O que se sabe até agora sobre a Guerra da Ucrânia

Invasão ordenada por Putin abriu crise militar mais grave na Europa desde a Segunda Guerra Mundial

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São Paulo e BAURU (SP)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, ordenou a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, dando início à crise militar mais grave na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

O líder russo afirmava que a ação militar tinha como objetivo apoiar enclaves separatistas no Donbass, região no leste do vizinho, mas ataques já foram registrados em várias partes do território ucraniano —particularmente em suas maiores cidades, Kiev e Kharkiv.

Soldado russo jaz na neve diante de tanque de guerra de Moscou em Kharkiv, na Ucrânia - Serguei Bobok - 26.fev.22/AFP

Do outro lado do conflito, está o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, alçado à política depois de fazer fama na comédia. O líder acusa Putin de cometer crimes de guerra durante a invasão e tem cobrado o Ocidente por medidas mais concretas de apoio a seu país.

​O que está acontecendo hoje na Guerra da Ucrânia?

Neste sábado (21), 87º dia da guerra, o presidente da Turquia conversou por telefone com os líderes da Suécia e da Finlândia. Nos últimos dias, Recep Tayyp Erdogan indicou que seu país, membro da Otan, pode se opor ao pedido de ingresso dos nórdicos na aliança militar ocidental.

A Finlândia também confirmou que a Rússia cortou o fornecimento de gás natural ao país, medida que havia sido anunciada nesta semana. De acordo com Moscou, o fornecimento foi interrompido porque a Gasum não efetuou pagamentos em rublos, a moeda russa —a exemplo do que foi feito com Bulgária e Polônia em abril. A medida, porém, também se dá em retaliação ao pedido finlandês de ingresso na Otan, criticado pelo governo Putin.

Soldado da Ucrânia descansa na usina de Azovstal, na Ucrânia, onde centenas se renderam e foram levados por tropas da Rússia - Dmitro Orest Kozatski - 20.mai.22/Comunicação do Batalhão Azov via Reuters

Além disso, o presidente dos EUA, Joe Biden, sancionou um pacote no valor de US$ 40 bilhões (R$ 195 bilhões) em ajuda à Ucrânia para combater a invasão russa. É o maior auxílio de Washington até o momento e vai incluir assistência militar, econômica e humanitária.

Já a Rússia confirmou, ao divulgar a lista completa de vetos à entrada no país de cidadãos americanos, que na relação estão o atual presidente dos EUA, Joe Biden, o secretário de Estado Antony Blinken e o chefe da CIA (agência de inteligência), William Burns. As proibições de viagem têm apenas impacto simbólico, mas fazem parte da escalada retórica e do esfriamento das relações diplomáticas entre os dois países.

Como a Ucrânia chegou até aqui?

Nos anos que antecederam a guerra, a Ucrânia esteve no centro de uma disputa geopolítica entre a Rússia e o Ocidente. Putin, que já havia anexado a Crimeia e insuflado uma guerra civil no leste ucraniano em 2014, quer evitar que o vizinho seja incorporado por instituições ocidentais, como a União Europeia e a Otan (aliança militar liderada pelos EUA).

Agora, o líder russo testa um movimento arriscado para fazer valer os seus interesses —alguns analistas avaliam, inclusive, que Putin está movido por orgulho e paranoia. Se quer dobrar Kiev à sua vontade e tirar o vizinho da órbita potencial da Otan e da UE, o autocrata terá de lidar com o isolamento diplomático que já se desenha contra o Kremlin, com o peso das sanções econômicas contra a Rússia e com o fardo das vítimas do conflito em ambos os lados —além das mortes, já contadas aos milhares, há pelo menos 6,4 milhões de refugiados, segundo dados divulgados pela agência da ONU.

Qual tem sido a reação dentro e fora da Rússia?

Em resposta ao que veem como uma agressão iniciada por Vladimir Putin, governos do Ocidente adotaram sanções sem precedentes contra a Rússia: bancos do país foram excluídos da plataforma financeira global Swift, a União Europeia fechou seu espaço aéreo para aviões russos e os EUA e aliados bloquearam o acesso do Banco Central da Rússia (BCR) às reservas internacionais.

A reação contra a guerra também chegou ao mundo dos esportes. A Fifa suspendeu a Rússia, que ficará impedida de participar de competições internacionais, como a Copa do Mundo do Qatar. Já o Comitê Olímpico Internacional recomendou aos organizadores de competições internacionais que não convidem atletas russos ou belarussos para participar dos torneios.

Diante da pressão internacional, o rublo despencou, assim como a bolsa de valores de Moscou. A pressão também tem crescido dentro do país, apesar da repressão: ativistas, celebridades e até mesmo oligarcas ligados ao Kremlin se posicionaram abertamente contra a guerra.

Manifestantes violam as leis russas, que proíbem protestos sem autorização prévia, e vão às ruas contra o governo de Putin e sua decisão de invadir a Ucrânia. Segundo a ONG de monitoramento de violência estatal OVD-Info, cerca de 15,4 mil pessoas já foram presas nas manifestações.

Na ONU, o Conselho de Segurança fez uma reunião de emergência um dia depois do início da guerra para condenar a invasão da Ucrânia. A resolução, no entanto, foi vetada pela Rússia, que tem o poder de barrar medidas por ser um dos cinco membros permanentes do colegiado.

Houve ainda a convocação de uma sessão extraordinária da Assembleia-Geral, na qual diversos países fizeram discursos duros em oposição ao conflito liderado por Moscou. O órgão, porém, não pode aplicar medidas, como sanções ou envio de missões de paz —o que expõe a falta de efetividade das Nações Unidas em questões dessa magnitude.

A China, que, junto com Índia e Emirados Árabes Unidos, absteve-se de votar no Conselho de Segurança, chegou a dar sinais de mudança no tom de sua diplomacia. O chanceler Wang Yi falou com seu homólogo ucraniano, disse estar "preocupado com os danos causados aos civis" e prometeu ajudar a buscar soluções para o conflito por meio de diálogos. Não houve por parte do chinês qualquer crítica à Rússia.

Depois, celebrou a parceria entre China e Rússia e definiu a relação como "sólida como uma rocha".

Putin mantém a ofensiva e nutre a narrativa bélica —ao determinar, por exemplo, que forças nucleares do país entrem em alerta de combate— ao mesmo tempo em que limita a mídia estatal a se referir à ação russa na Ucrânia com eufemismos como "operação militar especial", proibindo o emprego de "guerra".

Qual é a posição do Brasil sobre o conflito?

A Assembleia-Geral da ONU aprovou em 2 de março uma resolução condenando a invasão da Ucrânia pela Rússia, por 141 votos a favor, 5 contra e 35 abstenções. A resolução foi proposta por 95 dos 193 países do colegiado. O Brasil não se juntou ao grupo dos proponentes, mas votou a favor da medida.

Antes, o Brasil adotava postura dúbia diante dos acontecimentos na Ucrânia.

O presidente Jair Bolsonaro (PL), que se encontrou com Putin em Moscou uma semana antes de o conflito começar, expressou solidariedade à Rússia enquanto o país realizava exercícios militares na fronteira apontados como prenúncio da invasão.

Mais recentemente, o chefe do Executivo defendeu que o Brasil permaneça neutro diante do conflito. "Nós não podemos interferir. Nós queremos a paz, mas não podemos trazer consequências para cá", declarou.

Vladimir Putin e Jair Bolsonaro em pé, de terno, flam em púlpito branco com as bandeiras da Rússia e Brasil ao fundo
Vladimir Putin e Jair Bolsonaro em encontro no Kremlin, Moscou, em fevereiro - Mikhail Klimentyev/Sputnik /AFP

Bolsonaro também ironizou o fato de Zelenski ter sido comediante antes de assumir a Presidência e disse que era um exagero caracterizar o que ocorre na Ucrânia como um "massacre" —e foi chamado de "mal informado" pelo chefe interino da embaixada ucraniana no Brasil.

O Itamaraty, contudo, tem adotado um tom mais crítico à guerra, embora esteja poupando Putin de críticas. O Brasil apoiou a resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas que pedia o fim da invasão da Ucrânia e voltou a condenar o ataque russo na Assembleia-Geral. Por outro lado, o país criticou o envio de armas por governos ocidentais às forças ucranianas devido ao risco de escalada do conflito e citou que preocupações de segurança da Rússia foram encaradas com descrédito nos últimos anos.

O Kremlin divulgou em 7 de março uma lista de países considerados hostis à Rússia. O Brasil não está nela. A relação foi elaborada para normatizar um decreto assinado por Putin dias antes, que estabeleceu critérios de relações comerciais com outros paíse​s enquanto durar o conflito no vizinho.

São considerados hostis Austrália, Albânia, Andorra, Reino Unido, os 27 países da União Europeia, Islândia, Canadá, Liechtenstein, Micronésia, Mônaco, Nova Zelândia, Noruega, Coreia do Sul, San Marino, Macedônia do Norte, Singapura, Estados Unidos, Taiwan, Ucrânia, Montenegro, Suíça e Japão.

Como a guerra entre Rússia e Ucrânia afeta a economia do Brasil?

A guerra econômica pressiona o preço de commodities como petróleo, gás natural, trigo e milho, e a inflação dos alimentos no mundo e no Brasil deve voltar a acelerar. Economistas avaliam que os conflitos tendem a gerar aumento da pressão inflacionária no Brasil, o que pode levar a uma necessidade de juros ainda maiores por parte do Banco Central, e, consequentemente, a um crescimento econômico menor.

A Ucrânia vende cerca de 20% do milho do mercado mundial, um peso relevante, embora fique atrás de EUA, Brasil e Argentina. Ucrânia e Rússia exportam cerca de 30% do trigo comprado pelo resto do mundo. O Brasil é um dos maiores importadores de trigo, o que pressiona preços de itens como pão e macarrão.

A Rússia é um dos grandes produtores de petróleo, e um conflito militar afeta o mercado do produto. Grandes empresas do setor de energia e de outros setores interromperam atividades no mercado russo. O país também é o principal fornecedor de fertilizantes do Brasil, e os preços do adubo devem subir ainda mais com sanções ao país liderado por Putin.

As sanções impostas à Rússia, como a retirada de bancos do sistema internacional de pagamentos Swift e o congelamento de parte das reservas internacionais, podem inviabilizar o embarque de produtos para o Brasil e até atrasar o desembarque de mercadorias que já estão a caminho. Os gargalos no comércio exterior são mais um fator que deve contribuir para a alta de preços de produtos importados pelo Brasil.

A depender do tamanho da guerra, o impacto sobre a confiança econômica pode ser grande e se estender por pelo menos alguns meses, o que reduziria as perspectivas de crescimento econômico. Investidores temerosos costumam adiar novos projetos ou expansões, o que significa menor oferta de emprego.

Para ver e ouvir

Clique aqui para acompanhar todos os vídeos da TV Folha sobre a guerra na Ucrânia.

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