PF faz buscas em endereços de Kassab, investigado após delação da JBS

Investigadores encontraram R$ 300 mil em espécie no apartamento do ministro

Reynaldo Turollo Jr. Gustavo Uribe
Brasília

A Polícia Federal cumpre, na manhã desta quarta-feira (19), oito mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao ministro Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia e Comunicações) e outros investigados por um suposto esquema de recebimento de recursos ilícitos de 2010 a 2016.

A medida foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e é decorrente da delação da JBS. Um dos donos do frigorífico, Wesley Batista, afirmou que pagou propina de R$ 350 mil por mês a uma empresa ligada a Kassab, a Yape Consultoria e Debates, envolvendo contratos superfaturados de aluguel de caminhões. O valor total atingiria cerca de R$ 30 milhões, segundo o delator.

A PF encontrou R$ 300 mil em espécie no apartamento de Kassab em São Paulo.

Em entrevista à rádio CBN, o ministro afirmou que guarda esse valor em casa porque teve seus bens bloqueados como consequência de um processo por improbidade administrativa. 

"Esses recursos possuem comprovação jurídica, cumprem todos os requisitos legais", afirmou. "[Os recursos] estão associados a bloqueio de bens. Todos sabem que por conta dos bloqueios dos meus bens tenho, infelizmente, que conviver com recursos em vez de manusear cheques".

Kassab disse ainda que não possui nenhuma relação ilícita com a JBS.

"[A Yape Consultoria e Debates] tem uma relação de natureza comercial, de prestação de serviços [com a JBS], tudo comprovado e enviado ao Poder Judiciário. Essas relações se iniciaram inclusive antes mesmo dos atuais proprietários serem donos da empresa".

O ministro interrompeu a entrevista, desligando o telefone, quando a âncora tentou fazer uma última pergunta. 

Kassab, do PSD, será o chefe da Casa Civil do governo João Doria (PSDB) a partir de janeiro.

De acordo com Wesley, seu grupo herdou esse contrato ao comprar o frigorífico Bertin, em 2009, e decidiu manter os pagamentos por considerar que Kassab poderia, em algum momento, exercer influência para favorecer sua empresa.

Um inquérito foi aberto no STF em fevereiro deste ano. Também é investigado um suposto pagamento de R$ 28 milhões ao diretório nacional do PSD, na época presidido por Kassab, com o objetivo de comprar o apoio da sigla em favor do PT nas eleições presidenciais de 2014, quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi reeleita.

Segundo a PF, parte do dinheiro também teria sido encaminhada para a campanha de um candidato ao governo do Rio Grande do Norte e a um deputado federal, que foram eleitos naquele estado. Os envolvidos seriam o governador Robinson Faria (PSD) e seu filho, o deputado Fábio Faria (PSD-RN).

Um inquérito sobre os dois e a JBS já foi arquivado no Supremo. Mas, no âmbito da investigação sobre Kassab, surgiram novas informações que levaram a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a pedir esclarecimentos aos delatores Wesley e Ricardo Saud, ex-executivo do grupo J&F, que controla a JBS. 

“Suspeita-se que os valores eram recebidos por empresas, através da simulação de serviços que não foram efetivamente prestados e para os quais foram emitidas notas fiscais falsas”, informou a PF sobre as investigações.

Cerca de 40 policiais participam da operação nesta quarta em São Paulo e no Rio Grande do Norte. As suspeitas apontam para os crimes de corrupção passiva e caixa dois eleitoral.

Outro lado

Em nota, Kassab disse ter confiança na Justiça brasileira e que está à disposição das autoridades judiciais.

"O ministro confia na Justiça brasileira, no Ministério Público e na imprensa, sabe que as pessoas que estão na vida pública estão corretamente sujeitas à especial atenção do Judiciário, reforça que está sempre à disposição para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários e ressalta que todos os seus atos seguiram a legislação e foram pautados pelo interesse público", declarou.

Segundo pessoas ligadas à investigação, foram autorizadas também as quebras dos sigilos telefônico de Kassab e bancário do ministro e de suas empresas.

A suspeita é de que os negócios familiares eram utilizados para lavagem de dinheiro. As autorizações foram baseadas em pedido da PGR (Procuradoria Geral da República), no rastro do escândalo da JBS. ​

O governador eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou em nota que confia na Justiça e no amplo direito de defesa de Kassab. 

 
"A propósito das medidas tomadas em relação ao ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, o governo João Doria confia na conduta da Justiça e no amplo direito de defesa do ministro para os esclarecimentos necessários", diz nota enviada através de sua assessoria de imprensa.
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