas de abuso e sofrimento. Nove organizações aderiram à campanha chamada "Além do silêncio" para solicitar a instalação de uma comissão para investigar os casos, como aconteceu na França, na Alemanha e em Portugal.

Missa na catedral de Lucon, na França, após um tributo às crianças vítimas de abuso sexual por padres; país instituiu comissão independente para investigar denúncias desse tipo de crime
Missa na catedral de Lucon, na França, após um tributo às crianças vítimas de abuso sexual por padres; país instituiu comissão independente para investigar denúncias desse tipo de crime - Loic Venance-14.mar.21/AFP

"O governo deve agir, deve aproveitar o impulso criado por investigações imparciais em outros países", disse à AFP Francesco Zanardi, fundador de uma das principais associações de vítimas, a Rete l'Abuso (Rede de abuso). Ele foi abusado por um padre quando adolescente. "Se a Itália não fizer isso agora, temo que nunca o fará."

Segundo a organização, mais de 300 padres foram acusados ou condenados por abuso sexual na Itália nos últimos 15 anos, de um total de 50 mil religiosos em toda a península. Os números são imprecisos, devido à ausência de relatórios e de investigações independentes.

Investigações realizadas nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália revelaram a magnitude do fenômeno, bem como a cultura de acobertamento que impera há décadas.

Em janeiro deste ano, um relatório independente acusou o papa emérito Bento 16 de encobrir casos de abusos sexuais contra crianças quando era arcebispo de Munique e Freising, de 1977 a 1982. Segundo a denúncia, ele não teria agido para impedir que um padre cometesse ao menos quatro episódios de abusos.

No último dia 8, Joseph Ratzinger —nome de Bento 16— reconheceu em uma carta que erros foram cometidos na forma como a Igreja lidou com o tema, mas não admitiu ter praticado irregularidades ou ter conhecimento dos casos na época em que ocorreram.

Base de dados

O semanário italiano Left anunciou que, a partir de 18 de fevereiro, criará um banco de dados com os nomes dos religiosos condenados e investigados, com informações enviadas pelas associações. "Queremos preencher um vazio. Tanta falta de atenção é inaceitável", disse Federico Tulli, da revista.

Algumas vítimas denunciaram a indiferença da hierarquia da Igreja italiana e do Judiciário diante desse drama. "Mesmo entre os magistrados há relutância", completou Zanardi.

O jovem siciliano Antonio Messina, que sofreu abusos entre 2009 e 2013, denunciou não apenas o padre pedófilo, mas também o bispo de sua região que acobertou seu caso e transferiu o agressor para outra sede, onde continuou mantendo contato com jovens.

"Não quero que o que aconteceu comigo aconteça com outros jovens. É meu objetivo", afirmou, em entrevista coletiva.

Membro da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, diretor do Instituto de Antropologia para a Prevenção do Abuso e um dos conselheiros mais próximos do papa Francisco, o jesuíta Hans Zollner admitiu, em recente entrevista à AFP, a necessidade de uma investigação. "Provavelmente há padres que cometeram abusos e continuam vivendo sem que ninguém os incomode."

O papa Francisco, que vem expressando vergonha pelo abuso sexual de crianças por parte do clero católico, mudou a lei para endurecer a punição e, na segunda-feira (14), simplificou os procedimentos do Vaticano para investigar as acusações.

A reforma divide a poderosa Congregação para a Doutrina da Fé em duas seções, que tratarão separadamente de questões doutrinárias e disciplinares. Hoje, a instituição é responsável por julgar os padres acusados de abuso sexual de crianças e adolescentes e tem cerca de 20 membros dedicados quase que exclusivamente a essa tarefa.

Zanardi acredita, no entanto, que todas as investigações devem ser independentes: "Eu teria pouca fé" em uma investigação interna, reconheceu.

A Igreja Católica italiana mantém grande influência, e dois terços da população são fiéis, de acordo com uma pesquisa de 2019. "Há um silêncio total na mídia italiana e no governo em Roma", lamentou Zanardi. "Sem ninguém exigindo ação, a Conferência Episcopal Italiana faz o que quer."

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