Boric chega à Argentina, quebra protocolo e pede diálogo sobre conflito no sul

Em sua primeira viagem internacional, presidente chileno visitou o líder argentino, Alberto Fernández

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Buenos Aires

Rompendo o protocolo, o presidente chileno, Gabriel Boric, chegou caminhando, não de carro, nesta segunda (4), pela praça San Martín, no centro de Buenos Aires, onde está a sede da chancelaria argentina, para realizar uma homenagem ao general José de San Martín, herói da independência argentina.

Acompanhado do chanceler argentino, Santiago Cafiero, o líder chileno abriu a programação da visita de Estado de dois dias que realiza no país, em sua primeira viagem internacional após assumir o cargo.

Os presidente de Chile, Gabriel Boric, à esq., e Argentina, Alberto Fernández, após entrevista coletiva na Casa Rosada, em Buenos Aires
Os presidente de Chile, Gabriel Boric, à esq., e Argentina, Alberto Fernández, após entrevista coletiva na Casa Rosada, em Buenos Aires - Tomas Cuesta/AFP

Temas de disputa entre as duas partes destoaram do ar de intimidade que o presidente argentino, Alberto Fernández, e Boric expressaram pouco depois, já durante o encontro bilateral, realizado na Casa Rosada.

Em entrevista coletiva, ambos foram questionados sobre o conflito na região sul do Chile, conhecida como Araucania pelos indígenas mapuches, que reivindicam a soberania do território —alguns dos grupos recorrem a meios violentos e a atentados, o que gera tensão constante na região.

No Chile, a população mapuche é de 1,8 milhão de pessoas. Na Argentina, de cerca de 500 mil. A fronteira entre os dois países não é reconhecida pelos indígenas, que a veem como algo artificial e imposto pelo que classificam de "invasores", que estariam ocupando suas terras de modo indevido.

Em sua resposta, Fernández foi cauteloso, pedindo diálogo, ao mesmo tempo que nos últimos dias foi pressionado por parlamentares da oposição a rejeitar a demanda chilena para chamar a região, que inclui parte do território argentino, de Wallmapu, como os mapuches e a gestão Boric se referem a ela.

Após a resposta branda do peronista, Boric afirmou que o caso "é um conflito antigo" e que os governantes atuais têm de atuar para resolvê-lo. "É um processo que vai incomodar muitos, principalmente aqueles que acham que a partir da violência seria possível resolver o problema."

O líder chileno falou também sobre a necessidade de fortalecimento de blocos regionais como o Mercosul e a Celac e de recuperar a liderança da América Latina em foros internacionais. "O Chile parte da América Latina e embora durante muito tempo tenhamos olhado para outras direções, para o norte ou para o Pacífico, em relações que nos interessa manter e aprofundar, nossa base é a América Latina", disse.

"Daí vamos construir comunidade, cooperação e internacionalismo. A América Latina tem que recuperar uma voz unida, uma voz de cooperação, que seja conjunta no cenário global."

Boric também voltou a ser questionado sobre a posição de seu governo em relação às ditaduras de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Apesar de o presidente chileno já ter se manifestado contra esses regimes, uma parte de sua base de apoio, em especial o Partido Comunista, tem reservas em fazer críticas a Miguel Díaz-Canel, Daniel Ortega e Nicolás Maduro, líderes dos três países.

"Existe entre os meios de comunicação certa obsessão em citar apenas esses três países como ditaduras condenáveis. E é certo que são e as condeno. Mas creio que os direitos humanos devem ser vistos de maneira mais ampla, e a mídia tem papel nisso. Há abusos de direitos humanos em outros países e são todos condenáveis, na Colômbia, na Ucrânia, no men", disse Boric.

"Peço que deixemos de usar uma falsa preocupação com as pessoas que habitam esses países, porque na verdade a cobrança que se faz para que condenemos abusos de direitos humanos em ditaduras de esquerda servem apenas para alimentar, em nossos países, as nossas disputas internas."

Os presidentes também assinaram acordos de cooperação em direitos humanos, em direitos de pessoas LGBTQIA+ e em igualdade e empoderamento de mulheres. Também conversaram sobre a possibilidade de facilitar o transporte bioceânico, eliminando taxas. Na parte da tarde, Boric se encontrou com empresários. Depois, haverá um ato cultural conjunto, no Centro Cultural Néstor Kirchner, no centro de Buenos Aires.

O líder chileno chegou à capital argentina na tarde de domingo (3) e foi a uma famosa livraria do bairro de Palermo, a Eterna Cadência, que abriu suas portas só para recebê-lo, pois não funciona aos domingos.

Boric comprou cinco livros: "Alguién Camina sobre tu Tumba", da argentina Mariana Enríquez, "Perón Mediante - Gráfica Peronista del Período Clásico", do argentino Guido Indji, sobre o imaginário na publicidade política do período peronista, e três títulos internacionais: "Querido Mr. Stalin", de Susan Butler, que reúne a correspondência entre Franklin Roosevelt e Joséf Stalin, "Una Palabra Tuya", do historiador britânico Orlando Figes, e "El Marino que Perdió la Gracia del Mar", do japonês Yukiu Mishima.

O presidente chileno ainda deu de presente a Fernández um álbum de Violeta Parra, considerada a maior compositora e folclorista do Chile, e uma almofada para Dylan, cachorro do argentino.

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