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Claudio Lottenberg: Atraso crônico

Enquanto o mundo se aprimora com os benefícios da digitalização na saúde, que proporciona eficiência e ganhos de produtividade, no Brasil quase nada avançou nessa frente

Claudio Lottenberg, presidente do UnitedHealth Group Brasil, em seminário promovido pela Folha no dia 23 de abril
Claudio Lottenberg, presidente do UnitedHealth Group Brasil, em seminário promovido pela Folha no dia 23 de abril - Reinaldo Canato - 23.abr.18/Folhapress

No atual cenário eleitoral instável e repleto de dúvidas, uma coisa é certa: a saúde continua sendo causa de preocupação e insatisfação para a maioria dos brasileiros.

Enquanto o mundo se aprimora com os benefícios da digitalização, que proporciona eficiência, ganhos de produtividade e economia, no Brasil quase nada avançou nessa frente, e a saúde padece, afetada por um atraso crônico.

A era digital transforma substancialmente a área da saúde. Cria condições para a uniformização e o compartilhamento de informações com impactos relevantes na assistência médica, atenção básica, prevenção e tratamento de doenças, contribuindo para aumentar o acesso da população à saúde, obter melhora dos desfechos, enfrentar adequadamente o avanço das doenças derivadas da maior expectativa de vida e evoluir para um novo modelo de gestão financeira do sistema com incremento de eficiência. 

Além disso, num país com as dimensões do Brasil, a telemedicina apresentaria benefícios importantes para o atendimento em locais mais afastados, onde a presença de especialistas é insuficiente.

Do mesmo modo que clínicas e hospitais, as próprias residências dos pacientes podem ser integradas ao processo por meio de aplicativos, relógios ou pulseiras que auxiliam em monitoramentos, controles de indicadores e emissão de alertas para procedimentos de assistência médica que sejam necessários.

Sempre haverá pessimistas afirmando que nem todo o território é coberto pela internet, mas de alguma forma temos que começar.

A raiz desse processo está justamente no prontuário médico, que vigora dentro do contexto da assistência desde que esta passou a existir. A diferença é que agora ele pode ser eletrônico, abrindo as portas para um cenário de inteligência artificial e "analitics".

Os ganhos com essa informação gerada —e dentro de um cenário de obrigatoriedade— traria uma mudança estruturante real, com foco e, acreditem, economia baseada em evidência.

Com a digitalização e com o potencial de utilização da telemedicina, estaríamos fazendo mais e melhor, contribuindo para reverter a insatisfação da população brasileira com a saúde e verificando que os recursos, embora parcos, poderiam ser mais bem utilizados, possivelmente eliminando 33% do custo que é gasto em desperdício por práticas obsoletas, retrabalho, redundância, burocracia e fraudes.

No entanto, ao contrário de outros países que avançam, estamos, lamentavelmente, deixando de lado a internet das coisas, a comunicabilidade e a medicina baseada em valor que necessita de muito e, ao mesmo tempo, de tão pouco.

Deixamos de avançar, aumentando nossa defasagem tecnológica e sofrendo as consequências de um processo que é degenerativo.

Mas quem sabe o erro seja o (des)entendimento de todos os envolvidos; do governo, que deveria ter um plano estruturante e não apenas compensatório; dos profissionais da saúde, que têm que assumir um protagonismo claro e um papel de liderança, sem corporativismos; e da sociedade, que deveria se interessar em gerenciar sua saúde pautada por valor e por evidência, em vez de se limitar a erguer a bandeira dos direitos.

Além disso, a própria estrutura de Estado tem a responsabilidade de criar os elementos facilitadores para atrair ainda mais a iniciativa privada disposta a enfrentar o desafio de desenvolver e construir um novo sistema de saúde para o Brasil.

A saúde responde atualmente por 5 milhões de postos no mercado de trabalho, representa quase 10% do PIB brasileiro, gera novas habilidades para capital humano e, portanto, constitui um dos principais setores de oportunidade de crescimento para o país.

Mas, a persistir o cenário atual, sem ações concretas para superar o atraso crônico, os gastos com o sistema deverão chegar a níveis insustentáveis para todos.

Claudio Lottenberg

É presidente do UnitedHealth Group Brasil, do Instituto Coalização Saúde e do conselho deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein; foi secretário municipal de Saúde de SP (2005, gestão Serra)

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