Descrição de chapéu

Zelar as reservas

BC deve intervir com parcimônia no mercado, mantendo elevado estoque de divisas

Sede do Banco Central, em Brasília - Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Num país onde as contas públicas se encontram em estado precário e a moeda carece de credibilidade, como é o caso do Brasil, há necessidade de manter um colchão de proteção na forma de reservas em dólares e outras divisas.

O Banco Central aproveitou o salto dos preços das matérias-primas, entre 2004 e 2011, e a grande disposição do mundo em aportar capital nos mercados emergentes para acumular reservas cambiais em montante expressivo.

Com US$ 358,5 bilhões em caixa na última quinta-feira (12) e um regime de câmbio flutuante, o país hoje não corre mais o risco de insolvência nas transações com o restante do mundo —que tantas crises gerou no passado.

Mesmo assim, sendo o Brasil um país pequeno diante dos fluxos de capital internacional, é importante adotar uma postura responsável e conservadora, valorizando o seguro construído a duras penas.

Cumpre anotar, afinal, que as reservas não constituem um tipo de poupança. Elas foram adquiridas por meio de endividamento público em moeda nacional, que gera obrigações na forma de juros.

A questão mais complexa reside em quanto se deve manter no cofre e em que medida o BC pode dispor de seus dólares para enfrentar pressões contra a moeda brasileira —que podem dificultar a gestão da politica econômica e as expectativas de crescimento.

Já há algum tempo o real sofre forte depreciação. Em parte trata-se de um rearranjo diante do novo cenário de juros baixos, que levam o país a atrair menos capital especulativo. Empresas também pagam dívidas em dólar e passam a se financiar mais na moeda nacional.

Nas últimas semanas, contudo, a pressão contra o real se intensificou com a crise internacional ocasionado pelo coronavírus. Com a cotação da divisa americana acima de R$ 4,70, o BC age para suavizar o movimento e evitar descontrole.

Em intervenções nos últimos dias, a autoridade monetária ofertou volume estimado em cerca de US$ 7 bilhões no mercado à vista. No ano passado, foram US$ 36,9 bilhões.

O BC está certo em atuar na crise, embora alguns economistas sugiram que as vendas devam seguir um programa anunciado, em vez de vendas pontuais. Acima de tudo, é imperativo obedecer ao princípio do câmbio flutuante —tentar administrar as cotações só alimentaria mais especulação.

A médio prazo, cabe avaliar o montante ideal de reservas. Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) sugerem que o país tem espaço para reduzir as reservas em volume significativo (algo entre 20% e 30%) e ainda manter um patamar tido como seguro. As circunstâncias importam, contudo.

Embora possa ser considerado natural que o BC se desfaça de parte dos dólares no momento em que o real está desvalorizado, reduzindo a dívida pública, qualquer decisão nesse sentido deve, no mínimo, aguardar a consolidação do longo e ainda claudicante processo de recuperação orçamentária.

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