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Francisco Daudt

Riqueza e desigualdade

A doença do capitalismo é a obesidade, não a fome

O psicanalista Francisco Daudt - Ricardo Borges - 03.abr.17/Folhapress
FRANCISCO DAUDT

O senso comum brasileiro diz que o capitalismo é malvado e que o socialismo é bonzinho. Só que não é bem assim...

“Toda propriedade é um roubo”, disse Pierre-Joseph Proudhon, o teórico do anarquismo no século 19. A crença de que, se há ricos, é porque eles exploraram os pobres tem sido a base do pensamento das esquerdas. Ela explicaria a desigualdade, e é a justificativa moral da luta por justiça social que empreendem.

Isso era verdade até o surgimento do capitalismo. Um senhor feudal era rico porque explorava os camponeses do feudo. Não se criavam riquezas; elas surgiam aqui por tirarem dali.

Então o capitalismo produz riqueza? Não é preciso roubar dos pobres? Que evidências há disso? Bem, a história é longa, mas só vamos tomar um único dado para essa demonstração: a população mundial. 
Ela se manteve estável por séculos, em torno de 300 a 500 milhões de pessoas até 200 anos atrás, quando do surgimento da revolução industrial, a principal decorrência do capitalismo. A partir daí começou seu crescimento vertiginoso até os atuais 7,5 bilhões. Como se uma casa de dois pisos virasse subitamente um prédio de 30 andares.

Não haveria como isso acontecer através de roubo dos mais pobres. Criou-se riqueza, portanto.
E a desigualdade? Aceitamos bem várias delas: de talento, beleza e inteligência. Aceitamos astros de rock, de TV, ou jogadores de futebol muito ricos, pois achamos que eles merecem. O que desperta a indignação das pessoas é a desigualdade de bens fruto do capitalismo: o rico empreendedor, o rico banqueiro. Não se vê o talento nem o merecimento deles. São vistos como predadores, causadores da pobreza. E o senso comum “sabe” qual é o causador dessa desigualdade: o capitalismo.

No entanto, ao gerar riqueza, o capitalismo fez mais pelo combate à desigualdade que qualquer outro sistema econômico, aí incluído o socialismo real, que só gerou igualdade na miséria. 

Um morador de “comunidade” vive hoje com mais conforto do que um senhor feudal da Idade Média, que não tinha ar condicionado nem televisão. Nunca houve uma classe média como a partir do capitalismo. Aliás, nunca houve classe média antes. A doença do capitalismo é a obesidade, não a fome.

Agora, o capitalismo é predador. Por ser muito sintonizado com a natureza humana, uma vez deixado solto ele explorará e dominará. Sua face mais cruel foi a escravatura. Por isso a democracia representativa põe-lhe os freios, civiliza-o. Quem mais bem fez à domesticação do capitalismo foi Karl Marx: ao apontar sua face cruel, ao predizer sua queda, ele fez com que as democracias começassem a tornar o capitalismo mais civilizado, a tirar sua selvageria. Diferentemente do dogmático socialismo, o capitalismo é um sistema vivo, ele está em permanente mudança para sobreviver, em permanente adaptação.

E aí as esquerdas democráticas têm um papel fundamental, que é fazer com que a riqueza gerada pelo capitalismo reverta cada vez mais para a igualdade que a democracia almeja: igualdade de oportunidades e frente à lei. Educação, infraestrutura e segurança. Confiança de que a Constituição será aplicada a todos igualmente.

Francisco Daudt

Psicanalista e médico, é autor de "Onde Foi Que Eu Acertei?", entre outros livros; foi colunista da Folha de 2011 a 2017

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