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Natália Leal

Onda de notícias falsas pode virar realidade

Um ano após a greve dos caminhoneiros, fake news se proliferam

A jornalista Natália Leal, diretora de conteúdo da Agência Lupa - Mauro Pimentel - 18.abr.19/AFP
Natália Leal

​​​A greve dos caminhoneiros completa um ano no dia 21 de maio. O movimento fez faltar combustível, alimentos e diversos outros produtos pelo país. É verdade que a paralisação —que ajudou a encolher o crescimento do PIB para 0,2% no segundo trimestre de 2018 rendeu algumas conquistas para os que vivem de lá para cá nas estradas.

Mas também teve outras consequências. Não só fez com que a Petrobras recuasse em sua política de preços para o diesel, mas também machucou o já então combalido governo Michel Temer. Além disso, a greve finda em 1º de junho de 2018 inaugurou nas redes sociais uma nova era: o da epidemia de notícias falsas sobre a próxima greve de caminhoneiros  —algo que se perpetua até hoje, alarmando a população.

As notícias falsas sobre novas paralisações prolongaram-se ao longo de 2018 e, desde o início do governo Jair Bolsonaro, proliferam nos celulares e computadores. Estão no Whatsapp e nas redes sociais —no formato de áudio e de vídeo—  sempre anunciando greves “para a próxima semana” ou para “o próximo mês”. Foi assim em fevereiro e em março. E, agora, com a efeméride de um ano da greve real, mais desinformação deve se espalhar.

Até aqui, a cada onda de manipulação descarada, fontes do governo e dos vários sindicatos (de caminhoneiros e de distribuidores de derivados de petróleo) desmentem os planos de greve. Mas isso não tem freado a fábrica de falsidades. Menos ainda parado o pânico dos usuários de WhatsApp.

Some-se agora a intenção do governo federal de garantir a independência da Petrobras na definição dos preços dos derivados do petróleo e a tentativa —simultânea—  de acalmar os ânimos dos caminhoneiros. O resultado pode ser bombástico.

O pacote anunciado pelo governo mistura um investimento de R$ 2 bilhões na manutenção das estradas com uma linha de crédito de R$ 500 milhões para caminhoneiros. Também aumenta o preço do diesel em R$ 0,10 nas distribuidoras, o que afeta o custo de toda a cadeia de transporte rodoviário e do agronegócio. Enquanto isso, o preço do barril se mantém na faixa dos US$ 70, e o dos fretes, no desequilíbrio entre oferta e procura, segue baixo.

A confusão é campo fértil para boatos. Na manhã de quarta-feira (17), duas postagens que tratavam de uma possível greve de caminhoneiros no Facebook já tinham sido compartilhadas mais de mil vezes.

Uma convidava o leitor a saber exatamente "quando os caminhoneiros iam parar". No texto, no entanto, informava que não havia consenso algum sobre a paralisação. A outra classificava como "esmola" o pacote do governo federal. No texto, a aspa exata era um pouco mais complacente: "É melhor do que nada".

Em maio do ano passado, os checadores da Agência Lupa padeceram ante a quantidade de notícias falsas a respeito da greve. Havia informações sobre assassinatos de caminhoneiros, conflitos com a Polícia Federal e até greves em outras categorias profissionais.

Tudo ao vivo, regado a pânico e com a imediatez do WhatsApp. Para quem atua fora do universo da verificação talvez seja difícil imaginar a complexidade por trás do processo jornalístico de analisar a veracidade de tudo isso —a tempo e a contento. É hora, portanto, de alertar: não compartilhe notícias sem checar.

Natália Leal

Diretora de Conteúdo da Agência Lupa

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