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Antonio Isuperio

Carta aberta a Ícaro Silva

'Como se vê, o branco obedece a um complexo de autoridade, a um complexo de chefe'

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Antonio Isuperio

Arquiteto e ativista antirracista e LGBTQIA+, é diretor de relações internacionais do Retail Design Institute (EUA)

O meu ímpeto de colonizado era fazer carta aberta ao opressor, mas me lembrei de Toni Morrison quando diz que "a função séria do racismo é a distração. Isso impede você de fazer o seu trabalho. Isso mantém você explicando, repetidamente, sua razão de ser". Então respirei e estou aqui escrevendo da forma que acredito ser a mais adequada no estado emocional que tenho disponível agora depois de ver toda essa polêmica com o ator Ícaro Silva, que criticou o reality show global Big Brother Brasil.

Nada do que eu disser aqui você já não sabe, mas acho que é importante escrever neste espaço aberto, contanto que outras pessoas estejam abertas a ver e a ouvir a nossa história e a importância que tem na minha vida, na nossa vida e na vida de uma legião de negros LGBTQIA+ que sobrevivem neste país que insiste, a todo momento, em nos eliminar.

O ator Ícaro Silva e o apresentador Tiago Leifert brigam pelas redes sociais - Folhapress/Globo

Ícaro, meu querido, você é um dos maiores artistas de nossa geração e, além de ator e galã, é um performer fenomenal e nos deixa com orgulho por onde passa. Ver você como o Rafa, de "Malhação", com aquele black power, era um sinal de esperança de quem, do lado de cá da TV, ainda não tinha a consciência racial que tem hoje e que, quase 20 anos atrás, não compreendia que a televisão era um espaço exclusivo de pessoas brancas —e isso no segundo país mais negro do mundo.

Com mais de 22 anos de carreira, é bem provável que muitas pessoas o tenham conhecido apenas neste episódio (e muitos nem neste episódio), o que demonstra o quanto continuamos a ser apagados pela história mesmo 500 anos depois. Toda essa dinâmica mostra que as pessoas que estão no poder ainda nos querem calados e subservientes, mesmo depois de tudo, de George Floyd, de Marielle Franco.

É devastador ver o pacto da branquitude, que mesmo sem entender todas as camadas deste gesto absurdo de prepotência, estavam lá saudando a arrogância que nem mesmo conseguem enxergar porque ela é dada desde o nascimento. Essas pessoas se sentem muito confortáveis em continuar a financiar tal estrutura de poder, porque por meio dela, disfarçadamente vestida de meritocracia, é que se garante o privilégio sobre todos nós e a todo momento.

Propor um questionamento de forma ameaçadora sobre seus projetos e trabalhos para 2022 é uma face das perversidades que já conhecemos e que continuamos vendo a todo momento. Após eu questionar a ausência de pessoas negras em uma foto de funcionários de uma grande empresa de carros alemã, a esposa do responsável pela postagem (e pela marca no Brasil) se sentiu na completa liberdade de me mandar um mensagem privada dizendo que eu estava exercendo discurso de ódio. Eles não sabem o que é discurso de ódio.

Querido, tive que sair do país porque mesmo preenchendo todos os requisitos meritocráticos (experiência profissional e acadêmica internacional, MBA em universidade de renome e inglês fluente), eu nunca fiz o "perfil" dessas empresas. Tive que aceitar uma proposta de outro país, daqui onde te escrevo esta carta. O meu país não me ofereceu a oportunidade de viver nele, amigo. Eu fui "naturalmente" expulso.

O seu corpo, querido Ícaro, além de político, representa tudo que este nosso Brasil em constante crise de identidade odeia. Você é o sonho de nossos ancestrais e de muitos de nós. A sua presença em espaços de visibilidade representa o hackeamento do fascismo, que cada vez mais cresce perante o desserviço político que estamos vendo nestes últimos anos.

Este país não esta pronto para o seu brilho —nem sei se estará enquanto estivermos em vida. Ah, e já que não foi feito um pedido de desculpas após a violência cometida em simular o pagamento de seu salário, saiba que seremos eternamente grato pela sua trajetória e por resistir em permanecer nestes espaços que são absurdamente hostis para todos nós.

"Como se vê, o branco obedece a um complexo de autoridade, a um complexo de chefe (...). O branco quer o mundo, ele o quer apenas para si mesmo. Ele se descobre senhor predestinado deste mundo. Ele o escraviza. Estabelece-se entre o mundo e ele um vínculo apropriativo." (Frantz Fanon​)

Um grande abraço!

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