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Ricardo Viveiros

No espelho do tempo, o rosto de Nero

O ministério do bom senso adverte: a história ensina, alerta e previne problemas

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Ricardo Viveiros

Jornalista, professor e escritor, é doutor em educação, arte e história da cultura; autor, entre outros, de ‘A Vila que Descobriu o Brasil’ (Geração), ‘Justiça Seja Feita’ (Sesi) e ‘Pelos Caminhos da Educação’ (Azulsol)

Há 1.953 anos morreu Nero, imperador de Roma. Dos quatro membros da dinastia júlio-claudiana, apenas Cláudio, o penúltimo, tentou a prosperidade de Roma. A esposa Messalina conspirou contra ele e foi condenada à morte. Naquele tempo, liberdade era algo perigoso, e divergir dos poderosos, um crime grave.

O primeiro reinado da polêmica dinastia foi de Tibério, que não promoveu as necessárias reformas políticas, econômicas e sociais. Com o tempo, Tibério tornou-se paranoico. Imaginando conspirações e golpes, mudou-se para a ilha de Capri, de onde governou até a morte. Seu apego ao poder era tão grande que mandou matar boa parte de seus familiares e ordenou o assassinato de senadores, provocando um período de muito medo e insegurança.

O sucessor, Calígula, cresceu nesse ambiente e se mostrou igualmente instável e desequilibrado mental. Entre outros absurdos, nomeou seu cavalo, Incitatus, cônsul romano. As perseguições tornaram-se prática durante seu reinado, muitas famílias foram executadas. O exercício da violência, alimentando uma cultura do ódio, se estendeu pelos períodos seguintes de Cláudio e Nero.

Em 68 d.C., a classe política havia chegado ao limite diante da instabilidade política. Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus, indicado pelo tio Cláudio, governou de 13 de outubro de 54 d.C. até sua morte, a 9 de junho de 68 d.C.. O reinado de Nero está associado à tirania, ao populismo e à extravagância. Marcado por execuções sistemáticas, incluindo a da própria mãe e a do meio-irmão, Britânico, sem falar do assassinato de uma esposa grávida. Entre as imagens que se eternizaram está a de Roma queimando, incêndio supostamente ordenado por Nero, enquanto tocava sua lira. O histrionismo, unido ao desejo pueril de ser aplaudido, levou-o a participar de corridas de biga.

Aliados políticos e populares, que o viam como mito, eram os principais conselheiros de Nero. Mesmo com histórico de atleta, Nero conduziu um carro de dez cavalos e quase morreu ao sofrer uma queda. Embora não fosse o melhor dos participantes, ganhou todas as coroas de louros e as expôs ao público em um desfile. As vitórias de Nero nas competições são atribuídas ao poder e ao suborno dos juízes.

A estátua do imperador romano Nero (à esq.) é retratada na exposição "Nero", em Roma - Alberto Pizzoli - 11.abr.11/AFP

Depois de muitos erros e de arruinar as finanças romanas de modo irresponsável, como na construção do seu palácio dourado, Nero foi declarado inimigo do Estado e fora da lei. Fugiu, acompanhado apenas pelo secretário Epafrodito, e se suicidou antes de ser apanhado pela guarda pretoriana que lhe perseguia. O imperador mentiu até a morte: foi o fiel secretário quem, a seu pedido, o apunhalou. As últimas palavras de Nero comprovam sua infinita vaidade e a certeza de que, como político, era um enorme canastrão: “Que grande artista morre comigo!”.

Irresistível não comparar o passado com fatos atuais: populismo, vaidade pessoal, atitudes despóticas, mentiras, desfiles gloriosos, intenção em se perpetuar no poder e outras similitudes. O ministério do bom senso adverte: a história ensina, alerta e, até mesmo, pode prevenir problemas.

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