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Maílson da Nóbrega

A vida difícil do Banco do Brasil

Sem o bônus de ser governo, BB mantém o ônus de ainda ser visto como tal

Maílson da Nóbrega

Ex-ministro da Fazenda (1988-1990, governo Sarney) e sócio da Tendências Consultoria

Rubem Novaes passou a integrar a lista dos presidentes do Banco do Brasil que duram pouco no cargo. Disse que estava cansado da realidade política de Brasília. Falou-se que teria recebido pressões do presidente Jair Bolsonaro para baixar a taxa de juros, a exemplo do que fizera a Caixa Econômica Federal. A comparação é absurda, mas não surpreendente no ambiente político da capital.

O BB já não goza de facilidades como a "conta de movimento", que lhe permitia sacar recursos ilimitadamente no Banco Central, a custo zero. Isso promoveu seu período áureo, entre 1965 e os anos 1970. Chegou a ser o oitavo maior banco do mundo, o que se justificava essencialmente pelo acesso sem peias a fontes governamentais.

Maílson da Nóbrega em jantar beneficente
Maílson da Nóbrega em jantar beneficente - Marcus Leoni - 13.set.18/Folhapress

Extinguir a "conta de movimento" (1986) constituía um imperativo. Anestesiado pelos recursos fáceis, o BB pouco cuidou de eficiência. Ao mesmo tempo, era proibido de exercer atividades típicas de um banco comercial. Nem era necessário.

Temeu-se que o fim da conta, em 1986, inviabilizasse o BB, mas isso não aconteceu. Os estudos sugeriram que, desconectado da torneira do BC, o Banco do Brasil deveria ser autorizado a atuar em todas as áreas do sistema financeiro. Deveria funcionar sem o suprimento de recursos oficiais, cuja continuidade se tornara insustentável.

O início foi difícil. Exigiu o apoio temporário do Tesouro, mas o BB venceu o desafio. Contratou consultorias internacionais, reestruturou-se, investiu no desenvolvimento de pessoal e passou a concorrer em pé de igualdade com os bancos privados. A empreitada foi bem-sucedida.

Mesmo assim, o BB ainda sofre os efeitos de empecilhos que limitam sua capacidade de se expandir com eficiência. Parte da sociedade e da classe política não percebem que o banco que emprestava muito dinheiro baratinho ficou para trás. Ainda prevalecem visões idealizadas de um passado de glórias artificiais, enquanto uma mentalidade estatista se opõe à privatização, sob o surrado argumento de suposto papel estratégico.

O BB tem acionistas privados no Brasil e no exterior. Está sujeito às regras do mercado de capitais e à supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas, por abuso de poder, seu controlador pode mandar que baixe seus juros. Foi assim com Dilma Rousseff. Pode assim ter pensado Jair Bolsonaro.

Sem o bônus de ser governo, o BB mantém o ônus de ser visto como tal. Tem sede em Brasília, o que não faz sentido. Em todo o mundo, bancos se concentram em determinadas cidades: Londres, Frankfurt, Paris, Tóquio, Nova York, São Francisco, São Paulo. Ganha-se a vantagem decorrente da aglomeração.

O BB muda a diretoria a cada quatro anos ou menos. Nenhum banco se submete a essa volatilidade administrativa, que prejudica políticas e estratégias. Sujeita-se a limites de investimento, inclusive em tecnologia, ditados pelo governo federal. Suas aquisições de equipamentos e serviços subordinam-se às complexas e limitantes reg ras da concorrência da administração pública direta. Por isso, não raramente, contestações judiciais atrasam sua modernização. E tem que prestar contas ao Tribunal de Contas da União (TCU).

O BB é proibido de remunerar seus talentos na forma como o fazem os concorrentes. Não por acaso, começou a perdê-los para outras instituições financeiras, o que era impensável alguns anos atrás. Suas iniciativas de marketing e propaganda podem ser interrompidas por uma ação de cima para baixo, como no comercial que realçava a diversidade de gênero, mandado suspender por Bolsonaro. O TCU fez o mesmo em outro caso.

O BB precisa livrar-se desses empecilhos que o amarram. A saída é a privatização, que o fará mais robusto e competitivo, inclusive para prestar maiores e melhores serviços ao país. Muitos de seus bons funcionários já perceberam essa realidade, que continua sendo negada por líderes sindicais e políticos ultrapassados. Até que a maioria seja convencida das vantagens da privatização, a vida vai continuar difícil para o Banco do Brasil.

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