Descrição de chapéu
Betty Milan

Presidente ofende até a sombra

Até quando seremos vítimas do seu kkkkk perverso?

O presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-dama, Brigitte, em Biarritz, na França - Francois Mori - 24.ago.19/Reuters
Betty Milan

Um seguidor de Jair Bolsonaro (PSL) comparou a primeira-dama Brigitte, com 25 anos a mais do que Emmanuel Macron, à Michelle, que tem 27 anos menos do que o presidente brasileiro e é a sua terceira esposa.

Fez a comparação valendo-se de fotos de cada uma com os respectivos maridos. E publicou: “Entende agora por que Macron persegue Bolsonaro?” E o presidente que nos envergonha continuamente respondeu: “Não humilha, cara. Kkkkkkk”.

Não é preciso dizer que a imprensa estrangeira ficou indignada e o acusou de sexismo. Neste caso, foi discriminação contra uma mulher idosa. 

Vale lembrar que Emmanuel fez o possível e o impossível para se casar com Brigitte, que ele conheceu aos 15 anos, em Amiens, norte da França. Ela era a sua professora de francês e latim. Além de ensinar, animava um grupo de teatro, do qual ele participou. Os dois montaram uma peça juntos, e a história de amor começou.

Os familiares eram contrários à relação. Além de mais velha, Brigitte era casada e mãe de três filhos. Os rumores não paravam, mas a afeição era profunda. Só deixaram de se ver quando Emmanuel foi terminar os estudos em Paris. Em 2006, ela finalmente se divorciou. Emmanuel pediu a sua mão, dizendo: “Aconteça o que acontecer, vou casar com você”. Um ano depois, o casamento foi oficializado no civil. 

Com o seu ridículo “kkkkk”, Bolsonaro desqualificou o amor e fez a apologia da beleza, que é passageira. Deu a entender, com o seu humor negro, que não é a qualidade da mulher, mas o físico que importa. Após ter facilitado os incêndios na Amazônia, acendeu uma fogueira para as idosas, exercitando-se na sua especialidade: a exclusão. 

Macron reagiu ao “kkkkk”. Disse que, por ser presidente da França, ele não ofende os de outros países. Acrescentou que tem grande consideração pelos brasileiros e espera que logo tenham um presidente digno. Como o fogo na Amazônia, o panelaço se espraiou pelo Brasil e pelo mundo… Bolsonaro ofendeu todas as mulheres, das recém-nascidas às que um dia serão idosas. Na sua insensatez, ofendeu também a mãe.

A entrevista de Macron após o encontro do G7 mostra que é uma sorte ter no mundo um político como ele. Foi capaz de fechar o evento com Donald Trump, que prometeu aderir ao tratado do clima e negociar com o Irã para evitar a guerra. 

Um chefe de Estado que não sabe o peso das palavras e se vale de brincadeiras —que pode ser um recurso civilizatório— para ofender o próximo não é digno do cargo. Ao injuriar Brigitte Macron, Bolsonaro injuriou todas as mulheres. Tão lamentável quanto ter dito, no passado, que as mulheres só devem ser violadas se forem bonitas e devem ganhar menos porque engravidam.

Até quando será necessário aceitar, no Brasil, um presidente que usa a palavra mais do que indevidamente e abusa de seu cargo, fazendo pouco dos que o elegeram? Até quando seremos vítimas do seu “kkkkk” perverso? Depois de ter-se ridicularizado em Davos, na Suíça, Bolsonaro se ridicularizou em Biarritz, na França.

Betty Milan

Escritora e psicanalista; autora de "Baal" e “Carta ao Filho” (ed. Record)

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