'Se foi ilegal, a gente vê lá na frente', diz Bolsonaro sobre chefe da Secom

Presidente ataca Folha e afirma que Fabio Wajngarten permanece no cargo

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar a Folha e afirmou nesta quinta-feira (16) que Fabio Wajngarten, chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência), permanecerá no cargo após a revelação de que ele possui uma empresa que recebe dinheiro de contratadas do governo.

"Se foi ilegal, a gente vê lá na frente. Mas, pelo que vi até agora, está tudo legal, vai continuar. Excelente profissional. Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele", disse o presidente ao sair do Palácio da Alvorada. 

Nesta quarta (15), a Folha revelou que o Wajngarten recebe, por meio de uma empresa da qual é sócio, dinheiro de emissoras televisivas e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria, ministérios e estatais do governo Bolsonaro. A Secom é a responsável pela distribuição da verba de propaganda do Planalto e também por ditar as regras para as contas dos demais órgãos federais. No ano passado, gastou R$ 197 milhões em campanhas.

Fabio Wajngarten, chefe da Secom, e Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio da Alvorada, em Brasília - Ueslei Marcelino/Reuters - 19.nov.2019

Wajngarten assumiu o comando da pasta em abril de 2019. Desde então, se mantém como principal sócio da FW Comunicação e Marketing, que oferece ao mercado um serviço conhecido como Controle da Concorrência. O secretário tem 95% das cotas da FW, que tem contratos com ao menos cinco empresas que recebem do governo, entre elas a Band e a Record, cujas participações na verba publicitária da Secom vêm crescendo

A legislação vigente proíbe integrantes da cúpula do governo de manter negócios com pessoas físicas ou jurídicas que possam ser afetadas por suas decisões. 

Bolsonaro comentou o assunto após ser questionado três vezes sobre a permanência do secretário. Ele se recusou a responder questionamentos feitos pela Folha e disse que o jornal não tem moral para fazer perguntas.

"Fora, Folha de S.Paulo, você não tem moral para perguntar, não", afirmou, pedindo que outros repórteres fizessem perguntas. "Cala a boca", disse à reportagem.

O presidente voltou a distorcer o episódio da assessora fantasma revelada pela Folha em janeiro de 2018. O jornal mostrou que, como deputado federal, Bolsonaro usou dinheiro da Câmara dos Deputados para pagar o salário da assessora Walderice Santos da Conceição, que vendia açaí na praia e prestava serviços particulares a ele em Angra dos Reis (RJ), onde tem casa de veraneio.

Bolsonaro repetiu a versão de que ela estava de férias quando o jornal visitou o local pela primeira vez.

"Eu quero ver quando a Folha de S.Paulo vai desfazer a covardia que vocês fizeram com a Wal do Açai, de Angra dos Reis. Quando a Folha de S.Paulo vai fazer uma matéria desfazendo a covardia com a Wal lá de Mambucaba? Porque quando vocês falaram que ela estava fazendo açaí, ela estava de férias, conforme boletim legislativo da Câmara. Então a Folha de S.Paulo não tem crédito para acusar ninguém, não tem credibilidade. Lamentavelmente uma péssima imprensa o que faz a Folha de S.Paulo. Outra pergunta aí", disse.

A Folha esteve na pequena Vila Histórica de Mambucaba em duas oportunidades. Na primeira, em 11 de janeiro, durante o recesso parlamentar, a reportagem ouviu de diversos moradores, em conversas gravadas, que Walderice não tinha ligação com a política, prestava serviços na casa do parlamentar e tinha como atividade principal a venda de açaí e cupuaçu, em uma loja que inclusive leva o seu nome, “Wal Açaí”.

Na segunda oportunidade, em 13 agosto, a Folha retornou à vila e comprou das mãos de Walderice um açaí e um cupuaçu, em horário de expediente da Câmara. 

Nas declarações desta quinta, o presidente atacou novamente a Folha ao ser questionado pela reportagem sobre a sanção do projeto do fundo eleitoral, cujo prazo expira na próxima segunda (20). 

"Já falei que a Folha está fora. A Folha é um lixo. Eu quero saber, a Folha de S.Paulo, o Datafolha, eu perderia para todo mundo no segundo turno. Você não tem vergonha na cara, ainda vem aqui fazer plantão? Você não é o problema, é a Folha, desculpa ai. Nada contra você, você não é dona da Folha. Você está apenas cumprindo seu papel para tentar infernizar o governo. Qual pauta positiva a Folha teve do governo até hoje? Nada, zero. O 13º do Bolsa Família não apareceu na capa, se fosse no PT, que dava bilhões para a grande mídia o ano todo, estaria elogiando o Lula. Quanto a mim, é só pancada o tempo todo, acabou a mamata, Folha de S.Paulo."

Apesar das declarações do mandatário de que, segundo o Datafolha, ele não seria presidente, a última pesquisa do instituto antes do segundo turno das eleições de 2018 apontou a vitória de Bolsonaro, com 55% dos votos válidos, ante 45% de Fernando Haddad (PT) —​mesmos índices do resultado final.

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