Descrição de chapéu Eleições 2018

Miríade de alianças faz candidatos do Ceará omitirem presidenciáveis

Adversários nacionalmente, Cid Gomes, Camilo Santana e Eunício se unem em chapa local do PT

Daniel Carvalho
Russas (CE)

A sobrevivência eleitoral de alguns políticos criou um palanque no mínimo eclético no Ceará. Resultado disso é que, em eventos conjuntos, ninguém pede votos para qualquer candidato à Presidência da República. A salada de frutas eleitoral envolve duas coligações diferentes.

De um lado, estão o atual governador do estado, Camilo Santana (PT), que tenta se reeleger, e o candidato ao Senado Cid Gomes (PDT). Eles têm 16 partidos: PT, PDT, PP, PSB, PR, PTB, DEM, PC do B, PPS, PRP, PV, PMN, PPL, PATRI, PRTB e PMB.

O presidente do Congresso Nacional, senador Eunício Oliveira (MDB), tem oito legendas em sua coligação oficial (MDB, PHS, Avante, SD, PSD, PSC, PODE e PRB).

Candidato ao Senado, Cid Gomes (PDT) discursa ao lado do governador Camilo Santana (PT) e do senador Eunício Oliveira (MDB) - Daniel Carvalho/Folhapress

Em tese, os dois grupos seriam adversários, já que montaram alianças diferentes. Mas resolveram fazer uma composição que lembra o poema “A Quadrilha” (“João amava Teresa, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili que não amava ninguém”), de Carlos Drummond de Andrade.

Na versão cearense, Cid apoia o irmão Ciro Gomes (PDT) para presidente da República. No entanto, Ciro se refere a Eunício com termos como “picareta” e “ladrão”.

Acontece que Cid também apoia Eunício, que, apesar de ter votado pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), aliou-se ao governador do PT e, juntos, pedem votos para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Acho que não tem coerência. Votou numa coisa e, agora que está ficando complicado, muda”, diz o motorista Alexandre Neto, 30, que também é eclético: diz apoiar Lula, mas, caso o candidato não dispute a eleição por estar preso, afirma que votará em Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo pesquisa Ibope divulgada em 16 de agosto, Eunício tem 37% das intenções de voto, atrás apenas de Cid, com 55%.

"Isso é coisa da política”, opina o ambulante Francisco Costa, 41, que, na noite de quinta-feira (30) foi com o amigo à praça principal de Russas, a 168 km de Fortaleza, para acompanhar o primeiro comício do grupo na cidade de cerca de 70 mil habitantes, sendo 53 mil deles eleitores.

O palanque tinha no fundo um banner imenso com os rostos de Camilo, da vice dele, Izolda Coelho (PDT), e de Cid Gomes. Ao lado do palco, outra lona esticada trazia novamente a face do governador e de candidatos a deputado federal e estadual.

Pouco depois das 19h, horário marcado para o início do ato, chegaram quatro bandeirões verdes com o rosto, o nome e o número de Eunício. De maneira improvisada, os retângulos de pano foram amarrados nas extremidades do palco, inserindo o senador da outra coligação no ambiente.

Mais de uma hora depois, os carros dos candidatos encostaram na praça Manuel Matoso Filho. Com 300 metros quadrados de extensão, o local não chegou a lotar em momento algum.

A frente do palco foi ocupada pela militância paga (entre R$ 30 e R$ 50, segundo algumas pessoas) que carregava bandeiras dos candidatos.

Em busca de votos, sem terno e apenas com camisa social, eles não se esquivaram de fazer selfies, beijar crianças e abraçar eleitores.

Adesivos e santinhos dos candidatos eram distribuídos aos presentes —a reportagem recebeu 19 deles de uma apoiadora de Eunício.

Atrás de cada peça, uma cola apenas com os números de Santana, Eunício e Cid preenchidos. No material de todos os candidatos, o espaço designado ao número para presidente estava vazio.

Para ganhar a simpatia dos conterrâneos, um candidato a deputado federal distribuiu cópia de sua carteira de identidade com o nome da cidade de origem, Russas, ampliado.

Ao citar o prefeito do município, Weber Araújo (PRB), Eunício o elogiou por "aceitar a divergência" e "compreender que as pessoas deste estado pensam de uma forma ou pensam de outra".

Ao falar de Cid —além de irmão, coordenador da campanha presidencial de seu desafeto Ciro—, disse que ele "merece o aplauso e o voto do povo do Ceará".

O presidente do Congresso enumerou obras que atribuiu "às mãos do senador Eunício Oliveira", por meio de emendas parlamentares, e citou a crise, sem mencionar o presidente Michel Temer (MDB), seu correligionário, que tem rejeição de 79% no Nordeste, segundo pesquisa Datafolha de 22 de agosto. 

Nacionalmente, o percentual de ruim/péssimo é de 73% nessa mesma pesquisa.

"Enquanto o Brasil está parado, o estado do Ceará foi o que mais cresceu em termos de geração de emprego nos últimos três meses”, afirmou, pedindo votos para ele, Cid e Santana.

Eunício encerrou sem fazer referência a qualquer presidenciável, como tem feito em outros discursos e entrevistas. Já afirmou que vota em Lula e que “eleições livres são eleições com Lula".

A explicação veio logo em seguida, no discurso de Cid Gomes, que também pediu voto para Eunício. "Eu não vou falar de presidente da República porque este palanque tem mais de um candidato à Presidência da República e nós fizemos um acordo de os candidatos majoritários não tratarem de candidatura à Presidência da República”, afirmou Cid.

O candidato limitou-se a dizer que os candidatos defendidos por quem estava naquele palco eram os do campo democrático e os que realmente querem servir ao povo.

Após o ato, Cid disse à Folha que, como o palanque comporta 24 partidos, é natural que haja mais de um candidato e minimizou o constrangimento da aliança local a Ciro Gomes.

"O Ciro tem o direito de falar e defender [nomes] e eu também tenho. Estou numa conjuntura aqui em que o governador quis apoiar o Eunício. Em homenagem a ele, eu estou apoiando", afirmou Cid Gomes.
Eunício disse não ter desafetos, que é preciso "ultrapassar a barreira da vaidade" e, sobre os ataques pessoais feitos por Ciro contra ele, afirmou que "a democracia aceita tudo".

"É possível que homens públicos, que disputam em determinado momento eleições, se juntem não para a reeleição de um ou de outro, mas para ajudar o desenvolvimento de um estado pobre como este", disse Eunício ao deixar o ato.

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