Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

'Tá na cara que tem coisa errada aí', diz Bolsonaro sobre movimentações do governo Temer

Presidente concedeu primeira entrevista após posse ao SBT

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quinta-feira (3) que o pente fino que passa no governo de seu antecessor, Michel Temer, pode ser justificado pois "tá na cara que tem muita coisa errada".

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, havia afirmado mais cedo que o novo governo identificou "uma movimentação incomum de exonerações e nomeações e recursos destinados a ministérios" nos últimos suspiros da gestão anterior.  

Bolsonaro elencou algumas iniciativas que levantaram desconfiança de sua equipe em sua primeira entrevista após assumir o Palácio do Planalto, concedida ao SBT, uma das emissoras exaltadas pelo público que assistiu à sua posse.

O presidente Jair Bolsonaro chega para visitar as instalações do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), coordenado pelo ministro General Augusto Heleno
O presidente Jair Bolsonaro chega para visitar as instalações do GSI, coordenado pelo ministro General Augusto Heleno - Pedro Ladeira/Folhapress

Uma delas: o desenvolvimento de uma criptomoeda indígena, parceria entre a Funai (Fundação Nacional do Índio) e a UFF (Universidade Federal Fluminense) —já suspenso pela ministra de Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. O projeto custaria em torno de R$ 44 milhões. 

Ele também pôs a Lei Rouanet sob sua mira ao citar um projeto promovido pela estatal Furnas  "para duas corridas em comunidades pacificadas" no Rio, uma delas sendo o morro do Borel.

"Se não me engano", disse Bolsonaro, para justificar a inadequação da proposta, as ruas de lá têm "uma inclinação de 60 graus". Fora que o valor seria alto demais (R$ 100 mil por corrida). "Tá errado uma coisa aí."

O presidente não especificou que projeto era esse, mas disse que ele promove o esporte —há leis de incentivo fiscal para tanto, mas em geral elas ficavam sob alçada do Ministério do Esporte, e não da pasta da cultura, que controlava a Lei Rouanet. 

Bolsonaro também destacou que o Ministério do Turismo encomendou uma consultoria para "abrir uma representação para estimular turismo no Brasil", que custou R$ 3 milhões, um valor que lhe pareceu desproporcional para a tarefa. 

Questionado se poderia haver indícios de corrupção aí, respondeu: "Tá na cara que tem muita coisa errada. [...] Qualquer um de nós poderia fazer algo parecido com uma consulta na internet." 

Bolsonaro voltou a expressar admiração por Donald Trump, a quem espera encontrar em março, e disse que entende não ser prioridade para o colega americano. "Reconheço minha posição, sabemos que Trump é o jomem mais poderoso do mundo."

O brasileiro contou ter sinalizado "que em março gostaria de visitar os EUA e ter uma conversa com Trump". Disse que o encontro, "a princípio, está pré-acertado".

Outra viagem internacional na mira: Davos, para o Fórum Econômico Mundial, em janeiro. Por isso, disse, adiou em uma semana sua cirurgia para retirada da bolsa de colostomia. 

Na entrevista, que durou cerca de meia hora, Bolsonaro foi perguntado sobre por que evocou a necessidade de expurgar o socialismo do Brasil, já que o sistema nunca foi implementado no país.

"Pô, nunca teve graças às Forças Armadas", rebateu o presidente, que em mais de uma ocasião defendeu o regime militar como algo necessário para livrar o Brasil da ameaça comunista que pairava sobre a guerra fria.

O mais novo presidente brasileiro afirmou que "[Leonel] Brizola pregava abertamente" o socialismo e que o cubano Fidel Castro "sempre apoiou aqui o pessoal que estava do outro lado".

"Alguém quer regime semelhante que tem em Cuba, na Venezuela?", indagou.

Sobre Adélio Bispo de Oliveira, o homem que o esfaqueou em setembro, Bolsonaro ventilou mais uma vez a tese de que o ataque não foi ato de um lobo solitário —faria parte de um esquema maior.

"O elemento era filiado ao PSOL", disse sobre Adélio, que foi da sigla, mas sem grande participação partidária. "E quatro advogados se apresentaram [para defendê-lo], um pegou jatinho particular."

Isso seria coisa, segundo o presidente, "de gente com dinheiro e preocupada em [Adélio] não abrir a boca".

Bolsonaro afirmou que, fosse o candidato do PT o alvo do atentado, seu eleitorado provavelmente lincharia o sujeito na hora. E completou: "Espero que ele confesse".

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