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Sonia Fleury e José Gomes Temporão

Acabar com os pobres, não com a pobreza

Além da desastrada política econômica, Paulo Guedes choca com declarações escabrosas

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Sonia Fleury

Doutora em ciência política e pesquisadora da Fiocruz

José Gomes Temporão

Ex-ministro da Saúde (2007-2010, governo Lula), médico sanitarista, membro titular da Academia Nacional de Medicina e pesquisador da Fiocruz

O título deste artigo parece ser o lema do ministro da Economia, Paulo Guedes, cujas investidas contra os direitos sociais dos pobres já são notórias: tentou desvincular do salário mínimo o valor do BPC (Benefício de Prestação Continuada); propôs aumentar cinco anos na idade de aposentadoria das trabalhadoras rurais; procurou desviar os recursos da contribuição previdenciária compulsória dos trabalhadores e empregadores para o mercado financeiro a título de capitalização; e defendeu o valor de apenas R$ 200 por quatro meses para o auxílio emergencial em 2020.

Apesar de o STF e o Legislativo terem atuado vetando a maior parte dessas medidas de subtração de direitos sociais dos trabalhadores e desvio de recursos públicos para o mercado financeiro, inclusive promovendo o aumento do valor do auxílio emergencial em 2020 para R$ 600, o projeto do ministro Guedes parece seguir intacto.

Não devemos esquecer a contribuição do ministro da Economia com sua desastrosa política econômica, que tem provocado o aumento do desemprego, da pobreza e da fome, antes mesmo do início da pandemia. O Orçamento aprovado para 2022 corta recursos até mesmo da saúde, enquanto o Banco Central eleva os juros a título de evitar a inflação de demanda, provocando críticas de qualquer economista de bom senso.

Enquanto os países desenvolvidos defendem o incremento de recursos públicos para aquecer e redirecionar o modelo econômico, assegurando renda mínima digna e empregos, nosso ministro faz previsões de crescimento econômico que nunca se realizam, ao mesmo tempo em que propõe medidas perversas que, ao invés de combater a pobreza, se direcionam para exterminar os pobres.

Em reunião recente do Conselho de Saúde Suplementar, alguns ministros presentes cometeram inconfidências. Enquanto o ministro da Casa Civil revelava que, sob orientação do governo, tomou a vacina escondido, Guedes acusou os chineses de produzirem o vírus e venderem uma vacina de qualidade duvidosa.

Essa afirmação escabrosa pode provocar mais atrasos e resistências para a importação da China dos princípios ativos essenciais para a produção das vacinas que o país desesperadamente necessita para interromper a mortandade, que já ultrapassa os 400 mil mortos. Defendeu a supremacia da tecnologia da vacina da Pfizer, que supôs desenvolvida pelos americanos, quando, na verdade, o foi por imigrantes turcos na Alemanha, demonstrando sua ignorância.

Causa perplexidade também que, diante do ministro da Saúde, afirmou que é preciso acabar com o SUS, substituindo-o por um "voucher" para que os beneficiários possam ser atendidos, se preferirem, nos mais caros hospitais privados de São Paulo. Na verdade, apenas membros do Congresso têm acesso a esses hospitais com dinheiro público. Tal conversa poderia ser compreendida como uma piada, se não estivéssemos diante da maior tragédia social, econômica e sanitária que o país já viveu, fomentada pela negligência do governo e pela necropolítica de buscar a imunidade de rebanho a todo custo.

O consenso formado em torno da importância do SUS para a redução dos danos da pandemia torna-se um alvo para o apetite demolidor do ministro Guedes na sua saga de destruição das políticas e direitos sociais. A existência do nosso sistema de saúde universal é motivo de orgulho para o país e resultado de décadas de trabalho e investimento que ampliaram a cobertura e o acesso, reduziu desigualdades e impactou positivamente os indicadores de saúde. Não há dúvidas que o SUS seja a mais importante política redistributiva no país.

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