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Daniel Douek

O judeu imaginário no Brasil de Bolsonaro

Comunidade pode cumprir papel importante na desconstrução da farsa

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Daniel Douek

Cientista social, mestre em letras pelo programa de Estudos Judaicos e Árabes da USP e diretor do Instituto Brasil-Israel

“Chamam de antissemita o governo mais pró-Israel da história”, ironizou Filipe Martins, ao rebater acusações de que teria feito um gesto supremacista durante sessão no Senado. Declarar apoio ao Estado de Israel é um expediente ao qual muitos integrantes e apoiadores do governo federal vem recorrendo sempre que episódios que flertam mais ou menos diretamente com o antissemitismo brotam em seu seio.

O assessor especial da Presidência foi além. Apresentou-se como “judeu”. Em que pesem desconfianças no modo como manipula as categorias identitárias em função da conveniência, não cabe entrar em discussões sobre a religiosidade de quem quer que seja.

Em meio a uma sessão do Senado, o assessor internacional da Presidência da República, Filipe Martins, é flagrado fazendo gesto ligado ao movimento supremacista branco às costas do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) - Reprodução

No entanto, examinar a carga simbólica que reivindicações da “israelidade” ou da “judeidade” desempenham socialmente no Brasil contribui para a compreensão do tamanho da armadilha em que nos metemos e pode, quem sabe, nos ajudar a sair dela.

Pouco antes das eleições de 2018, Bolsonaro buscou estabelecer vínculos com o Estado de Israel e com a “comunidade judaica”. O batismo no rio Jordão, em missão capitaneada pelo Pastor Everaldo, e a palestra no clube A Hebraica do Rio de Janeiro, depois da recusa do homônimo paulistano em recebê-lo, cumpriram enorme papel nessa empreitada.

Além de um aceno mais direto à base evangélica, a operação teve por objetivo tornar a imagem de Bolsonaro mais palatável à sociedade brasileira. Por um lado, a “adesão” das maiores vítimas do nazismo à sua candidatura foi usada para desconstruir a acusação de adversários de que o candidato era preconceituoso ou possuía algum tipo de afinidade com o ideário nazista. Por outro, o aplauso “judaico” a discursos discriminatórios “autorizou” a circulação de uma nova linguagem "politicamente incorreta” na esfera pública.

O então deputado federal Jair Bolsonaro é batizado nas águas do rio Jordão, em Israel - Reprodução

Bolsonaro tentou a mesma estratégia com mulheres, negros e homossexuais, mas embora tenha encontrado apoiadores em cada um desses grupos, em nenhum dos casos a narrativa soou convicente. Com os judeus, colou. Isso não teria sido possível sem o outro lado do espectro político-ideológico. Ignorando ou minimizando as manifestações de judeus contrários ao candidato e o fato de a comunidade judaica encontrar-se profundamente dividida, a exemplo do que acontecia no restante da população, parte da esquerda acreditou na ladainha, entregando esse capital simbólico a Bolsonaro e contribuindo para lavar a imagem do futuro presidente.

Se as diferenças entre Brasil e Israel na gestão da pandemia vem mostrando a dimensão do fosso que separa o Estado de Israel e o país fantasiado pelo bolsonarismo para lhe servir de modelo, os sucessivos episódios relacionados a movimentos supremacistas e à banalização do Holocausto evidenciam que o aceno que o governo Bolsonaro oferece aos judeus no Brasil, tal qual um abraço de urso, os coloca em risco.

Com população total de apenas 120 mil pessoas, a comunidade judaica brasileira compõe uma parcela insignificante do eleitorado. Mas assim como foi usada, junto à bandeira de Israel, na construção da imagem desse “novo Brasil”, pode cumprir um papel simbólico importante em sua desconstrução.

Para isso, serão necessários aliados, incluindo aqueles setores progressistas que não desconfiaram da narrativa do “apoio judaico a Bolsonaro” e agora celebram com prazer sádico quando referências antissemitas emergem em seu governo. Isso porque, no que depender do presidente e de seus apoiadores, vozes dissonantes seguirão sufocadas.

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