Ao tirar sigilo sobre pedido de Deltan, juíza da Lava Jato criticou reportagem da Folha

Gabriela Hardt comentou caso em despacho feito em decorrência de pedido de procurador

São Paulo

A juíza federal Gabriela Hardt, que atua na Lava Jato no Paraná, criticou a Folha e disse que o jornal por "princípios éticos" não deveria publicar uma das reportagens apuradas com base em mensagens obtidas pelo site The Intercept Brasil.

A manifestação da juíza foi feita em despacho na última quarta-feira (24), em decorrência de pedido inicial do procurador Deltan Dallagnol para que fosse retirado o sigilo de um documento em processo judicial. 

A juíza federal Gabriela Hardt, substituta da Vara da Lava Jato em Curitiba
A juíza federal Gabriela Hardt, substituta da Vara da Lava Jato em Curitiba - Estelita Hass Carazzai - 13.mar.19/Folhapress

Durante apuração de reportagem que mostrou que Deltan foi pago para fazer palestra para uma empresa mencionada em delação da Lava Jato, o procurador foi questionado pelo jornal sobre o assunto. 

Ele disse que já tinha pedido seu afastamento, por razões de foro íntimo, do procedimento referente ao caso, que envolve o acordo de delação do lobista Jorge Luz.

O Ministério Público Federal, então, pediu à Justiça que parte do sigilo sobre esse episódio fosse levantado para que Deltan pudesse comprovar que havia tomado a iniciativa.

Antes da publicação da reportagem, Hardt concordou com o pedido de Deltan e o autorizou a enviar o ofício à Folha.

No despacho, a juíza criticou a divulgação de informações sobre a delação pelo jornal antes do fim das investigações.

"A publicização de investigação pendente acarretará notório prejuízo às apurações, eventual prejuízo à colheita de provas, à recuperação de ativos criminosos e à punição de pessoas envolvidas em crimes", escreveu ela.

Ela afirmou que "quem perde com a publicização é a sociedade". 

"Quero crer que por princípios éticos —antes de qualquer elucubração a respeito de eventual crime pela divulgação de dado eventualmente obtido por meios ilícitos— o órgão de imprensa mencionado deixe de publicar os dados da presente investigação."

A reportagem foi publicada na Folha nesta sexta-feira (26). Ela mostra que o procurador da Lava Jato recebeu R$ 33 mil por palestra ministrada em Florianópolis em 2018. Quatro meses após o evento, ele contou a outros procuradores em um chat que havia descoberto a citação à empresa na delação de Jorge Luz. 

A situação levou Deltan e outros procuradores que haviam mantido contato com a Neoway a deixar as investigações relativas ao delator.

Hardt é juíza substituta da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Lava Jato no Paraná. Ela está interinamente à frente da operação porque o juiz titular, Luiz Bonat, está em férias. 

A juíza também substituiu o ex-juiz Sergio Moro na Lava Jato de novembro do ano passado a março deste ano. Em fevereiro, foi a autora da sentença que condenou em primeira instância o ex-presidente Lula a 12 anos e 11 meses de prisão no caso do sítio de Atibaia (SP).

O caso está em fase de apelação no segundo grau.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do afirmado em versão anterior deste texto, foi o Ministério Público Federal, por meio de uma procuradora, que pediu o levantamento do sigilo dos documentos relacionados à atuação de Deltan Dallagnol no caso.
 

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.