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Raul Cutait

Casos de moléstia diverticular, como o do papa Francisco, crescem no mundo ocidental

Estados Unidos gastam anualmente mais de US$ 2 bilhões com o tratamento da doença

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Raul Cutait

Professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, cirurgião digestivo do Hospital Sírio-Libanês e membro da Academia Nacional de Medicina

O mundo acompanha a evolução do papa Francisco, recém-operado por moléstia diverticular, que, nas últimas décadas, é diagnosticada em escala crescente no mundo ocidental.

Essa doença se instala ao longo do cólon e consiste no aparecimento de divertículos, pequenas hérnias de mucosa que atravessam a camada muscular do intestino. São encontradas em cerca de 40% a 50% da população ocidental acima dos 60 anos.

A grande maioria das pessoas é assintomática. Menos de 1% delas apresenta hemorragia como complicação, a qual ocorre principalmente a partir dos 70 anos, cessando espontaneamente em 70% a 75% dos pacientes. Cirurgia de urgência ocorre apenas quando a perda de sangue é intensa e não se soluciona com medidas de suporte e endoscópicas.

No entanto, a complicação mais comum é a diverticulite aguda, que ocorre em 3% a 5% das pessoas com divertículos. Ela aparece em decorrência de inflamação e infecção de algum divertículo, principalmente entre os 40 e 60 anos, mas que pode também se manifestar em faixas etárias mais avançadas.

A diverticulite aguda dita não complicada é a forma clínica mais comumente observada. Em geral, compromete o sigmoide no mundo ocidental e, por razões não entendidas, o cólon direito em pessoas do extremo Oriente.

O sintoma preponderante é o de dor no quadrante inferior esquerdo do abdome, acompanhado ou não de febre, que costuma regredir com medidas conservadoras. Embora ao redor de 20% dos pacientes com a forma não complicada possam vir a apresentar novos episódios de diverticulite aguda, estas são quase sempre resolvidas com o tratamento clínico e não costumam requerer cirurgia.

Contudo, alguns desses pacientes evoluem com alterações crônicas da parede do intestino, que passa a se distender menos que o habitual, podendo causar até estreitamento do órgão, levando a cólicas que não melhoram com as medidas clínicas, tais como dieta rica em fibras vegetais e antiespasmódicos.

Nesses casos, que parecem ser o do papa, caracteriza-se a denominada forma intratável da diverticulite, e o paciente pode se beneficiar de uma cirurgia eletiva, a qual consiste na ressecção do segmento intestinal enfermo e que comumente é realizada por via laparoscópica.

A situação clínica mais crítica é a da perfuração de um divertículo, causando peritonite, condição esta felizmente pouco frequente, mas que demanda cirurgia de urgência.

Como é cada vez mais frequente em medicina, busca-se prevenir o desenvolvimento de doenças. No caso da moléstia diverticular e de suas complicações, as causas parecem ser multifatoriais e incluem fatores genéticos, condições pessoais e hábitos de vida, onde sobrepeso, tabagismo, uso abusivo de álcool e miocardiopatia isquêmica podem figurar como fatores de risco, enquanto exercícios físicos intensos, níveis altos de vitamina D e, em especial, dieta rica em fibras vegetais possuem, tudo indica, um efeito protetor.

Para finalizar, tudo tem custos. Para se ter ideia do impacto, nos Estados Unidos gastam-se anualmente mais de US$ 2 bilhões com o tratamento da moléstia diverticular sintomática. Lamentavelmente, não temos os dados equivalentes no Brasil, mas sem dúvida nosso sistema de saúde é onerado.

Por enquanto, aguardamos novas informações que possam permitir atitudes preventivas eficazes em relação à moléstia diverticular e suas complicações.

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