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Daniel Douek

Um enfrentamento simétrico e assimétrico

Ignorar dualidade impossibilita encontrar meios de superá-la

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Daniel Douek

Cientista social, é mestre em letras pelo Programa de Estudos Judaicos e Árabes da USP e diretor do Instituto Brasil-Israel

A complexidade do conflito israelo-palestino advém do fato de ele ser, simultaneamente, simétrico e assimétrico. Desconsiderar essa dualidade implica risco de reduzir a onda de violência a um desejo irracional de subjugação ou destruição do outro, tornando-se inviável não apenas compreender o que se passa como, também, identificar caminhos que possibilitem superá-la.

As imagens das ruínas da Faixa de Gaza e a diferença no número de mortos em cada um dos lados são suficientes para indicar que a batalha que opõe um Estado nacional a um grupo paramilitar é indubitavelmente assimétrica. Ademais, a presença militar israelense em territórios palestinos desde 1967 divide as populações em “ocupantes” e “ocupados”. Não há simetria possível num contexto como esse.

Entretanto, as aspirações nacionais de israelenses e palestinos, que anseiam pelo exercício de sua autodeterminação em liberdade, paz e segurança, são absolutamente simétricas. Trata-se de duas sociedades compostas majoritariamente por refugiados, que não têm outro lugar para ir.

O problema é que os envolvidos criam uma confusão proposital entre os aspectos simétricos e assimétricos, de modo a promover como “justos” os seus próprios projetos injustos e sufocar as demandas justas do adversário, classificando-as como “injustas”.

Tomemos, por exemplo, o principal slogan do movimento nacional palestino: “Palestina Livre”. São duas palavras que carregam diferentes acepções, condensando (e encobrindo) projetos políticos variados.

“Palestina” pode significar os territórios de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Mas pode significar, para além desses, os territórios onde hoje está localizado o próprio Estado de Israel. “Livre” pode significar “livre da ocupação militar israelense dos territórios conquistados em 1967”. Mas pode significar, num caso extremo, “livre de judeus”.

Em todas as suas combinações, “Palestina Livre” vai de uma exigência legítima, baseada na legislação internacional, até um programa antissemita de destruição de Israel e expulsão de seus habitantes.
É precisamente por isso que o slogan pode ser usado por grupos tão distintos como o Fatah, que defende a criação de um Estado palestino ao lado do Estado de Israel, e pelo Hamas, que quer um Estado palestino no lugar do Estado de Israel e se vale do terrorismo contra a população civil judaica.

Há um paralelo no caso de Israel. O governo afirma estar apenas garantindo a “segurança” de seus cidadãos, o que também encontra respaldo na legislação internacional. No entanto, esse direito tem sido utilizado para justificar ataques a Gaza, que acabam atingindo a população civil, e o confisco de terras palestinas. O trajeto do muro que separa israelenses e palestinos, adentrando a Cisjordânia e incorporando assentamentos judaicos, é um exemplo concreto desse expediente.

Para quem está no Brasil e tem o compromisso com os direitos humanos de uns sem ameaçar os direitos humanos de outros, o desafio é separar os projetos que atravessam as categorias nacionais totalizantes de “israelenses” e “palestinos”. É preciso estar atento para não cair na armadilha da propaganda que vende o programa de destruição do Estado de Israel e a expulsão dos judeus como luta pela liberdade do povo palestino —e o programa de ampliação das fronteiras de Israel e de perpetuação da ocupação como luta pela segurança.

Questionar o que se está querendo dizer quando se fala em “Palestina Livre” ou “segurança de Israel” é um primeiro passo.

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