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O que a Folha pensa

Caso Evaldo, 2 anos

Lenta, Justiça Militar ainda não julgou autores de 257 disparos contra músico

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Militares acertaram 62 disparos no carro em que estava o músico Evaldo Rosa dos Santos - José Lucena - 7.abr.19/Futura Press/Folhapress

Num domingo, 7 de abril de 2019, no Rio, militares do Exércio dispararam nada menos de 257 tiros —muito mais que os cerca de 80 divulgados de início— na direção do carro em que estavam o músico Evaldo Rosa dos Santos, seu sogro, sua mulher, seu filho, então com sete anos de idade, e uma amiga.

Evaldo morreu no local; o sogro foi internado, mas sobreviveu; o catador de lixo reciclável Luciano Macedo, que tentou ajudar a família, também foi atingido pelos disparos e morreu 11 dias depois.

Exatamente dois anos depois do assassinato brutal, ainda sem punição, a Justiça Militar adiou na última quarta-feira (7) o julgamento dos 12 militares envolvidos.

A morosidade do caso contrasta com a sua gravidade: depois de dois adiamentos, os atiradores somente foram ouvidos em dezembro de 2019, oito meses após o fuzilamento. Apresentam-se visões desconexas dos fatos, convergindo para a estratégia de culpar o catador morto na ocasião.

Em depoimento, fardados afirmaram que ele disparou em sua direção e havia assaltado um veículo momentos antes. Nenhuma arma, no entanto, havia sido encontrada com Luciano Macedo.

A defesa alega que os acusados agiram “no estrito cumprimento das leis, em atos de legítima defesa e regras de engajamento”.

Como se não bastasse a lentidão e as versões desencontradas, é no mínimo questionável que militares processados por crimes dolosos contra a vida de civis, durante atividades operacionais, sejam julgados pela Justiça Militar. A regra data de 2017, sancionada pelo então presidente Michel Temer (MDB).

À época, o Comando do Exército afirmou à Folha que a medida “torna mais rígida e célere a punição de crimes e abusos cometidos por esses representantes do Estado nas operações de GLO [Garantia da Lei e da Ordem]”.

Os autores dos 257 tiros nem sequer participavam de operação de GLO —modalidade da qual se abusou no país nos últimos anos para o enfrentamento de crises de violência, quando seria preferível o emprego de policiais cedidos à Força Nacional de Segurança Pública.

Os homens que mataram Evaldo realizavam patrulhamento regular no perímetro de segurança da Vila Militar, onde ocorreu a tragédia. Quando militares se aventuram a fazer policiamento sem o mandato legal, o treinamento e o controle necessários, é grande o risco de brutalidades como essa.

editoriais@grupofolha.com.br

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