Descrição de chapéu

Bombas de intolerância

Envio de pacotes com explosivos caseiros traz natural apreensão para os americanos

Cão farejador próximo ao prédio da Time Warner, dona da CNN, um dos alvos em Nova York
Cão farejador próximo ao prédio da Time Warner, dona da CNN, um dos alvos em Nova York - Spencer Platt/Getty Images/AFP

Em que pesem as circunstâncias ainda nebulosas, o envio de pacotes com explosivos caseiros a líderes do Partido Democrata e a críticos do presidente Donald Trump traz natural apreensão para os americanos, dada a intensa mobilização policial dos últimos dias, e recrudesce um preocupante sentimento de conflagração política.

As bombas improvisadas tinham como destinatários, entre outros, os ex-presidentes Bill Clinton e Barack Obama, além do vice deste, Joe Biden. Também se endereçavam a figuras identificadas com os democratas, como o bilionário George Soros e o ator Robert De Niro —este último, notório pelos ataques verbais contra Trump.

Os fatos de órgãos de segurança terem interceptado a maioria das correspondências e de por ora não haver registro de feridos não diminuem a gravidade dos episódios. A sequência de casos em curto intervalo de tempo —ao menos dez desde a última segunda-feira (22)— sugere uma ação orquestrada.

Impõe-se como fator agravante, pelo aparente intento de intimidação à mídia, que um desses envelopes, destinado ao ex-diretor da CIA John Brennan, tenha chegado à Redação da rede de TV CNN. O prédio teve de ser esvaziado, o que obrigou a emissora a interromper sua transmissão ao vivo.

As investigações, até esta quinta-feira (25), mostravam-se incipientes quanto a esclarecer autoria e motivações, mas era inevitável que os atentados frustrados se tornassem assunto de campanha das eleições legislativas, que ocorrem em 6 de novembro.

Por parte dos republicanos, há compreensível temor de que seus opositores explorem a situação para ganhar votos no pleito, crucial para a Casa Branca por definir qual partido controla a Câmara e o Senado —os democratas tentam reaver o comando das duas Casas e, assim, fazer avançar um eventual processo de impeachment.

De partida, Trump adotou posição elogiável ao condenar “ameaças de violência política” e pedir união à população.

Horas depois, porém, voltou a expor o perfil divisivo e a habitual demonização da imprensa ao dizer que esta precisa “parar sua hostilidade sem fim”, como se o ambiente de exacerbada polarização em que se encontra o país não passasse, em boa medida, pelas atitudes do próprio mandatário.

Sejam quais forem as conclusões do FBI acerca dos pacotes, os EUA vão às urnas sob um clima de radicalização e de intolerância que, a despeito das diferentes realidades, guarda alguma semelhança com o observado na cena brasileira.

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