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José Manuel Diogo

Agora eu era o herói

Lula e Sócrates são coincidências de pautas errôneas e oportunismos táticos

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José Manuel Diogo

Empresário e especialista em Intelligence

Como a água e o vinho, a nuvem e Juno ou a “estrada da beira” e a “beira da estrada”, como se diz em Portugal, José Sócrates e Lula da Silva se comparam apenas por uma razão: “para inglês ver”.

A única semelhança entre os processos do ex-premiê luso e do ex-presidente brasileiro é que ambos colocam em evidência a fraca qualidade do relacionamento entre o Judiciário e a política. E isso, no Brasil como em Portugal, interessa ao imenso “centrão”, que acolhe todos os corruptos e incompetentes, sejam eles juízes ou políticos.

O ex-premiê português José Sócrates aguarda decisão da Justiça em tribunal em Lisboa - Mario Cruz - 9.abr.21/Reuters

Apenas a vontade do destino fez coincidir no calendário fatos importantes da agenda (triste) que os dois políticos têm com a Justiça. Todo o resto são manifestos exageros e oportunismos táticos.

O fato de os dois homens serem amigos, contemporâneos de governo e falantes da mesma língua são coincidências que ajudam na construção de uma pauta errônea, que os dois partilham, mas apenas porque ela interessa —por motivos distintos— às suas causas pessoais.

Sócrates se defende em primeira mão no Brasil, aqui na Folha ("Perguntam-me o que foi a Operação Marquês", 11/4), antes de o fazer em casa; e Lula avança à televisão pública portuguesa que será recandidato à Presidência no Brasil, o que nem precisa fazer aqui. Estas são construções táticas de uma estratégia política, e delas não cabe mais dedução.

Os dois aparecendo "vis-à-vis" com o “país irmão”, romanticamente flertando com o longe e a distância, como escrevia Pessoa, buscam um novo fôlego para suas honras perdidas; mas, como acontece em “La trama”, de Borges, apenas porque o destino gosta de repetições, variantes e simetrias.

Os processos são diferentes em tudo. Na essência das pessoas, no que elas representam para o povo e no lugar que têm (terão) na história.

Imediatamente antes de serem presos, enquanto Sócrates admitia ser “o chefe democrático que a direita (portuguesa) sempre quis ter”, Lula dizia que não era um ser humano, apenas uma ideia. “E não adianta tentar acabar com as ideias.”

Lula estava fora do poder havia sete anos e saía do sindicato dos metalúrgicos; o português tinha acabado de perder as eleições e vivia luxuosamente em Paris. O Brasil, mesmo sofrendo com as ondas do "subprime", continuava sendo uma das grandes economias do mundo; Portugal, depois do governo de Sócrates, foi obrigado a pedir ajuda externa ao FMI e entrava na maior crise econômica desde a Revolução de 1974.

As sentenças de Lula, depois de validadas por juízes de todas as instâncias, foram anuladas pelo STF, que encontrou falta de imparcialidade no juiz (depois de escutas obtidas por um hacker poderem evidenciar isso). O ex-presidente ainda continua réu em outros processos, no Distrito Federal, em São Paulo e em Curitiba. Em Portugal não há nenhuma sentença: o julgamento de Sócrates ainda nem começou. Realmente ele escapou de acusações de corrupção, mas foi acusado de seis crimes, não inocentado de todos.

O processo de Lula (e o afastamento de Dilma Rousseff) acabou implicando a eleição de Jair Bolsonaro e a progressiva (e assustadora) destruição das instituições no Brasil; o processo de Sócrates não teve implicações ao nível da qualidade da democracia lusa e os “mesmos” socialistas estão atualmente no poder.

Mas a maior diferença vem da motivação do povo. Enquanto o Brasil sempre procura um herói, Portugal prefere sempre um culpado.

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Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do que foi publicado na primeira versão deste artigo, o Supremo Tribunal Federal anulou as sentenças do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após encontrar falta de imparcialidade do ex-juiz Sergio Moro e não falta de parcialidade. O texto foi corrigido. ​

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