Podcast da Universidade Johns Hopkins repassa imbróglio do pacto nuclear com Irã

Diplomata e cientista político Ali Vaez amarra pontas de problema geopolítico que se arrasta há anos

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São Paulo

O Irã voltou a enriquecer urânio para a produção de ogivas nucleares. Suas centrífugas são capazes de obter combustível enriquecido em 60%. Um pouco mais e se chega à bomba, se é que ela já não existe.

O ruim, nesse quadro, é que as negociações do regime iraniano com o Ocidente estão bem próximas do ponto-morto, apesar da vontade de Joe Biden de remendar os estragos praticados por Donald Trump, seu predecessor na Casa Branca. Tudo isso é, em resumo, o que diz o diplomata e cientista político Ali Vaez.

Assessor de Biden para a questão e ex-consultor da comissão da ONU que acompanhou o problema, Vaez participou do Podcasts Hopkins sobre Política Internacional, da Universidade americana Johns Hopkins.

Funcionário remove as bandeiras de EUA e Irã de palco após foto com chanceleres e representantes de EUA, Irã, China, Rússia e Reino Unido, Alemanha, França e União Europeia em Viena, na Áustria
Funcionário remove as bandeiras de EUA e Irã de palco após foto com chanceleres e representantes de EUA, Irã, China, Rússia e Reino Unido, Alemanha, França e União Europeia em Viena, na Áustria - Carlos Barria - 14.jul.15/AFP

Um pouco de história. Em 2003, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), ligada à ONU, juntou evidências de que a república islâmica xiita enriquecia urânio, e não apenas a 12%, para abastecer usinas de eletricidade. Iniciou-se um período de dez anos, em que a comunidade internacional embarcou nas preocupações da AIEA, de Israel, dos países sunitas do Oriente Médio e do Golfo e ainda do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China), ao qual se juntou em seguida a Alemanha.

O Irã sofreu pesadas sanções econômicas e militares, que seriam suspensas apenas se o país abrisse mão de seus planos bélico-nucleares. Entre 2013 e 2015, negociações sigilosas entre, de um lado, o Irã e, de outro, os EUA, os demais do Conselho de Segurança e a Alemanha montaram calendários para a visita de missões de inspetores e mais um sistema sofisticado de câmeras para o monitoramento online.

Do ponto de vista da AIEA e da gestão Barack Obama era o factível e o necessário. Mas em Washington o Partido Republicano, com o governo israelense do então premiê Netanyahu, não se deu por satisfeito.

Vaez resume as objeções que não eram as suas. O Irã não incluiu nas negociações a construção e posse de mísseis que poderiam transportar ogivas na direção de territórios vizinhos. Além disso, o acordo firmado dava ao Irã um prazo de 14 dias para facultar a inspeção presencial de locais não monitorados. É o suficiente para que o país persa apague provas, argumentou Israel. Bem difícil, já que material radioativo só desaparece depois de um período bem maior, disse o convidado do podcast.

As discussões estavam nesse pé quando Trump foi eleito com a suspeita de que Obama assinou um acordo altamente desvantajoso para os Estados Unidos. O republicano se rodeou de assessores para os quais, mesmo pressionado e vigiado, Teerã jamais se comportaria honestamente.

O Irã procurou, num primeiro momento, cumprir seus compromissos com os parceiros europeus. Mas o governo Trump ameaçou as empresas europeias que não aderissem ao novo embargo americano. Eleições presidenciais iranianas levaram um linha-dura ao poder —pressionado pela intransigência das lideranças religiosas—, e, assim, tudo voltou à estaca-zero.

Ou melhor, quase zero. O grupo anterior de negociações restritas chegou a redigir em fevereiro um memorando de 27 páginas para relançar o controle sobre o programa nuclear iraniano. O documento seria um sinal para a reunião do conselho de governadores da AIEA, em junho. Mas eis que a Rússia invade a Ucrânia e tenta aliciar o Irã. Os problemas se misturaram, e tudo voltou a um lamentável impasse.

A Rússia é uma potência nuclear, e aqui não vão mais observações do podcast com Vaez. Nas negociações que precederam o acordo de 2015, Moscou não teve uma parcela comparável à da Alemanha, que nem pertence ao Conselho de Segurança, por ter sido derrotada na Segunda Guerra (1939-1945).

Mas a Rússia tende a tomar as dores do Irã por alguns motivos. Os iranianos são rivais do Iraque, ex-concorrente pela hegemonia no Golfo e que se tornou uma espécie de protetorado dos Estados Unidos.

Com a Guerra da Ucrânia, Moscou também tende a não misturar Teerã ao eixo anti-Putin que os EUA procuram construir com os países árabes. E, por fim, Moscou nunca esteve tão distante de Israel quando entra em jogo a possibilidade de acreditar na sinceridade dos aiatolás iranianos e a necessidade de paz, para se contrapor ao desemprego, à inflação e ao baixo crescimento econômico que assolam o país persa.

Haverá um novo acordo nuclear iraniano?

  • Onde Podcast da Universidade Johns Hopkins sobre política internacional, disponível em Google Podcasts
  • Duração 41 min. (em inglês)
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